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Londrina

CÉLIA MUSILLI

m de leitura Atualizado em 09/07/2022, 06:07

A flor-de-maio e outras memórias dos jardins

PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de julho de 2022

Celia Musilli - Editora
AUTOR autor do artigo

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Perdi as contas de quantas vezes vi florescer a flor-de-maio. Na minha infância, a mãe cultivava vasos grandes da flor exótica que só apresentava seus botões no mês do meu aniversário. Depois, com o passar dos anos, a planta , como muitas coisas na vida moderna, perderia a sincronicidade com o mês que lhe deu nome, passando a florescer tardiamente.

Na varandinha do meu apartamento, no centro de Londrina, vejo agora botões e flores nos três vasos. Já estamos em julho e a flor-de-maio desponta em vermelhos e laranjas de um sono que durou dois meses a mais.

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Tenho pensado em como perdemos a sincronicidade conforme os hábitos - e principalmente o clima - se alternam neste velho planeta. Botões que abririam em maio florescem em julho. Jovens retardam a idade adulta chegando aos  30 ou 40 anos com certa dependência que, na nossa geração, abandonávamos aos 20. Em compensação, os velhos parecem mais jovens transformando os 60 anos de ontem nos 40 de hoje. 

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. |  Foto: Marco Jacobsen
 

De volta à flor-de-maio, lembro-me da alegria da mãe mostrando seus vasos. Há uma porção de plantas "antigas" que fizeram parte do meu quintal. As avencas, também cultivadas pela avó, tornam a vida mais delicada ao exibir aquele emaranhado de folhinhas verdes que parecem a renda feita por uma mulher caprichosa. As hortênsias, que preferem áreas sombreadas, também ficavam no corredor  ao lado esquerdo de minha casa, assim como a flor-de-cera escalava um muro na lateral direita, atirando-se num "abismo" de três metros, onde também se jogava a alamanda, uma trepadeira amarela que às vezes eu castigava tirando os botões para enfiar nos dedos como um dedal, imaginando ter unhas compridas. A alamanda é planta leitosa, diziam que venenosa, coisa que nunca ficou provado quando brincava com seus botões como uma manicure.

Minha mãe tinha um senso estético raro para as donas de casa de sua geração, seus jardins eram simétricos. Com três canteiros quadrados na parte da frente da casa, ela cultivava kalanchoes vermelhos no tempo em que eles se chamavam "Chiquita Bacana", em homenagem à música cantada por Emilinha Borba, uma de suas artistas preferidas na Era do Rádio.

Os kalanchoes vermelhos 'sangravam' os canteiros uma vez por ano, para depois serem substituídos por margaridas  ou cravos. De perene, existia a roseira amarela, xodó de meu paí, mas a estrela da casa era a roseira cor-de-rosa pálido amarrada a uma pilastra ao lado da varanda  da casa de madeira sem pintura, dando um ar de nobreza onde tudo conjugava a simplicidade.

As lembranças voltam no dia em que vi despontar um botão indeciso da flor-de-maio que agora cultivo. Digo indeciso porque ainda não sei se ele vinga ou não. Parece meio ressentido pelo excesso ou falta de regas. Mas fico sabendo pela amiga Teresa Guedes que a flor-de-maio é da família dos cactos e os cactos não precisam de tanta água, talvez seja esse meu erro. Mas também me lembro que os cactos são resistentes e não será um pouco de água a mais que haverá de matar a planta que agora floresce em julho, tardia como os "jovens" de 40 anos, teimosa como suas ancestrais e que, em vez de espinhos, dizem os manuais botânicos, oferece flores. 

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