PANDEMIA -

Londrinense se adapta após anúncios de medidas preventivas ao coronavírus

No Calçadão, transporte público, feira, universidade, cidadãos alteram rotina e adotam novos hábitos em busca de proteção

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha

Um dia após os anúncios oficiais do governo sobre as medidas preventivas contra o novo coronavírus, Londrina amanheceu com rotina e hábitos diferentes nesta terça-feira (17). Quem utiliza o transporte público e frequenta o Calçadão, por exemplo, sentiu o fluxo de pessoas diminuir. A UEL (Universidade Estadual de Londrina) suspendeu as aulas. O campus, vazio, chegou a receber algumas visitas de quem precisava resolver assuntos de ou se organizar para os próximos dias. Nas ruas ou em casa, o londrinense relata como a situação tem impactado o cotidiano.


Calçadão da UEL
Calçadão da UEL | Lais Taine - Grupo Folha
 


“Eu sou do curso de odontologia, suspenderam as atividades da clínica, então eu vim para cancelar meus pacientes e pegar alguns livros na biblioteca para ficar em casa, vou aproveitar para fazer meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso)”, afirma Carolina Shintani, 21. A UEL suspendeu as aulas a partir desta terça-feira (17), mas algumas pessoas ainda apareceram no campus para resolver pendências ou reorganizar as atividades futuras. 




Esse foi o caso da professora do departamento de química, Gizilene de Carvalho. “Vim por questões do laboratório e me informar sobre a pós-graduação e pesquisa. Hoje, em vários setores têm reunião para decidir as atividades futuras”, revela a docente.  


 


A aluna do mestrado em Ciência da Reabilitação, Kerlina Mella, 31, precisou passar na universidade para pegar um documento. Ela veio da República Dominicana e precisava apresentar alguns certificados para se manter legalmente no país. “Estou aqui há 1 ano, mas estava de férias e retornei no dia 10 de março. No meu país, a doença não está tanto em evidência, ainda está tranquila. No Brasil, percebo que está começando agora com as precauções. Hoje não tem aula, mas eu precisava ajustar algumas questões burocráticas”, afirma. 


Leonardo Antônio Carvalho, proprietário de duas cafeterias dentro do campus, estava com a equipe no campus para definir como ficarão as atividades do estabelecimento. “Chegamos às 7h30, mas estamos fechados. Fizemos uma reunião com os funcionários, ficaremos sem atendimento até o dia 12 de abril. Decidimos isso diante das notícias da universidade”, comenta.  


Apesar do anúncio de suspensão no dia anterior, o comerciante comentou que apareceram alguns alunos desavisados e pessoas ligadas à pesquisas e administração. O estacionamento ao redor da reitoria e pró-reitorias estava com grande quantidade de veículos. 


ADMINISTRAÇÃO 

O reitor Sérgio de Carvalho e equipes da administração percorreram o campus para tomar decisões junto as áreas competentes. “Todas as nossas pró-reitorias e órgãos suplementares de atenção à população estão reunidas e organizando como serão os trabalhos nas próximas semanas, de maneira que a gente permaneça com o mínimo de pessoas possível no campus e preserve muito das atividades essenciais”, aponta.  


A universidade possui pesquisas que não podem ser paralisadas, além de animais sob guarda e áreas de saúde que se mobilizam para o atendimento do coronavírus e dengue, além das as equipes de plantão no monitoramento do campus. “É um processo de organização para que a gente possa fazer parte do esforço que o país está fazendo e ao tempo manter o mínimo das atividades absolutamente essenciais.” 

As bibliotecas estão funcionando sob horário especial até a quinta-feira (19), para que os alunos possam devolver ou emprestar livros para estudos em casa. A Prograd (Pró-Reitoria de Graduação) continua recebendo os documentos dos aprovados em chamadas do vestibular. O RU (Restaurante Universitário) ficou aberto nesta terça-feira (17), mas será fechado a partir do dia seguinte. As bolsas estão garantidas no primeiro momento, estagiários foram dispensados, mas continuam recebendo. Alguns editais terão o prazo estendido, mas cabe a cada candidato observar os prazos.  Servidores não estão dispensados do trabalho, mas terão atividades para realizar em casa e vão trabalhar em regime de escala. Setores de manutenção, como segurança e limpeza, também serão mantidos. 

