Colheita antecipada atrapalha qualidade e rentabilidade do café
Variação climática provoca desuniformidade no ciclo dos frutos na mesma planta, interferindo no manejo das lavouras e no planejamento da colheita
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de maio de 2019
Variação climática provoca desuniformidade no ciclo dos frutos na mesma planta, interferindo no manejo das lavouras e no planejamento da colheita
Victor Lopes - Grupo Folha 

Os altos e baixos do café no Paraná parecem aquelas séries de TV em que já se espera um final trágico, por mais tentativas feitas para que a situação se inverta e melhore. O agricultor familiar do Estado, o bom mocinho do enredo, aposta na cultura mesmo que esteja calejado pelas dificuldades. O problema é que os vilões são muitos: além dos preços nada convidativos nos últimos anos e os elevados custos de produção, agora é o clima que resolveu atrapalhar a temporada atual.
As variações climáticas fomentaram floradas irregulares afetando todo o potencial da safra 2019. As primeiras floradas ocorreram antecipadamente a partir de agosto de 2018 e se estenderam até a segunda quinzena de dezembro. Este período prolongado entre as floradas resultou em
desuniformidade no ciclo dos frutos na mesma planta – maduros e verdes no pé ao mesmo tempo - atrapalhando não só o manejo fitossanitário correto das lavouras, mas o planejamento da colheita especialmente visando a obtenção de maior volume de café de qualidade superior. As chuvas abaixo da média e temperaturas mais elevadas registradas no final do ano passado também prejudicaram um pouco o “pegamento” das floradas e contribuíram para queda de “chumbinhos” (frutos pequenos e enegrecidos) acima do normal.
Acompanhe também:
- Projeto fomenta evolução técnica, mas não atende nem 25% de produtores
- 'Quem gasta muito na colheita, não consegue manejar bem a lavoura'
- Safra adiantada, bolso vazio
Agora, a colheita já está acontecendo em média com 30 dias de antecedência, atrapalhando todo o planejamento dos cafeicultores. Até aqui, em torno de 8% do café paranaense foi colhido e a expectativa é de uma produção entre 1 milhão e 1,1 milhão de sacas, com produtividade variando de 26 a 29 sacas por hectare. Números parecidos com o ano passado, mas com expectativa de qualidade inferior do produto.
O extensionista Romeu Gair relata que na região quente do Arenito, em cidades como Pitangueiras e Centenário, 50% do café já foi colhido. Em regiões mais frias, como Norte Pioneiro, a colheita também já iniciou em ritmo menos intenso. “Essas floradas sequenciais atrapalharam a safra. Na secagem, o produtor fica com frutos maduros e verdes (no terreiro) e assim ele precisa evitar camadas mais finas na pré-secagem.”
Gair explica que os produtores com maquinário conseguem fazer uma colheita seletiva, ou seja, evitando que os frutos verdes venham junto com os maduros. O problema é que a maioria são pequenos cafeicultores que não têm acesso a esse tipo de tecnologia. “Como os custos da colheita são os mais elevados devido a mão de obra, o produtor precisa fazer a colheita de uma vez (para não gastar mais).”
O economista Paulo Sérgio Franzini, do Departamento de Economia Rural (Deral), relata a dificuldade do produtor custear essa colheita antecipada. “Os produtores não concluíram nem as vendas da safra passada (leia mais nesta edição) e já precisam custear a colheita agora. Esse adiantamento (da safra) inclusive atrapalha a obtenção de grãos com qualidade (que remuneram melhor), já que se trabalha com uma safra desuniforme na maturação”, complementa.


