Ano Novo e seus sentidos
Esperar do futuro é menos um exercício de adivinhação e mais um gesto de confiança na própria capacidade de suportar o desconhecido
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Esperar do futuro é menos um exercício de adivinhação e mais um gesto de confiança na própria capacidade de suportar o desconhecido
Sylvio do Amaral Schreiner 

O Ano Novo costuma despertar no imaginário coletivo uma sensação de renovação e esperança. A contagem regressiva, o relógio que marca a meia-noite e o som dos fogos parecem anunciar não apenas a passagem do tempo, mas a possibilidade de uma nova vida. A festa do réveillon é, simbolicamente, um ritual de expectativas, uma tentativa de reconciliar-se com o que passou e de projetar, ainda que por instantes, uma imagem idealizada do que se deseja ser. No entanto, por trás do brilho e da euforia, há também o movimento psíquico de luto e de recomeço. É que para algo morrer, dentro de nós, no instante em que o velho ano termina para algo novo nascer, só pode ocorrer se houver espaço interno para que isso aconteça.
As promessas de início de ano são, nesse sentido, expressões de desejo, mas também defesas. Prometemos mudar, ser mais calmos, mais saudáveis, mais felizes, como se pudéssemos, por decreto, apagar o passado. Essa tentativa de ruptura, embora necessária, muitas vezes se choca com a persistência do inconsciente, que repete, insiste e revela o quanto não somos donos absolutos de nossas intenções. A psicanálise nos ensina que não há verdadeiro começo sem elaboração. O novo só se constrói quando o antigo é reconhecido, quando as feridas e as frustrações são pensadas e metabolizadas transformando-se em experiências.
Esperar do futuro, portanto, é menos um exercício de adivinhação e mais um gesto de confiança na própria capacidade de suportar o desconhecido. O futuro não é um lugar a ser previsto, mas um território a ser vivido. Quando projetamos demasiadas expectativas sobre ele, corremos o risco de nos afastar do presente e de nós mesmos. A vida se dá no agora e é a forma como habitamos o instante que prepara o terreno do porvir.
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Viver de maneira mais eficiente consigo mesmo talvez signifique viver de modo mais honesto com a própria verdade interna. Reconhecer os próprios limites, acolher o que não se realizou e permitir-se sonhar sem se aprisionar nos ideais. A eficiência psíquica não está em produzir mais, mas em sentir mais plenamente; não em controlar tudo, mas em abrir-se para o que ainda não se sabe.
O Ano Novo, portanto, pode ser mais do que uma festa: pode ser um espaço simbólico de reencontro. Reencontro com o que fomos, com o que ainda somos e com o que, em potencial, podemos vir a ser. Talvez o verdadeiro sentido de celebrar o novo esteja em desejar, com humildade e coragem, continuar o trabalho de nos tornarmos, não outros, mas mais inteiros, mais vivos, mais verdadeiramente presentes no fluxo inevitável e misterioso do tempo.
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A opinião do colunista não é, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina




