O papel decisivo das universidades na Londrina que cresce e inova
Aos 91 anos, o município reafirma sua vocação de ser uma cidade universitária, inovadora e aberta ao futuro
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
Aos 91 anos, o município reafirma sua vocação de ser uma cidade universitária, inovadora e aberta ao futuro
Aline Machado Parodi - Especial para FOLHA 

No aniversário de 91 anos de Londrina, a cidade celebra não apenas sua história, mas também um elemento central na construção de sua identidade e no impulsionamento de sua economia, a educação. As universidades se tornaram o seu eixo de transformação, moldando o mercado de trabalho, atraindo empresas e formando gerações de profissionais que colocaram Londrina no mapa nacional da inovação.
A cidade tem um polo universitário que abriga mais de 29 mil universitários, distribuídos entre 14 instituições de ensino superior presenciais, segundo o Censo da Educação Superior de 2024. Quando somados os polos de educação à distância, o número cresce ainda mais.
A presença de tantos estudantes transforma a economia local. Fomenta o setor de serviços, mercado imobiliário, fortalece bares, restaurantes, lojas e transporte, movimenta eventos culturais e científicos e atrai investimentos estratégicos.
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A força econômica vai além do consumo estudantil. A ex-presidente da Governança das Instituições de Ensino Superior de Londrina, Flávia Pomin Frutos, reitora da Unopar, afirma que o setor educacional está entre os grandes contribuintes da cidade. A Unopar, por exemplo, recolhe ISS na origem. “Isso significa que o imposto pago por alunos de todo o Brasil retorna para Londrina, trazendo impacto direto para os cofres municipais”, explica Flávia Frutos.
Ciência e setor produtivo
Pensando na contribuição do setor educacional para o desenvolvimento da cidade, em 2020 foi criada a Governança das IES (Instituições de Ensino Superior), para conectar academia, governo e mercado. O objetivo não é fortalecer cada instituição individualmente, mas sim diminuir os gargalos entre ciência e setor produtivo.

Entre as principais ações estão o mapeamento de laboratórios e equipamentos científicos disponíveis nas IES, abertura dessa infraestrutura para empresas desenvolverem produtos, testes e tecnologias; realizar rodadas de negócios entre pesquisadores e empresários; participação das universidades em hackathons promovidos por outros setores; e incentivo à pesquisa aplicada e à inovação.
O modelo chamou atenção nacional e internacional. Delegações vindas de grandes polos tecnológicos buscam conhecer o ecossistema da cidade. “Eles ficam impressionados ao ver instituições concorrentes atuando lado a lado”, conta Flávia.
“Nosso trabalho não é pensar em inovação apenas para o segmento da educação. Estamos ali para aproximar empresários e pesquisadores, promover projetos conjuntos e mostrar como a inovação acontece dentro das universidades”, explica Fernanda Clivati Fassula, presidente da Governança e Coordenadora da CPA (Comissão Própria de Avaliação) e Ouvidora da Unifil.
Durante o Festival Internacional de Inovação, realizado em novembro, por exemplo, a Governança organizou um painel com cases de empresas que já utilizam laboratórios e pesquisas acadêmicas para desenvolver produtos ou aplicar tecnologias. “O objetivo é mostrar de forma prática o caminho dessa integração”, disse a presidente.
Mapa do ensino superior
Em setembro, a Governança atualizou todos os seus indicadores em um levantamento inédito com informações sobre o número de instituições de ensino na cidade, programas de mestrado e doutorado, quantidade de laboratórios, ambientes de inovação vinculados às universidades, valor estimado do patrimônio científico, empresas atendidas, pedidos de patentes, registros e transferências de tecnologia.
Dentro do site da Governança, as empresas interessadas em parcerias contam com o buscador de laboratórios. Nele, os empresários podem digitar palavras-chave e localizar, instantaneamente, quais laboratórios e pesquisadores estão aptos a atender suas demandas. “Evoluímos muito. Agora, nossa missão é divulgar esse sistema e aprimorar continuamente seus dados”, afirma Fernanda Clivati Fassula.
Mão de obra qualificada
A reitora Flávia Pomin Frutos enfatiza que a absorção da mão de obra oriunda da academia é expressiva em diversas áreas. Grande parte dos egressos da área da saúde permanecem na região, assim como os mercados de gestão e comunicação, engenharias tradicionais (civil e elétrica) e tecnologia. “Temos desafios nas áreas das engenharias ligadas à indústria, como a de produção. Faltam mais parques industriais para absorver esses profissionais. Mesmo assim, Londrina segue sendo um dos destinos preferidos de empresas que buscam mão de obra qualificada”, ressaltou.
Para a presidente da Governança, não há dúvidas sobre o peso da educação superior no desenvolvimento londrinense. Sem o polo universitário, diz ela, a cidade não teria atraído empresas de tecnologia de porte internacional, como Atos e TCS.
“Essas empresas vieram para Londrina porque sabiam que encontrariam aqui a mão de obra qualificada. Essa mão de obra é fruto das nossas instituições de ensino”, disse.
Na visão dela, o conjunto das 14 instituições de ensino superior posiciona Londrina como um dos polos educacionais mais relevantes do interior do país, condição que impacta diretamente a economia e a capacidade de inovação da cidade.
Aproximação com o mercado
A Governança tem metas claras para os próximos anos, como ampliar a conexão entre pesquisadores e empresários. Têm sido promovidas agendas específicas para aproximar os dois mundos, por meio de rodadas e encontros para discutir demandas reais, projetos e oportunidades.
As instituições vêm estimulando pesquisas que gerem impacto no mercado. Os dados preliminares de uma pesquisa interna que ainda está em andamento, apontam que 40% dos pesquisadores já atuam em projetos em parcerias com empresas. Entre os que têm essa experiência, 97% desejam continuar desenvolvendo pesquisa aplicada. “O interesse existe, e isso nos deixa muito felizes. Precisamos fortalecer essa ponte cada vez mais”, diz Fernanda Fassula.
Impacto da extensão universitária
Desde 2023, o Ministério da Educação tornou obrigatória a carga mínima de 10% de extensão para todos os cursos de graduação. Isso significa que todo aluno precisa atuar diretamente na comunidade, prestando serviços, organizando projetos e desenvolvendo atividades sociais.
As universidades mantêm dezenas de clínicas de psicologia, fisioterapia, odontologia, nutrição, medicina veterinária, farmácia, núcleos de práticas jurídicas. O volume de atendimentos é tão grande que, segundo Flávia Frutos, as clínicas universitárias desafogam o SUS (Sistema Único de Saúde) na cidade. Escolas municipais também recebem apoio em projetos sociais, hortas comunitárias, atividades culturais e educativas. “A universidade não pode ser intramuros. O aluno é um agente transformador”, afirma a reitora da Unopar.
Congressos, simpósios, feiras, semanas acadêmicas e encontros nacionais geram fluxo turístico e fortalecem o setor de serviços. Hotéis, restaurantes, bares e transporte ganham fôlego em semanas de grandes agendas universitárias. E isso se reflete na imagem da cidade. Londrina se consolida como centro de produção de conhecimento e inovação. “A UEL foi a grande virada de chave. Depois dela, o crescimento universitário transformou Londrina”, disse Flávia Frutos.
Para Fernanda Fassula, Londrina está em um momento vibrante, especialmente pela expansão dos ambientes de inovação e pela força do ecossistema local. “A gente precisa voar, precisa de mais startups se desenvolvendo, precisa de mais startups sendo aceleradas. Então, esses ambientes vão promover isso, com certeza.
Ao completar 91 anos, Londrina reafirma aquilo que sempre fez parte da sua essência, que foi investir em gente.
Potencial londrinense
Uma cidade promissora e com grande potencial para o crescimento educacional. Esses pontos foram diferenciais que chamaram a atenção da Universidade Positivo na hora de decidir abrir um campus em Londrina. De acordo com a instituição, Londrina é um município jovem, mas que apresenta forte potencial de desenvolvimento em diversas áreas, especialmente na educação. “Enxergamos Londrina como um polo educacional, uma cidade universitária, com características e demandas que favorecem a expansão da área acadêmica”, afirmou Pablo Caldarelli, coordenador geral do campus Londrina da Universidade Positivo.
Além disso, Londrina se destaca por suas relações comerciais, industriais e agropecuárias, tanto na região quanto em estados próximos. Essa dinâmica econômica cria um ambiente favorável para formação de mão de obra qualificada, especialmente nos setores de serviços e saúde. “Nesse sentido, entendemos que a Universidade Positivo tem papel fundamental na formação dessa força de trabalho. Por isso, destacamos Londrina como uma cidade promissora e com grande potencial para o crescimento educacional”, enfatizou.
O coordenador geral comenta que nestes primeiros anos da universidade em Londrina houve um número expressivo de alunos e a instituição ampliou a oferta de cursos. O campus de Londrina conta com dez cursos presenciais. Na área da saúde, destacam-se odontologia, enfermagem, psicologia, fisioterapia, biomedicina e farmácia. Também oferece cursos em outras áreas, como direito, arquitetura e urbanismo, análise e desenvolvimento de sistemas e engenharia de software.
“Avalio esses primeiros anos como um período de muito sucesso. Esse crescimento foi tão relevante que nos levou a realizar a transição para uma nova unidade, mais adequada à alta demanda”, disse Caldarelli.
A universidade faz parte da Governança das IES e para Caldarelli participar dos espaços de governança é essencial para contribuir com a construção e o desenvolvimento de uma Londrina cada vez melhor.
A UEL e a cidade que cresceu com ela
Há capítulos da história de Londrina que não podem ser contados sem a presença da UEL (Universidade Estadual de Londrina). Desde a década de 1950, o ensino superior já fazia parte da formação econômica, intelectual e social da cidade, que hoje completa 91 anos.



