INTERNET - O lado viciante da tecnologia
A dependência da internet já causa preocupação e motivo para uma campanha nacional: um domingo inteiro longe das redes sociais
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2019
A dependência da internet já causa preocupação e motivo para uma campanha nacional: um domingo inteiro longe das redes sociais
Erika Gonçalves - Grupo Folha 

Criado como um meio de comunicação, o celular hoje carrega boa parte da vida de cada um de nós: da agenda ao aplicativos de filmes e séries, do aplicativo do banco às redes sociais. Ficar conectado durante muitas horas, portanto, não é algo muito difícil. Se a tecnologia foi pensada para facilitar o dia a dia, o que realmente faz, também foi criada para gerar lucro. Justamente por isso se torna mais atrativa e já causa problemas, tanto é que no dia 6 de outubro uma campanha nacional irá incentivar o Detox Digital Brasil, um domingo para as pessoas tentarem ficar longe da tecnologia e repensarem o seu uso.
Cristiano Nabuco de Abreu, psicólogo e Coordenador do Núcleo de Dependências Tecnológicas do Ambulatório Integrado do Controle dos Impulsos / PRO-AMITI da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) explica que a dependência de tecnologia, termo usado para todas as telas digitais, ainda é diferente de outras porque essas telas são vistas como algo inofensivo, sem qualquer nível de risco e em função disso seu uso é estimulado, inclusive para crianças muito pequenas.
“O que sabemos é que todas as telas contam com um tipo de recurso que ninguém conta: a cada dia que passa existem centenas de engenheiros que ficam trabalhando sobre as mesmas mídias. A cada 24 horas os aplicativos são atualizados e nessa atualização se valem da ciência da persuasão, são incluídos sinais sonoros, luminosos, visuais e têm como objetivo atrair a sua atenção. Quando você vai para qualquer plataforma como essa, seja um jogo, internet ou qualquer aplicativo, você navega mais do que gostaria, visita locais que não tinha intenção original e gasta mais tempo do que aquele inicialmente planejado”, explica, citando que nos Estados Unidos um senador pediu que seja votado um projeto de lei para que os aplicativos deixem de usar esses mecanismos.
Segundo Abreu, em função da portabilidade da tecnologia trazida com o uso dos celulares houve uma mudança no perfil dos dependentes. Se antes o computador de mesa fazia com que os jovens amantes dos videogames fossem os mais afetados pelo problema, agora todas as faixas etárias são afetadas, com um perfil bastante parecido. Na página do Núcleo, inclusive, há um questionário para aqueles que desejam saber se são dependentes: www.dependenciadeinternet.com.br
“As pessoas que de certa maneira se sintam mais inseguras, que estejam vivendo uma oscilação emocional maior, ou até uma depressão, aquelas que tenham fobia social (estão mais sujeitos), a tecnologia veio para resolver uma série de problemas, criando um senso de conexão que antes não seria possível.”
Assim como no caso da dependência de substâncias, o uso excessivo e fora de controle é o alerta de que algo não vai bem. “Quando a tecnologia começa a ocupar um espaço que seria ocupável pelas interações no mundo real, quando você prefere se relacionar afetivamente através de aplicativos, perde a mão dos relacionamentos na vida real, começa a comprar de uma forma excessiva nas redes, busca parceiros sexuais na rede, ou seja, quando a rede acaba predominando no horizonte experiencial seu, isso é um indicativo importante de que alguma coisa já passou do limite. E temos alguns sinais: quando começa a ter prejuízos claros no trabalho, nos relacionamentos, no que diz respeito a parte acadêmica, na parte laboral, na parte do sono. Você tem marcadores que são indicativos fáceis de que a sua relação com a tecnologia já deixou de ser sensata há algum tempo”, ensina o psicólogo.
EQUILÍBRIO
Manter-se longe das telas pode parecer algo muito difícil, mas com um pouco de planejamento isso é possível, segundo o especialista. Ele sugere algumas medidas simples, que inclusive são utilizadas para os dependentes de internet que muitas vezes precisam continuar usando aparelhos eletrônicos para o trabalho.
