DOPAMINA: por que nem todas as pessoas se tornam dependentes?
Vício em café, chocolate, esmalte, sapatos, carros, roupas. Embora no dia a dia seja comum dizer que somos viciados, para a psiquiatria nem sempre o que chamamos de vício pode ser levado ao pé da letra
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2019
Vício em café, chocolate, esmalte, sapatos, carros, roupas. Embora no dia a dia seja comum dizer que somos viciados, para a psiquiatria nem sempre o que chamamos de vício pode ser levado ao pé da letra
Erika Gonçalves - Grupo Folha
O psiquiatra Edilson Amorim explica que para a medicina, vício é algo que surge após a pessoa fazer uso de alguma substância que cause prazer e que ela não consegue ficar sem, mesmo com sérios prejuízos.
“Nosso cérebro tem um sistema de gratificação e recompensa e algumas substâncias provocam a liberação de dopamina, o que traz prazer e fica registrado como algo gostoso. Isso pode acontecer desde com coisas comuns no dia a dia, como alimentos com muito açúcar ou muita gordura, com o sexo, quanto com substâncias lícitas como álcool e tabaco, ou ainda ilícitas como maconha, cocaína e crack. Quem é viciado não consegue abrir mão daquilo. E esse é um dos sintomas do vício, que incluem tolerância – quando se precisa de uma dose cada vez maior, e abstinência – a qual se a pessoa faz uso frequente e para pode apresentar sintomas, que variam de acordo com cada uma das substâncias”, explica.
O especialista alerta que jogos de azar também podem viciar, justamente porque são capazes de liberar muita dopamina. De acordo com ele, a ciência estuda, agora, o vício em internet, pelo mesmo motivo.
No entanto, as substâncias lícitas assim como as ilícitas são usadas por diferentes pessoas, mas nem todas se tornam dependentes. Segundo Amorim, essa é uma questão multifatorial, que envolve aspectos biológicos, genéticos, psicológicos e sociais.
“No caso do álcool, se alguém na família é dependente a chance de outra ser é de até 60%. Quando se compara gêmeos monozigóticos, que são clones um do outro, essa chance é de 60%. Já em gêmeos dizigóticos essa chance cai para 35%. A porcentagem restante vai depender do ambiente e da criação”, afirma.
Entre os fatores psicológicos, as pessoas com uma personalidade voltada à busca por novidades têm mais probabilidade de ter contato com drogas e se viciar nelas. Já no quesito social, aqueles onde desde a infância o contato com substâncias entorpecentes era considerado natural também podem acabar se viciando.
É justamente esse
fator que pesa na hora de lidar com a dependência em substâncias lícitas. “Elas
têm o fator social e a disponibilidade. Nesse sentido as leis antitabagistas
foram muito importantes porque causam uma diminuição progressiva nas taxas de
tabagismo. Nossa recomendação é que o dependente evite ao máximo os gatilhos,
ou seja, aquilo que desperta a vontade. É comum a pessoa dizer que sempre
acendia um cigarro depois do café, ou depois do almoço, ou ainda quando ia ao
bar. Esses gatilhos trazem a fissura, que é a vontade muito forte de usar
aquela substância”, recomenda o psiquiatra.
DOCE PERIGO
Além de ser saboroso e ter muito valor afetivo, o cafezinho de cada manhã tem uma razão química de ser. Assim como o chocolate, alguns chá e os refrigerantes com cola, ele contém cafeína, substância responsável por dar aquela levantada no ânimo mas que tem como um dos seus sintomas de abstinência justamente a dor de cabeça.
“Apesar de ser considerada como algo que pode viciar, a cafeína é diferente pois seu uso abusivo não causa impactos sociais como outras substâncias, nem tem efeitos tão ruins. Apesar de também envolver a dopamina, não existe dependência em cafeína. Por ser um estimulantes, se ingerida em excesso causa agitação, mas não há overdose. Já a abstinência pode produzir entre outros sintomas irritabilidade e dor de cabeça”, descreve.
Já o açúcar também vicia, por liberar muita dopamina, e apesar de parecer inofensivo, pode causar diversos transtornos principalmente quando se pensa na saúde, pois está associado a diversas doenças como a síndrome metabólica. “Nesse sentido seria algo mais danoso do que a cafeína, ele traz transtornos tanto pessoais quanto sociais”, pondera o psiquiatra.