O conselho de administração e o conselho de ensino, pesquisa e extensão estão envolvidos neste processo de decisão e o reitor acredita que até a quarta-feira, a comunidade já tenha a divulgação das definições estabelecidas. “A UEL está dando contribuição para o esforço que Londrina e Paraná estão fazendo com toda a seriedade e gravidade que o momento exige de nós, não só dos gestores, mas do próprio cidadão mesmo, então estamos em ação de gestação e de cidadania”, argumenta o reitor.  


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NO CALÇADÃO

Graciele Maria Nápoli, 39, é comerciante e precisou resolver alguns assuntos no centro de Londrina. Passando pelo Calçadão, conseguiu notar hábitos diferentes na cidade. “Vi gente com máscaras e luvas, álcool em gel em vários lugares.  Percebi a rotina abalada, no Calçadão tem menos gente, as pessoas estão saindo menos de casa”, comenta. No dia anterior, havia passado pelo supermercado, onde também notou alterações. “Luvas até no supermercado. As prateleiras de álcool em gel estavam vazias, pessoal com bastante mercadoria, mas não estava faltando nenhum produto da área de alimentos”, afirma. 

Por trabalhar no ramo de alimentação, a comerciante já fazia compras de máscaras e álcool em gel antes da epidemia chegar ao Brasil e percebe o aumento nos preços desses itens. “O que era R$ 5 reais, agora está R$ 20”, denuncia. Ela acredita que o londrinense esteja cumprindo as orientações e até criando alternativas simpáticas em meio aos problemas. “As pessoas se encontram e batem os pés, como se fosse um passinho de dança. Então reinventando o cumprimento”, ri. 

Celso Costa Eduardo, 57, como muitos, está à procura de álcool em gel. “Entre mercado e farmácia acho que já passei em uns 10 estabelecimentos e não encontrei”, aponta. O agente penitenciário afirma que precisa ter um cuidado maior por conta do seu trabalho. No Calçadão, ele estava em busca de alguns itens que podem auxiliar na prevenção. No ônibus, faz o que pode. “Procuro encontrar um cantinho para mim, sempre uso a mão esquerda para me segurar e evito de levá-la ao rosto”, ensina.  

Para ele, o londrinense está preocupado, mas se comportando bem diante do risco da doença. “Há uma preocupação. Todo mundo está entendendo, meu grupo de futebol cancelou os jogos por tempo indeterminado para evitar contato e acho que as pessoas estão tentando como podem."

Circulando com uma máscara que custou R$ 10,80, Raoni Vinhoto, 32, percebe os olhares curiosos. “Muita gente olhando para a minha cara como se eu fosse um monstro, mas essa doença é como se fosse um monstro mesmo”, aponta. Tomando todos os cuidados conforme orientado, o administrador de empresas conta que em todo lugar que vai, utiliza o álcool gel e coloca o braço no rosto quando vai tossir ou espirrar, além de não ficar muito próximo das pessoas. “Evito entrar em bancos e locais fechados, não estou usando ônibus, estou tentando continuar minha rotina normal, mas tomando todos os cuidados”, afirma. 

NA FEIRA 

Ivone Zucoloto chegou às 5h na feira e já sentiu que tinha algo diferente. "Normalmente a gente chega, monta a barraca e já tem alguém circulando, hoje não tinha", conta a feirante. Ela aponta que o movimento vinha caindo, mas após os anúncios de medidas preventivas contra o novo coronavírus, os londrinenses ficaram ainda mais reclusos. Nesta terça-feira (17), a feira da rua Bartolomeu Bueno, no Centro, amanheceu mais tranquila sob a percepção da feirante. 

 

Londrinense se adapta após anúncios de medidas preventivas ao coronavírus
Lais Taine - Grupo Folha
 


“A de domingo eu já achei mais calma, porque lá nos Cinco Conjuntos existe maior movimento, aqui já é mais calma mesmo, mas eu percebi que as pessoas vieram menos”, conta Zucoloto. Para Maria Pinha Leite, 57, que faz compras toda semana na feira, também houve uma mudança. “Venho toda terça-feira, hoje parece mais vazio.” Apesar disso, não vê mudança nos hábitos dos frequentadores. “O brasileiro tem medo, mas não toma precauções, então não vejo muita alteração. Eu tenho muito medo, então eu lavo bem as mãos, até porque eu cuido de uma senhora de 90 anos”, argumenta. 


