Pela primeira vez na história, o acesso à internet no país superou 90% da população com 10 anos ou mais. Os dados fazem parte da Pnad TIC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - Tecnologia da Informação e Comunicação 2025), divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quinta-feira (2).

No ano passado, 90,5% (168,7 milhões) utilizaram a internet entre a população estimada de 186,4 milhões de pessoas acima dos 10 anos. Em 2016, o índice era de apenas 66%. De acordo com o estudo, o celular é o meio mais utilizado para o acesso (98,7%). Pelas ruas do Centro de Londrina é fácil confirmar a quase onipresença do aparelho.

Próximo à Catedral, um pedestre caminha atento ao mapa virtual enquanto aguarda um veículo por aplicativo. Poucos metros adiante, um motoboy confirma o endereço da próxima entrega. Durante o intervalo do serviço, o funcionário de um escritório ri alto diante de um vídeo curto na vertical. Logo ao lado, uma mulher congela o tempo ao fotografar a filha de dois anos no colo do marido.

No passeio pelo Calçadão, Louana Marcelino faz uma compra e, na hora de pagar, recorre à sobrinha, Anna Marcelino, para digitar a transferência via Pix. Louana usa o celular intensamente no dia a dia. Domina o WhatsApp, envia áudios, mensagens, figurinhas e GIFs, mas prefere deixar os procedimentos mais complexos com a sobrinha, que tem mais agilidade. “Eu uso o celular todos os dias. Para me comunicar com a família e amigos. Não consigo mais ficar sem”, conta.

A cena das duas conectadas ao lado de Thaís Marcelino (mãe de Anna) ilustra uma das marcas da pesquisa do IBGE: no Brasil, as mulheres são as que mais utilizam a internet, registrando uma taxa de 91,1% de usuárias, acima dos 89,9% apresentados pelos homens.

Apesar de jovem e imersa na agilidade digital, Anna mantém hábitos que aprendeu em casa com a mãe e a tia. O trio não abre mão de assistir às novelas na televisão. E quando o assunto é futebol, a TV aberta é sagrada; elas não trocam a transmissão tradicional pelos canais digitais. “Além da novela, a gente está vendo a Copa na TV. É muito estranho ver com atraso”, compara, referindo-se ao delay do streaming.

Na casa delas, as crianças já são 100% focadas no celular e na internet. Essa convivência familiar de telas acompanha a transição de mercado capturada pela Pnad. O interesse pelas redes começa cedo: 84,4% das crianças entre 10 e 13 anos já navegam na web. Esse índice sobe sucessivamente nas faixas seguintes, cruzando a barreira dos 96% de usuários no grupo de 20 a 39 anos. A partir daí, o acesso encolhe de forma gradual até os 59 anos (91,8%) e despenca de maneira mais acentuada entre os idosos (60 anos ou mais), registrando 74,5%.

A resistência na terceira idade

Ainda que o uso da internet permaneça menor no grupo de pessoas com 60 anos ou mais, observa-se uma acelerada expansão de usuários entre a população idosa. Em relação a 2024, esse grupo apresentou o maior salto de conectividade (4,4 pontos percentuais). Mas há aqueles que resistem.

Imagem ilustrativa da imagem Impulsionado pelo celular, acesso à internet chega a 90% dos brasileiros
| Foto: Celso Felizardo

É o caso do aposentado José Pinheiro Filho, de 80 anos, conhecido como "Zé Maringá". Morador do Jardim Coliseu, ele prefere passar as tardes observando os amigos no jogo de cartas no Bosque Central. Naquela mesa, em um contraste absoluto com o resto das calçadas, ninguém segura uma tela.

Para Zé Maringá, quem vive preso ao aparelho é “sem experiência de vida real”. “Os jovens estão viciados nesse troço. Lá perto de casa, uma menina foi atravessar a rua de olho grudado na tela e foi atropelada por uma moto. Isso não pode”, adverte. Ele conta que tem um celular pequeno, um “motorolinha” que só faz chamada. “Não preciso mais que isso.”

O aposentado diz que não tem interesse em acessar a internet, mas também admite que não sabe utilizar. “Meu neto fala que sou bobo por não querer usar o celular, mas nem ligo”, expõe. O perfil de Zé Maringá espelha os dois principais motivos de desconexão apontados pelo IBGE: o desconhecimento da tecnologia (44,9%) e a falta de necessidade ou interesse (27,8%). Quando o recorte foca especificamente nos idosos fora da rede, o peso de não saber acessar a internet dispara para 66,5%.

A única coisa que Zé Maringá lamenta é que está ficando difícil viver sem o aparelho e que a tecnologia está “matando” a rotina tradicional. “Você precisa de um carro, aí tem que pagar mais caro no táxi, porque não dá para pedir Uber sem celular”, exemplifica.

Sua desconfiança com a rede também encontra amparo nos dados. Para ele, a internet é território de golpistas: “Esse negócio é pura malandragem. Uma pessoa me ligou dizendo que eu tinha que fazer uma prova de vida, tirar uma foto minha pelo celular e enviar. Mandei para aquele lugar. Acha que a gente é idiota?”. O instinto do aposentado coincide com a pesquisa: a preocupação com privacidade ou segurança vem crescendo ano a ano e já é o motivo de recusa à internet para 5,3% dos desconectados no país.

Ferramenta essencial para o trabalho

Enquanto trabalhava vendendo alfajor no Calçadão, Gregory Felipe, de 26 anos, acabou virando personagem da engrenagem digital. Abordado por um grupo de jovens youtubers, ele participou de um desafio de rua gravado inteiramente pelo celular: a cada nome de jogador da Seleção Brasileira que lembrava, ganhava R$ 5 em dinheiro físico. O troco da brincadeira foi direto para o bolso com um destino certo. Gregory está sem celular há sete dias e não vê a hora de comprar um novo para substituir o antigo que quebrou.

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| Foto: Celso Felizardo

“Hoje é bem difícil ficar sem. Uso para tudo: trabalhar, divulgar os produtos que vendo e fazer contatos”, explica o vendedor. A urgência de Gregory resume os usos mais frequentes capturados pela pesquisa do IBGE. No topo das finalidades de acesso à internet no país estão conversar por chamadas de voz ou vídeo (95,3%) e enviar ou receber mensagens por aplicativos (90,2%). Mas o smartphone também virou o principal balcão de negócios e serviços do brasileiro: 74,2% dos usuários acessam bancos e 52,7% realizam compras ou encomendas pela rede.

Gregory também faz parte da estatística dos jovens que abandonaram completamente a televisão tradicional. Ele conta que já não assiste mais à TV há alguns anos. Esse comportamento acompanha uma forte tendência de mercado capturada pela Pnad TIC. O IBGE aponta que as mídias e aparelhos convencionais seguem em declínio no país. O rádio e o telefone fixo registraram em 2025 os menores patamares de suas séries históricas, presentes em apenas 46,9% e 5,9% dos lares, respectivamente, enquanto a TV por assinatura recuou para 23,5% dos domicílios.

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