Um dia desses, observando a multidão que seguia em procissão, meu pensamento voou para um tempo lá atrás. Era sexta-feira da Paixão. Dia de tristeza, meio cinzento, cantos fúnebres, silêncio; a Igreja e toda a cidade transbordavam de gente, no meio da tarde, para celebrar a Paixão e morte de Cristo na Cruz.

Em casa, a vó Luiza advertia que, além de não poder comer carne, a gente não podia fazer absolutamente nada: não pentear os cabelos nem olhar no espelho porque era falta de respeito com Jesus, não varrer a casa, nem passar ou bater a roupa, ou martelar, ou carpir, porque somávamos tudo isso às dores Dele. Tampouco ligar o rádio ou cantar, brigar, nem se fala! Pecado mortal!

Nesse respeitoso silêncio ficaríamos até o Sábado Santo quando "arrebentava a Aleluia" que, segundo minha avó, uma pomba anunciava que Jesus estava vivo. Se não entendíamos, acreditávamos de todo coração. Saíamos para a Igreja e lá o clima era diferente dos outros dias; reinava um vazio, um doloroso silêncio!

Algumas senhorinhas do Apostolado, como Francisca Messagi, Itália Pessuti, Assunta, Vitoria Salomão, Raimundinha, entre outras, liturgicamente, trajavam roupas pretas ou roxas, colaborando para o ambiente de silêncio e, é claro, para nosso bom comportamento. A Igreja ficava tão cheia! Era o dia que mais aparecia gente! E por mais triste que fosse aquele dia, não deixava de ser gostoso, para nós, crianças e adolescentes, sempre ansiosos por coisas novas.

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O mais interessante era que, sendo um dia de preceito e lamento, as pessoas iam com roupas novas, bem vestidas. Punha-me a observar aquele contexto e a tecer ideias na cabeça de criança curiosa: "Lá vem aquele homem que todo dia usa um chapelão de palha, botas rotas, cabelos despenteados. Por que está assim bem vestido? E a minha vizinha que nunca vi na Igreja, usando um vestido colorido cheio de babados? Com certeza é novo!”

Recordo um vestido de bolinhas coloridas, de sobressaia, exibido por uma amiga e me dá uma vontade de ter um igual! Senhores de ternos pretos, cheirando a naftalina, apareciam acompanhados, como num cortejo, ele na frente, a esposa e os filhos atrás...

Sentada na grama da praça, ia analisando as pessoas que chegavam com cara de choro, caprichosamente arrumadas para irem... ao enterro de Jesus! Eu já vira a imagem do Cristo morto na Via Sacra e, então, era um choro só! Ao final disso tudo é que aquele dia de profunda tristeza acabava transformando a cidade em festa.

Assim que terminava a cerimônia da tarde, a multidão ia descendo pela grama e parecia se derramar em cores pela cidadezinha que, por pouco tempo, esteve cinzenta e melancólica. Era bonito de se ver!

Como acontece ainda hoje, a morte é celebrada, a violência e a dor, assistidas, fazem chorar, lamentar, mas logo a tristeza vai embora, é esquecida, e a dor do outro, mesmo que seja a nosso favor, nunca dói mais que a nossa. De volta ao conforto ou desconforto das nossas casas, aliviados em nossas mágoas, vamos esperar que no sábado "arrebente a alegria" e, assim, com as esperanças renovadas, acorramos felizes para o Domingo da Ressurreição...

Estela Maria Ferreira, leitora da FOLHA

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