E nenhuma instituição sintetiza esse impacto mais do que a UEL, que, ao longo de cinco décadas, formou profissionais, produziu ciência, ofereceu serviços públicos essenciais e se tornou um dos principais pilares do desenvolvimento regional.
Quando Londrina ainda engatinhava, a formação superior já começava a ganhar forma. “A cidade se estrutura nos anos 1930, e já na década de 1950 tinha ensino superior”, lembra Marta Regina Gimenez Favaro, reitora da UEL.
A consolidação da UEL em 1970 ampliou esse impacto. De lá para cá, segundo Marta, mais de 100 mil profissionais formados pela universidade vieram de outras regiões e permaneceram em Londrina, contribuindo diretamente para o crescimento econômico e para a qualificação da mão de obra local. Além disso, a UEL movimenta a cidade com 22 mil pessoas circulando entre o campus e os serviços vinculados à instituição, como estudantes, docentes, técnicos, trabalhadores e familiares que moram, consomem e vivem em Londrina.
Poucas instituições brasileiras têm uma estrutura tão ampla de atendimento direto à população quanto a UEL. Os serviços ofertados pela universidade formam uma verdadeira rede que influencia desde a saúde pública até a cultura e a produção científica.
Entre os serviços mais emblemáticos estão o HU (Hospital Universitário), que atende média e alta complexidade para toda a macrorregião. “São milhares de pessoas acompanhadas por um corpo técnico muito competente. Ali se faz serviço, ensino e pesquisa ao mesmo tempo”, destaca a reitora. O Hospital Veterinário, um dos únicos hospital-escola com atendimento 24 horas no Paraná, oferecendo suporte essencial a animais domésticos e de grande porte. O Escritório de Aplicação Jurídica (EAJ), que oferece orientação jurídica gratuita, permitindo acesso à Justiça para quem não teria condições de pagar.
As clínicas-escola de psicologia, fisioterapia, odontologia, farmácia, nutrição, entre outras áreas que realizam atendimentos contínuos à comunidade. Na área da cultura e educação, a Casa de Cultura, Teatro Ouro Verde, museus de Zoologia e Anatomia, Colégio de Aplicação e Fazenda Escola formam um complexo de experiências educativas e culturais único na região. “Quase todo londrinense já teve contato com a UEL, mesmo sem perceber. Seja em um atendimento, em um projeto, em um espetáculo, em uma orientação”, afirma a reitora.
Para além dos serviços, a presença da UEL se reflete na formulação de políticas públicas. Professores participam de conselhos municipais, ajudam na elaboração de projetos, prestam assessorias técnicas e contribuem diretamente na construção das decisões que afetam Londrina. “É uma relação de rede, de imbricação entre a nossa atividade e a atividade do município”, resume Marta.
Nos últimos anos, a universidade reforçou sua atuação no ecossistema de inovação da cidade, especialmente por meio da Aintec (Agência de Inovação Tecnológica) e Intuel (Incubadora Internacional de Empresas de Base Tecnológica) e dos laboratórios que prestam serviços ao setor produtivo.
A reitora destaca a conexão com a Estação 43 (Ecossistema de Inovação de Londrina) e com ambientes de inovação que aproximam a academia das empresas. “Muitos laboratórios atendem empresas e comércios que precisam resolver problemas específicos. Essa troca está cada vez mais presente”, explica. Projetos de pesquisa e cooperação com o IDR (Instituto de Desenvolvimento Rural) e outras instituições estaduais também ampliam a presença da universidade na economia.
A dimensão da UEL impressiona. São mais de 13 mil estudantes de graduação, 3 mil de pós-graduação, 1.600 professores, cerca de 1.600 técnicos, 53 cursos, além de três novos cursos que estão aguardando aprovação do governo. No HU são aproximadamente 3 mil trabalhadores.
Parque tecnológico
Os próximos anos serão marcados por uma das maiores transformações da história da universidade. O principal projeto em andamento é o UELtech, um complexo de inovação que integra laboratórios avançados, ambientes de pesquisa, áreas de recepção de empresas e parque tecnológico em parceria com a iniciativa privada.
“É um projeto com enorme potencial de impacto social e econômico. Vamos receber empresas, gerar inovação e transformar ciência em desenvolvimento para a cidade”, afirma Marta. Os laboratórios da Aintec e da Intuel já estão plenamente operando, o que deve acelerar o processo até que toda a estrutura esteja concluída.
Se Londrina hoje é referência em saúde, educação, cultura, inovação e qualidade de vida, muito disso se deve à presença da UEL. Ao longo de cinco décadas, a universidade formou profissionais, gerou conhecimento, produziu ciência, movimentou a economia e ofereceu serviços essenciais que tornam a cidade mais humana, mais qualificada e mais preparada para o futuro.


