Há exatos 54 anos, no dia 20 de janeiro de 1972, eram instalados os primeiros telefones de uso público no país, criados pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Os “orelhões”, apelidados carinhosamente pelo formato que prioriza a acústica e serviço que oferece, ganharam vida no Rio de Janeiro e, cinco dias depois, em São Paulo. A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) autorizou que as concessionárias de telefonia deixem de prestar o serviço, e assim, as estruturas restantes devem ser recolhidas em até dois anos, marcando o fim da telefonia fixa com acesso coletivo no país.

Na vanguarda da inovação, Londrina recebeu os primeiros aparelhos somente um ano depois da inauguração nacional, em 1973. Fichas telefônicas deram lugar à cartões indutivos em 1992, simbolizando o avanço na telefonia brasileira. Na chegada do novo milênio, o número de telefones públicos saltou de 547 mil em 1998 para 1,3 milhão em 2003. Porém, a crescente popularização dos celulares na década diminuiu o uso dos aparelhos fixos consideravelmente, por conta da mobilidade e conveniência da nova tecnologia. Hoje, os 33.051 orelhões ativos pelo Brasil acumulam poeira e são sinônimos de obsolescência, sendo que há pouco mais de um ano, em novembro de 2024, o país comportava 108.633 aparelhos.

Fim da telefonia fixa em 2028

A Sercomtel, Oi, Algar, Claro e Telefônica eram as signatárias de contratos de concessão da telefonia fixa - STFC (Serviço Telefônico Fixo Comutado) - nas modalidades local e longa distância nacional, celebrados com a Anatel em 1988 e findados em 31 de dezembro de 2025.

Diante do cenário de desuso progressivo, a legislação setorial foi alterada para permitir que os contratos fossem adaptados para a modalidade de autorização, administrada pelo regime privado, almejando estimular os investimentos em redes de suporte à banda larga.

Como contrapartida, as empresas assumiram o compromisso de manter a oferta do serviço de telecomunicações com funcionalidade de voz por meio de quaisquer tecnologias, incluindo os orelhões, nos locais onde forem as únicas prestadoras, até o prazo máximo de 31 de dezembro de 2028. Ou seja, algumas cidades irão seguir com os aparelhos onde não houver outro serviço de voz, mas as empresas devem concretizar a retirada em até dois anos.

Sujos, orelhões na Alameda Manoel Ribas, no centro, foram pichados e não funcionam
Sujos, orelhões na Alameda Manoel Ribas, no centro, foram pichados e não funcionam | Foto: Heloísa Gonçalves

Quanto à Sercomtel, a Anatel informou que “a prestadora ainda deve manter todos os orelhões em sua área de concessão (municípios de Londrina e Tamarana, no Estado do Paraná), até que a adaptação para o regime privado seja efetivada”, antecipou à FOLHA.

Em Londrina

Em 2007, londrinenses consumiram 56,2 milhões créditos telefônicos, contra apenas 5,6 milhões em 2013. No mesmo período, o número de orelhões diminuiu de 4,1 mil para 3,4 mil. Dez anos atrás, Londrina era casa de 3.090 aparelhos, sendo que o mais movimentado ficava no Calçadão, quase na esquina com a Avenida São Paulo. Nele, cerca de 634 créditos eram consumidos ao mês, equivalente a uma média de 20 créditos diários. Hoje, a estrutura já não se encontra mais no local.

Segundo a Sercomtel, o município resiste às dificuldades e ainda comporta 551 aparelhos funcionando, contra os 51 inativos, e mais de 80 estabelecimentos permanecem na lista de pontos de revenda de cartão telefônico. A área de concessão inclui os distritos da cidade e Tamarana, cidade na Região Metropolitana de Londrina que ainda não havia se emancipado quando o contrato de concessão do serviço foi firmado com a Anatel.

A assessoria informou que os telefones não serão retirados “devido a algumas tratativas com a Anatel”, incluindo os dispositivos localizados nas réplicas vermelhas das cabines telefônicas inglesas. A empresa não informou quantos créditos telefônicos foram consumidos no ano passado, relatando somente que “o uso é muito baixo”.

Planta dos orelhões

Em seu site, a Anatel disponibiliza um mapa mostrando onde estão os orelhões de todo o país, com pequenos telefones simbolizando a presença. Conforme o levantamento, a maior parte dos aparelhos resistentes está localizada no centro de Londrina, sendo que à medida que o usuário afasta o mouse das proximidades do Calçadão e do Bosque Municipal, os símbolos somem.

Percorrendo diferentes trajetos com o mapa como guia, a FOLHA atestou que muitos dos aparelhos sinalizados pela Anatel não estão, realmente, nos locais onde deviam, apontando para a retirada. A Rua Senador Souza Naves, quase esquina com a Rua Pará, conta com dois aparelhos unidos. Aliada ao desgaste do tempo passado, ambos apresentam depredação causada por munícipes, sendo que no aparelho maior, o fio está cortado.