“Se você vai trabalhar na internet, sem problemas, mas você vai fazer com que seu telefone celular esteja com todos os aplicativos de mensagens de texto, de redes sociais, no modo silencioso. Está proibido checar rede social, ficar navegando para ver onde se compra algo, você vai se debruçar sobre o seu trabalho. Quando acabar você abre, olha o que tem que olhar, terminou, fecha e coloca em outro cômodo. Se você deixar no mesmo, sua atenção fica fragmentada. Mesmo que esteja no modo silencioso, seu cérebro já aprendeu que aquilo é um estímulo de alta relevância. Diminua a quantidade de aplicativos na sua tela principal, deixe apenas aqueles que você entende que são fundamentais. As pessoas às vezes reclamam que mandam WhatsApp e eu não dou resposta. Eu dou resposta quando eu quero. Não é o outro ou a tecnologia que vão dizer quando responder. Ela deve tornar nosso dia a dia melhor e não o contrário, senão você se torna escravo.”
CRIANÇAS E APARELHOS ELETRÔNICOS

A grande dúvida dos pais é quando permitir o uso dos aparelhos eletrônicos pelos pequenos . O psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu reforça que antes dos 24 anos o cérebro ainda não está plenamente desenvolvido e por isso crianças e jovens não têm força para controlar determinados comportamentos. Ele cita que o uso abusivo dos videogames foi recentemente incluído como um novo transtorno e explica que os jogos atuais, feitos para serem jogados em times, incentivam esse uso abusivo.
“Diferentemente dos jogos do passado, a minha saída (do jogo) vai comprometer a performance do grupo como um todo, ou seja, eu tenho uma pressão social que está incidindo sobre mim para que eu continue jogando. O adolescente tem uma necessidade, uma tendência a buscar esse senso de pertencimento e esses jogos vão explorar justamente esse ponto. Eles são idealizados de uma maneira que nas primeiras fases vão distribuir uma série de pontos para mexer com a autoestima e depois vão exigir que o jogador fique cada vez mais tempo conectado. Se eu não me relacionar com a tecnologia de uma forma muito lúcida, a tendência é que eu me perca naturalmente e a medida que vou reproduzindo esse comportamento várias vezes, vou tendo no meu cérebro os mesmos efeitos, ou muito similares, do que acontece com álcool ou outras drogas, a liberação da dopamina”, explica.
Abreu cita uma pesquisa que mostra, inclusive, que o uso da tecnologia antes dos dois anos de idade atrasa o desenvolvimento da linguagem porque o cérebro, ao invés de interagir com o ambiente e ser estimulado, tem sempre a mesma resposta.
Outro dado alarmante é que usar a internet apenas 15 minutos, faz com que nossa capacidade atencional caia, o que nos faz perder o foco de maneira que não teria acontecido se não tivéssemos utilizado. Outra pesquisa mostra que as informações coletadas da internet não são gravadas da mesma maneira do que quando se usa os meios tradicionais, o que vale de alerta para o uso nas escolas.
“(Com os livros) Você tem um tempo para que o cérebro consiga recrutar todas as regiões, na internet você não tem esse tempo suficiente para que as diferentes conexões possam ser acionadas. Daí o perigo, você vai tecnologizar para quê? Ninguém conta que no Vale do Silício, local com a maior concentração de empresas de tecnologia, os filhos do presidente do Google, do Instagram, do Facebook estudam em escolas onde qualquer forma de tela é proibida. Eles já entenderam que você precisa cumprir certos aspectos da educação formal que a tela não vai substituir e aqui queremos incluir a tela para fazer a educação das novas gerações”, alerta.
LEIA AS OUTRAS REPORTAGENS DO FOLHA MAIS ESPECIAL SOBRE VÍCIOS
- ÁLCOOL: "A gente nunca começa tomando muito"
- DOPAMINA: por que nem todas as pessoas se tornam dependentes?


