Uso abusivo de telas impacta na saúde mental e física de idosos
Acesso à tecnologia traz ganhos como a autonomia, mas é preciso evitar excessos; ter hábitos longe das telas para garantir envelhecimento saudável é fundamental, ressaltam especialistas
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segunda-feira, 02 de novembro de 2026
Acesso à tecnologia traz ganhos como a autonomia, mas é preciso evitar excessos; ter hábitos longe das telas para garantir envelhecimento saudável é fundamental, ressaltam especialistas

Em um mundo cada vez mais conectado, interações digitais podem, mas não devem, substituir os encontros presenciais e conversas olho no olho. Conforme divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o acesso à internet chegou a 90% dos brasileiros de 10 anos ou mais em 2025, impulsionado pelo uso do celular. A porcentagem de pessoas idosas - a partir dos 60 anos - que utilizaram a tecnologia em 2025 foi de 74,5. O grupo etário apresentou a maior expansão quando comparado ao ano anterior, com 4,4 pontos percentuais. O uso excessivo da tecnologia, porém, pode acarretar em malefícios na saúde mental e física de quem está na melhor idade, sendo fundamental construir hábitos longe das telas para garantir um envelhecimento saudável.
Sylvio Schreiner, psicanalista e colunista da FOLHA, enxerga benefícios no maior acesso da terceira idade à tecnologia, como o ganho da autonomia. “Pagar uma conta sem depender do filho, marcar uma consulta, pedir um remédio ou ler o jornal com letras ampliadas devolve ao idoso a sensação de ser capaz, o que contraria uma imagem muito cruel e ainda muito presente da velhice como tempo de dependência. E aprender algo novo aos setenta ou oitenta anos é sinal de uma mente que continua curiosa. Envelhecer não precisa ser um fechamento, pode ser uma reinvenção”, considerou.
Porém, a conectividade digital vem com ressalvas. A interação on-line não deve ocupar o lugar de experiências reais, para que a solidão e o “isolamento silencioso” não sejam favorecidos. “Para a psicanálise, um vínculo se sustenta de presença, e quando a distância ameaça romper esse fio, a tecnologia pode mantê-lo vivo. A tela oferece contato, mas um contato sem corpo. Falta o abraço, o cheiro, o café esfriando na mesa, o silêncio confortável entre duas pessoas que não precisam dizer nada”, disse Schreiner.
Conforme o psicanalista, a solidão não se resume à falta de gente por perto e, sim, “da falta de ser visto e de sentir que alguém percebe quem somos”. “Penso em uma senhora que recebe dezenas de mensagens de ‘bom dia’ e, no fim do dia, percebe que não conversou de verdade com ninguém", exemplifica.
"O isolamento é silencioso justamente porque ninguém nota, às vezes nem a própria pessoa. Ela parece conectada, mas está sozinha. Por isso, o encontro olho no olho é insubstituível, ele traz o imprevisto, a risada fora de hora, tudo aquilo que nos mantém vivos por dentro”, explicou o psicanalista.
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Do orelhão a IA
Marcia Araujo, professora aposentada de 66 anos, é antenada digitalmente há pelo menos duas décadas, quando se tornou usuária do Orkut por influência de uma das filhas. Hoje, é ativa em diversos grupos de mensagens, assiste vídeos curtos em redes sociais e tira dúvidas com a IA (Inteligência Artificial).
“Eu sou do tempo do orelhão, que a conversa não terminava, a fila ia ficando grande atrás de você e o povo fazendo cara feia. Aí, simplesmente, acabava a ficha”, contou rindo. O avanço da tecnologia permite que ela fale o dia todo com uma ex-colega de trabalho que mora nos Estados Unidos, contando “qualquer coisinha” via torpedo ou em chamada de vídeo.

