A leitura é, talvez, uma das experiências humanas mais próximas do que chamamos de intimidade psíquica. Quando abrimos um livro, algo em nós também se abre. Um espaço silencioso e vivo onde as palavras do autor encontram nossas próprias palavras ainda não ditas. A literatura tem esse poder misterioso de atravessar o tempo, as culturas e tocar o que é universalmente humano: nossos desejos, angústias, medos e esperanças. Ela fala, em última instância, daquilo que a psicanálise também procura compreender: o funcionamento da mente, os enigmas do amor, o sofrimento e a possibilidade de transformação.

Um romance, um poema ou um conto pode, muitas vezes, dizer mais sobre nós do que longas teorias. Em uma história, reconhecemos nossos conflitos sob outras formas. O herói que teme o fracasso, a mulher que luta entre o amor e a liberdade, a criança que busca um olhar que a reconheça. O prazer da leitura nasce justamente dessa coincidência entre o texto e o inconsciente: quando o que está escrito parece ecoar o que está em nós, sentimos que aquele livro foi “escrito para nós”. O personagem vive algo que não sabemos nomear, mas que nos habita. E é nesse reconhecimento silencioso que a leitura se torna uma experiência transformadora.

Freud dizia que os poetas chegaram antes dos psicanalistas ao território da alma humana. De fato, qualquer conceito psicanalítico como recalque, desejo, culpa, narcisismo, amor, perda, pode ser encontrado nas páginas da literatura. Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, Clarice Lispector, Kafka, Virginia Woolf e tantos outros revelam, em suas narrativas, o drama psíquico de ser humano, com suas contradições e suas buscas. Ao ler, participamos desses dramas, e eles nos ajudam a pensar e a sentir de modo mais complexo.

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A literatura, portanto, é uma forma de elaboração simbólica. Ela oferece imagens e palavras que o sujeito pode usar para dar forma ao indizível. Um bom livro nos faz sonhar acordados, nos convida a metabolizar afetos, a reconhecer o que estava sem nome. Nesse sentido, a literatura e a psicanálise tem um território em comum. O leitor se escuta quando lê, assim como o paciente se escuta quando fala com o analista na sessão.

Ler é um modo de se conhecer e também de se humanizar. Quando uma história nos toca, é porque ela fala do que somos e do que poderíamos ser. O prazer da leitura está em permitir que a mente se mova, que viaje por territórios psíquicos que antes estavam adormecidos. A literatura nos oferece esse dom raro de transformar o sofrimento em narrativa, o indizível em palavra, e o íntimo em arte. É por isso que, em cada página, encontramos um espelho e uma travessia e saímos diferentes do ponto de partida.

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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina

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