Carmen Rosolém, 56, não sentiu tanta diferença no volume de pessoas na feira, mas diz que as pessoas estão comprando mais determinados tipos de alimento. “Arroz, feijão, açúcar, óleo e ovos”, menciona. Ela cita não só pela feira, mas por ter frequentado o supermercado nos últimos dias. “Eu vi que as pessoas compraram mais. Eu mesma compro para 15 dias e acabei comprando para um mês”, comenta.  


NO TRANSPORTE COLETIVO

Sem alternativa, usuários do transporte público estão se protegendo como podem. Como não conseguem evitar aglomeração, estão utilizando os veículos com as janelas abertas e utilizando o álcool em gel com mais frequência. De acordo com a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização), o órgão e as concessionárias do transporte coletivo estão providenciando a aquisição de álcool em gel para disponibilizar nos terminais de integração.  


“Hoje veio menos gente na minha linha, mas não percebi alteração no serviço e nem nas pessoas que utilizam. Vejo gente tossindo sem colocar a mão na boca, não vi ninguém limpando o veículo e nenhuma orientação aos passageiros”, relata Viviane Braga, 39. A promotora de vendas relata um certo temor, pois ela já teve H1N1 e ficou internada por nove dias na ocasião. “Eu tive pneumonia dupla, então eu tenho que tomar cuidado com o coronavírus também”, afirma.  


Braga às vezes consegue contar com o único meio de transporte da família, uma motocicleta que o marido utiliza para se locomover até o trabalho horas antes do expediente dela. Como grupo de risco, ela teme ser infectada pelo covid-19. “Estou até repensando as ações, sair até do emprego para eu não ficar tomando esse risco”, afirma. 


Adriana Bueno, 43, trabalha como operadora de caixa em uma farmácia e comenta os riscos que ela tem no trabalho e no transporte. “A gente não tem como evitar de pegar ônibus lotado, não tem como não ficar próxima das pessoas, então eu faço o que eu posso”, lamenta. Como prevenção, adotou o costume de lavar mais as mãos e evitar se segurar ou encostar nos equipamentos públicos. 


Ela pega a linha 104, do jardim Interlagos (leste), e apontou que não viu higienização dentro ônibus, o que a leva a se prevenir ainda mais. “Eu tenho que me prevenir, porque eu trabalho em farmácia, tem gente de todas as idades e pessoas já debilitadas”, aponta. 


Thania dos Santos Vieira, 34, presenciou uma alteração na rotina. Ela pegou a linha 406, do conjunto Aquiles Stenghel, por volta das 6h50. Quando chegou ao Terminal Central, todos os passageiros foram orientados a descer para que o carro fosse higienizado. “Todo mundo perguntou o motivo, eles explicaram que todo ônibus que chegasse ao Terminal seria higienizado, e pediu para a gente mudar para outro que já estava limpo”, comenta a promotora de eventos. 


Ação que durou pouco, após o horário de pico, os veículos que chegavam no Terminal Central não passaram pelo mesmo processo. “Na volta do trabalho, perto das 12h, eu peguei outra linha que não passa pelo Terminal, nessa ocasião, não vi o mesmo procedimento e quando eu peguei as janelas estavam fechadas”, relata. “Eu pedi para abrir e o próprio motorista pediu desculpas, ele disse que o carro tinha saído da garagem e ele mesmo se prontificou a parar o ônibus e abrir todas os vidros.” 


Vieira falou que apesar de ter presenciado a operação, não vê por parte dos passageiros a mesma precaução. “Eu vi umas quatro pessoas de máscara, mas os outros olham diferente para elas, não como prevenção, mas como se a pessoa já estivesse contagiada. Uma moça do meu lado se sentiu mal por estar usando a máscara”, declara. “Acho que é sinal de que ela estava se protegendo. O resto do pessoal só conversando para lá e para cá, tossindo e espirrando.” 


METROLON

O Metrolon (Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo) emitiu nota informando que, além da lavagem diária e completa que já é realizada em todos os veículos, os ônibus em circulação também serão higienizados com álcool 70º a cada viagem quando pararem nos terminais. Entre outras medidas tomadas estão disponibilizar dispensers com álcool em gel nos terminais, os ônibus vão rodar com as janelas abertas e veículos com ar condicionado serão retirados de circulação. 


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Folha Arte
 



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