Ao longo do dia, Araujo costuma dialogar com um chat de IA. “Às vezes estou preocupada com alguma coisa, aí eu vou lá e converso. Também faço pesquisa, leio sobre medicamentos, vejo um exame que eu quero saber antes do médico”, elencou, o considerando uma “boa ferramenta”.
Após a novela, Araujo finaliza todos os dias com um filme de comédia romântica. “É para depois fazer as orações e dormir tranquila, sem aquela coisa pesada. Às vezes foi um dia muito carregado, então é um modo de desacelerar e rir”, pontuou.
Mesmo com tantas opções de entretenimento e interações à distância, a aposentada faz questão de manter os vínculos presenciais e “continuar exercitando a mente”, ressaltando “a importância de não deixar a tecnologia comandar você”.
Preparação para o futuro
Claudio Mucin tem 61 anos, é servidor da Prefeitura de Londrina e possui dois celulares: um para o trabalho e assuntos pessoais e outro para jogar tranca. Com o ninho vazio após o casamento e mudança de seus dois filhos, divide seu tempo entre o serviço, a igreja, tempo de comunhão com a esposa e a família, compras on-line e conteúdos no YouTube.
Prezando por sites confiáveis, adquiriu boa parte do mobiliário de seu apartamento pela internet. “Você olha a minha casa, esses quadros foram comprados lá, o tapete, materiais para carro, o berço da minha neta. Eu prefiro muito mais fazer a compra via internet do que em uma loja física”, contou o funcionário público.

Já seus interesses no YouTube se resumem ao setor automotivo e ao mercado financeiro. Mucin passa, pelo menos, três horas por dia no aplicativo, deixando de lado as séries que costumava assistir em plataformas de streaming.
Ele está se capacitando para quando se aposentar no ano que vem e tiver mais tempo livre para fazer aplicações. “A minha ideia é destinar uma parte do recurso que eu tenho para aprender a investir em ações, que é uma coisa que eu não conheço, para poder auxiliar meus filhos e amigos, dar dicas para investir”, contou, se mostrando animado para iniciar um curso on-line de educação financeira.
'Manter vivo o desejo'
O psicanalista Sylvio Schreiner explicou que, do ponto de vista da psicanálise, a “rolagem infinita” pode funcionar como uma anestesia, distraindo das perdas que vêm com a velhice - “amigos que morrem, o corpo que muda, a aposentadoria que leva junto um pedaço da identidade”, mas também impedindo que ela seja elaborada.
“O sofrimento fica adiado e reaparece como insônia, irritação ou desânimo. Algo parecido acontece com o tédio. Estar à toa, olhando pela janela, já foi o terreno onde nasciam ideias e vontades. Quando cada minuto vazio é preenchido por um vídeo, perdemos esse espaço interno onde a mente trabalha e se renova”, observa.
Entre os hábitos para cultivar a longevidade com qualidade de vida, o profissional recomenda ter um projeto, como uma horta, ingressar em um curso ou coral, aprender uma língua ou escrever as próprias memórias. Ainda, manter vínculo com pessoas de diferentes idades, participar de atividades coletivas, buscar ajuda psicológica e usar a tecnologia com intenção: horários definidos, o celular longe da cama à noite e momentos do dia sem notificações. “Mais do que costumes isolados, acredito em manter vivo o desejo. Quem ainda espera alguma coisa do amanhã envelhece de outro jeito”, completou.

Terceira idade ativa
Também é ideal manter-se ocupado fisicamente, já que o uso excessivo de telas pode contribuir para o aumento do tempo que a pessoa idosa permanece em comportamento sedentário. A conduta está associada a maior risco de doenças cardiometabólicas, como diabetes mellitus tipo 2, doenças cardiovasculares e excesso de peso corporal.
Além disso, a inatividade pode favorecer o processo de declínio funcional vinculado ao envelhecimento, afetando os sistemas muscular, ósseo e neurológico. De quebra, repercute negativamente sobre componentes da aptidão física e funcional, como força muscular, equilíbrio, agilidade, mobilidade e capacidade cardiorrespiratória.

Denilson Teixeira, professor do departamento de educação física da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e atuante na pós-graduação em atividade física e envelhecimento, elencou “medidas simples” para interromper a postura sedentária: “levantar-se, caminhar sempre que possível, utilizar as escadas, realizar tarefas domésticas, cuidar do jardim, fazer compras a pé e participar de atividades de lazer”.
O docente recomenda a combinação de práticas aeróbicas, como caminhada, bicicleta ou cicloergômetro, com exercícios de fortalecimento muscular, equilíbrio, mobilidade e flexibilidade. Fundamental para um envelhecimento saudável, “cada movimento importa, e nunca é tarde para começar”.