Na Rua Senador Souza Naves, o cenário de pichação se repete tanto na parte externa dos orelhões, quanto interna
Na Rua Senador Souza Naves, o cenário de pichação se repete tanto na parte externa dos orelhões, quanto interna | Foto: Heloísa Gonçalves

Também no centro, na Alameda Manoel Ribas, os aparelhos sujos e pichados exibem a mensagem “Fora de Operação” ao se levantar o telefone do gancho. Já logo abaixo da Praça da Bandeira, o aparelho em uma réplica de cabine inglesa surpreende ao funcionar e indicar que o número seja discado. Próximo dali, na praça da Concha Acústica, há uma mesma estrutura vermelha, mas o telefone já foi removido.

Imagem ilustrativa da imagem Orelhões completam 54 anos no Brasil com os dias contados
| Foto: Heloísa Gonçalves

Em outra cabine no Jardim Shangri-Lá A, do outro lado da Avenida Tiradentes considerando a Praça Dom Pedro I, a cabine e o telefone seguem no local, mas fora de operação e com a maior parte dos vidros removidos.

No Calçadão, abaixo da Praça da Bandeira, telefone em réplica de cabine inglesa ainda faz ligações
No Calçadão, abaixo da Praça da Bandeira, telefone em réplica de cabine inglesa ainda faz ligações | Foto: Heloísa Gonçalves

Itens colecionáveis

Levando em conta o mau estado dos orelhões, o segurança Artur Souza, 63, considerou que seria proveitoso a Sercomtel já iniciar a remoção dos aparelhos, mas pontuou que os londrinenses ficarão sem opção de fácil acesso a um telefone em casos de emergência. “Eu acho que tem que tirar, porque eu já passei por alguns e estavam todos depredados, ‘estourados’, todo mundo destrói. Agora imagina se alguém sem celular precisa daquilo ali, tem esse detalhe também”, ponderou.

Artur Souza carregava um cartão telefônico consigo mesmo após comprar um celular: “ vai que precisava, nunca se sabe”
Artur Souza carregava um cartão telefônico consigo mesmo após comprar um celular: “ vai que precisava, nunca se sabe” | Foto: Heloísa Gonçalves

Na década de 1980, quando atingiu a maioridade, fazia uso dos orelhões para contatar a família. Ele evitava ao máximo fazer as ligações nos horários de “pico”, por conta das longas filas formadas atrás do gancho. “Não existia celular, então o povo se submetia a isso. Tinha que encarar, não tinha como. Essa era a época só da ficha ainda. Hoje eu tenho uma coleçãozinha de fichas que não usei e acabei guardando”, contou Souza.

Quando os cartões telefônicos foram instituídos, o segurança iniciou uma segunda coleção, contando que tem um amigo que “completou um álbum” com diferentes estampas do formato de pagamento. “Ele usava muito, até eu cheguei a usar. Às vezes até quando eu já tinha celular, eu carregava um cartãozinho na carteira, vai que precisava, nunca se sabe”, recordou o segurança.

Recados na rua

Também nascida na década de 1960, Ceci Maria da Silva, 58, disse que vai sentir falta dos orelhões quando a telefonia fixa for encerrada em Londrina. Moradora do Jardim Eucaliptos, na zona leste, disse que os aparelhos “amarelinhos” foram retirados de seu bairro há um bom tempo. “Eu usava todo dia pra ligar pra minha mãe e para as minhas irmãs, que moravam em São Paulo e em Santos. Quando começamos a usar orelhão, a gente até parou de mandar cartas, então foi um avanço muito bom”, relembrou.

Ceci da Silva (à direita), deixou as cartas de lado quando os orelhões surgiram em Londrina; Ana Paula (à esquerda) e a sobrinha Mariana nunca fizeram ligações na rua
Ceci da Silva (à direita), deixou as cartas de lado quando os orelhões surgiram em Londrina; Ana Paula (à esquerda) e a sobrinha Mariana nunca fizeram ligações na rua | Foto: Heloísa Gonçalves

Havia um aparelho bem em frente da casa de sua mãe, e quando Silva casou e se mudou, combinava os horários que ligaria para atendê-la. “Eu falava ‘mãe, eu ligo pra senhora tal hora’, e ela ficava esperando. O orelhão tocava, aí se passava alguém na rua e atendia, eu falava ‘chama fulana que mora na casa tal’, a pessoa chamava e ela vinha atender. Tinha uma conexão maior com as pessoas”. Na época, ela tinha cerca de 35 anos e, quando instalou o telefone fixo em sua casa, perdeu o costume de “passar os recados”.

Não deixar a história morrer

Silva disse que sente saudade ao recordar das histórias, contando que os orelhões são “referência na cidade” e remetem ao passado. Já sua filha, Ana Paula Caetano, 26, não integra a geração que fazia uso frequente dos aparelhos, mas acha importante mantê-los em pé mesmo que fossem só decorativos, para não esquecer do passado. Considerou que Londrina está “perdendo a sua essência, querendo se modernizar demais, mas dá para ter os dois”.

“Quando a gente lembra do passado, a gente não comete os erros no futuro, e isso não é um erro, é um avanço, é um desenvolvimento, que é importante deixar para as pessoas poderem ver. Até mesmo os mais velhos, a minha avó tem 90 anos, se ela vê um desse, ela fala que usou muito, ia lembrar que tinha um na frente da casa dela, então é importante para não deixar essa história morrer”, considerou.

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