NICOTINA: número de dependentes em tabaco está menor
Levantamento do Ministério da Saúde aponta que 9,3% dos brasileiros têm o hábito de fumar. Nos anos 90, esse número era superior a 30%. Proibição de propagandas e impostos altos são importante para a redução
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sábado, 24 de agosto de 2019
Levantamento do Ministério da Saúde aponta que 9,3% dos brasileiros têm o hábito de fumar. Nos anos 90, esse número era superior a 30%. Proibição de propagandas e impostos altos são importante para a redução
Erika Gonçalves - Grupo Folha 
Atualmente, 9,3% dos brasileiros fumam, segundo levantamento feito pelo Ministério da Saúde. “O Vigitel é um questionário aplicado via telefone e são feitas várias perguntas sobre a saúde, incluindo tabagismo. Através dessa pesquisa aleatória chegou-se a esse número”, explica José Roberto Jardim, do Núcleo de Prevenção e Cessação do Tabagismo – PrevFumo, ligado à disciplina de Pneumologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp).
Segundo ele, o número de fumantes caiu consideravelmente desde 1990, quando chegava a 33%, levando-se em consideração pessoas a partir dos 15 anos de idade. Foi a partir daí que os governos começaram a tomar medidas para diminuir o tabagismo no mundo . No início dos anos 2000 houve a chamada Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, uma reunião mundial. De acordo com o médico, o Brasil foi o segundo a assinar, mas o Congresso Nacional levou ainda um tempo para aceitar e foram necessários acordos para que os cultivadores de tabaco tivessem como produzir outras culturas.
Realizado em 29 de agosto, o Dia Nacional de Combate ao fumo tem por objetivo reforçar as ações nacionais de sensibilização e mobilização da população para os danos causados pelo tabaco
Anualmente, segundo Jardim, de 150 mil a 200 mil pessoas morrem no Brasil por doenças ligadas ao tabaco. Além daquelas causadas diretamente pelo fumo, como câncer, infarto e doenças das artérias, outras 50 são associadas, como a tuberculose.
“A cada um dólar recebido em impostos pelo cigarro, entre dois e quatro dólares são gastos para o tratamento. A taxa de imposto é muito alta na maioria dos países, uma forma de tentar diminuir o número de fumantes. A cada 20% de aumento até duas pessoas deixam de fumar. O Brasil é o país que teve mais sucesso nessa redução, segundo a Organização Mundial de Saúde”, diz.
Em março deste ano o Ministério da Justiça criou um grupo de trabalho para estudar a redução dos impostos dos cigarros produzidos no Brasil como uma tentativa de diminuir o consumo de cigarros contrabandeados. “São cigarros mais baratos. Enquanto um maço do original custa entre R$ 8 e R$ 12, o contrabandeado fica entre R$ 3 e R$ 4. O ministro Sérgio Moro fez um grupo de trabalho para diminuir o valor dos impostos, mas não existe cigarro bom e cigarro ruim, o tabaco é o mesmo”, ressalta o especialista. Na semana passada o grupo rejeitou a proposta e recomendou outras medidas para combater o contrabando.
Jardim aponta que o alto custo do produto ainda é o maior motivador para as pessoas deixarem de fumar. “As imagens (no verso do maço) não costumam influenciar tanto. A proibição da propaganda ajudou muito, mas são vários os fatores que contribuíram com a diminuição do consumo, entre elas o impedimento de fumar em espaços públicos fechados, a enfatização dos males do cigarro pelas autoridades sanitárias, a conscientização sobre a saúde e o interesse da mídia sobre o assunto, educando as pessoas a não fumarem. Também há o fator financeiro. Quem fuma um maço por dia, ao custo de R$ 10, gasta R$ 300 por mês e R$ 3600 por ano.”
A pressão familiar também exerce um forte impacto sobre o fumante. O médico explica que anualmente são atendidas entre 600 e 800 pessoas no Núcleo de Tabagismo e muitas relatam vergonha por serem fumantes. “Entre os motivos alegados por quem busca ajuda está já estar doente; ter uma pessoa próxima doente; querer ser um exemplo para filhos e netos e/ou estar atendendo ao pedido de algum deles ou ainda já ter fumado durante muito tempo. De cada quatro fumantes, um deles já chega com a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), que não tem cura e destes, só 30% já sabia da doença.”
Ele destaca também que, ao contrário do álcool, em que um cálice por dia não apresenta problemas para quem não é dependente da substância, não existe uma dose segura para o cigarro. E ao contrário do que se possa imaginar, assim como o álcool, o impacto do cigarro sobre a vida social, familiar e profissional dos dependentes também é grande.

CIGARROS ELETRÔNICOS E NARGUILÉS
Criado como uma forma de ajudar quem tem dependência de nicotina a abandonar o vício, o cigarro eletrônico tem se tornado moda entre os adolescentes, segundo Jardim. O dispositivo produz um vapor inalável que pode ou não conter nicotina e é comercializado em diversos sabores.
Apesar da proibição de fabricação e comercialização no Brasil do dispositivo, não é difícil encontrar alguém usando o dispositivo.
Segundo o médico, no Estados Unidos já foi notado o crescimento no número de jovens que aderem ao cigarro eletrônico e inclusive constatou-se que parte deles também passou a fumar o cigarro convencional.
“Os jovens não estão fumando mais do que antes, tanto é que a diminuição no número de fumantes ocorre em todas as faixas etárias, mas hoje eles usam outras formas também.”
Outro problema citado por ele é o uso do narguilé, uma espécie de cachimbo de água, utilizado para fumar tabaco aromatizado. “Viajo bastante e nos países orientais ele é oferecido no cardápio dos restaurantes. O problema é que as pessoas acham que ele é menos tóxico, mas uma rodada de uma hora fumando narguilé corresponde a fumar cem cigarros”, alerta.
TERAPIA, ADESIVOS E CONSCIENTIZAÇÃO
Em Londrina, quem busca ajuda para parar de fumar conta com um programa oferecido nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Criado pelo Ministério da Saúde e Inca (Instituto Nacional de Câncer), o Programa Nacional de Controle do Tabagismo é descentralizado e é ofertado em todas as UBSs, de acordo com Juliana Marques, coordenadora do Programa Saúde do Adulto, da Prefeitura de Londrina.
“É feita uma avaliação clínica e a pessoa é encaminhada para um grupo, com quatro encontros realizados semanalmente. Cada unidade pode usar de várias ferramentas, como rodas de conversa ou palestras com profissionais de saúde, como nutricionistas, por exemplo. Sempre são pessoas capacitadas para falar sobre o assunto. Quando necessário é feita a indicação de terapia medicamentosa, com uso de antidepressivo ou adesivo de nicotina”, explica.
Para participar dos grupos é imprescindível que a pessoa esteja disposta a parar de fumar, entretanto, recaídas não são motivo para desistir. “Muitas ficam com vergonha de voltar, mas o tabagismo é uma doença, podem ocorrer recaídas”, destaca Marques.
Os interessados devem buscar a UBS mais próxima de sua residência e se no momento não houver um grupo formado haverá encaminhamento para outra unidade.
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