A coragem de ser quem se é
Talvez o ponto mais delicado seja aceitar que a autenticidade não é um estado ideal, harmônico, livre de tensões
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de abril de 2026
Talvez o ponto mais delicado seja aceitar que a autenticidade não é um estado ideal, harmônico, livre de tensões
Sylvio do Amaral Schreiner 

Há algo dramático na tentativa de ser outro. Não se trata apenas de um desejo de mudança, que é legítimo e muitas vezes necessário, mas de um movimento mais radical que é o de abandonar a própria experiência para ocupar um lugar imaginado, idealizado, frequentemente estrangeiro a si mesmo.
Desde cedo, aprendemos a nos olhar pelos olhos dos outros. Há expectativas, modelos, formas de ser que parecem garantir pertencimento, amor, reconhecimento. Aos poucos, vamos nos afastando de algo mais íntimo, mais próprio, em troca de uma versão que supostamente funcionaria melhor no mundo. O problema é que essa operação cobra um preço alto: quanto mais nos esforçamos para caber em uma imagem, menos habitamos aquilo que de fato somos.
Curiosamente, a ideia de “ser si mesmo” soa simples, quase banal. Mas, na prática, ela esbarra em uma dificuldade fundamental. Não sabemos exatamente quem somos. Ou melhor, sabemos de forma fragmentada, conflitiva, por vezes desconfortável. Há em cada sujeito uma trama psíquica construída ao longo da vida, marcada por experiências precoces, vínculos, perdas, fantasias. Essa “fôrma” não é algo que se escolhe ou se troca. Ela nos constitui.
E talvez seja justamente isso que tentamos evitar. Ser quem se é implica entrar em contato com fragilidades, contradições. Implica reconhecer que não seremos tudo, que não corresponderemos a todas as expectativas — nem às nossas, nem às alheias. Diante disso, a tentação de se reinventar como outro aparece quase como uma saída. “Se eu puder ser diferente, talvez eu escape do desconforto de ser quem sou”.
Essa fuga costuma ser apenas parcial. Algo insiste. Mesmo nas tentativas mais bem-sucedidas de adaptação, há um resto que não se encaixa, que retorna como sintoma, como mal-estar, como sensação de vazio ou de impostura. É como se a vida psíquica lembrasse, de tempos em tempos, que não se pode viver indefinidamente fora de si.
Isso não significa que estamos condenados a uma rigidez imutável. Pelo contrário, há um vasto campo de transformação possível. Podemos ampliar nossa capacidade de pensar, de sentir, de nos relacionar. Podemos desenvolver recursos internos, elaborar conflitos, encontrar novas formas de estar no mundo. Há movimento, há criação.
Porém, esse movimento não acontece pela negação de quem somos, e sim a partir disso. É sempre desde dentro da própria “fôrma” que algo novo pode emergir. Não se trata de se tornar outro, mas de tornar-se mais si mesmo; o que, paradoxalmente, nunca é um processo simples ou linear.
Talvez o ponto mais delicado seja aceitar que a autenticidade não é um estado ideal, harmônico, livre de tensões. Ser si mesmo inclui lidar com o que em nós é estranho, incômodo, por vezes até indesejado. Demanda uma convivência com aquilo que não se encaixa perfeitamente.
No fundo, a tentativa de ser outro pode ser entendida como uma recusa desse trabalho mais profundo. Uma recusa compreensível, até humana. Mas que, quando se prolonga demais, empobrece a experiência de viver.
Há algo de mais fértil, ainda que mais exigente, em reconhecer que não há como sair de si. Saber disso inicia um outro tipo de liberdade. Não a liberdade de ser qualquer coisa, mas a de poder, pouco a pouco, habitar aquilo que já se é.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina


