Orelhão em pé
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 


Em uma era em que os telefones celulares estão disseminados por todos os lados e os aplicativos de comunicação instantânea têm sido popularizados, o telefone de uso público (TUP), conhecido popularmente como orelhão, ainda possui muitos usuários e muita utilidade. Ao todo existem 3.090 orelhões instalados em Londrina, distritos e Tamarana. O mais movimentado deles fica na Avenida Paraná (Calçadão), quase esquina com a Avenida São Paulo, consumindo 634 créditos ao mês, o que equivale a mais de 20 créditos por dia. Em segundo lugar está o orelhão instalado na Avenida Paraná, 273 (no Calçadão em frente ao banco Santander), que consome 595 créditos ao mês.
Para quem mora em locais distantes, o uso do telefone público torna-se uma necessidade. A comerciante Sirley Menotti, 67 anos, mora no Patrimônio Barro Preto (Distrito de Guaravera), que fica a mais de 40 km distante do centro de Londrina. "Aqui tem muitos sítios em que o telefone celular não pega na baixada, então é costume daqui o pessoal ligar no orelhão para dar algum recado para algum vizinho", relata Sirley. Ela conta que mora a 20 metros de distância do orelhão, mas sempre que ele toca faz questão de atender as ligações, anotar os recados e repassá-los aos vizinhos sem problema algum, já que muitas dessas ligações são importantes.
A dona de casa Maria Aparecida Neves Machado, 45 anos, é moradora do patrimônio Espírito Santo, próximo a Venda do Alto, e relata que recentemente teve de ligar para o telefone 0800 da Copel para falar sobre a interrupção do fornecimento de energia, mas esse número não aceita ligações de telefones celulares. "Mesmo que a pessoa tenha telefone celular, tem coisa que não dá para fazer por ele e a gente tem que recorrer ao orelhão. Recentemente eu usei para pedir informações e não tem como desativar ele", afirma. O aparelho fica próximo a um ponto de parada do ônibus e, segundo Maria, muitos estudantes que estudam na área urbana de Londrina, quando retornam, precisam avisar os seus pais que chegaram. A estudante de Serviço Social da Universidade Estadual de Londrina, Janaína Luzia Klein, 18 anos, também é moradora do Distrito Espírito Santo. Ela relata que possui celular desde os 11 anos, mas enaltece a importância da disponibilidade do telefone público na região. "Eu venho de ônibus da faculdade e às vezes a bateria acaba no meio do caminho. Quando isso acontece eu tenho que usar o orelhão para pedir para o meu pai vir me buscar", ressalta. Ela revela que várias pessoas da localidade não têm condições de ter celular e muitas vezes a rede de telefonia celular sai fora do ar e o orelhão é a melhor opção nessas ocasiões.
No condomínio fechado Recanto do Salto, por exemplo, o telefone público parece isolado, mas o porteiro Giliard Xavier revela que o aparelho é utilizado por empregadas domésticas que trabalham por lá. "Eu, particularmente, nunca usei, mas as empregadas que trabalham aqui usam o orelhão de vez em quando para ligar para seus familiares", relata.
Os moradores do Patrimônio Regina utilizam o orelhão devido a baixa qualidade do sinal das torres de telefonia celular. O motorista de transporte escolar, Jamil Isnarde Fernandes, 51 anos, é um exemplo disso. Ele conta que possui um aparelho de telefonia celular, mas deixa ele desligado dentro da van na maior parte do tempo. "Aqui o sinal é ruim. Não pega. Por isso eu deixo ele no painel da van", afirma. Ele diz que sempre fica estacionado perto do orelhão então quando a sua esposa quer falar com ele, liga nesse telefone público. "Ela liga nesse orelhão quando precisa falar comigo. Para mim é bom", destaca.
A comerciante Maria de Lourdes da Sila, 59 anos, possui um bar em frente ao orelhão do Patrimônio Regina e ressalta que o pessoal ainda usa bastante o orelhão, mas ela, que era a única a comercializar os cartões telefônicos no patrimônio, deixou de adquiri-los. "A Sercomtel exige que a gente compre os cartões telefônicos utilizando cartão de crédito para que seus vendedores não precisem carregar dinheiro, mas eu não vou fazer um cartão de crédito só para comprar cartões então deixei de comprá-los há dois meses", ressalta. Ela conta que mesmo tendo dinheiro, a Sercomtel não aceita para a compra dos cartões telefônicos. "A gente não tem como comprar e meus clientes reclamam disso", destaca.
Muitas vezes o telefone público acaba ajudando quem está em uma situação de urgência ou emergência. O agricultor Cícero Donizeti Bezerra Silva, 51 anos, estava na Unidade de Pronto Atendimento do Jardim Sabará quando recebeu a reportagem. "Eu estava passando mal. Estou sentido tontura e ânsia de vômito", relata. Beneficiário do auxílio-doença ele conta que para contatar a família usou o orelhão. "Faço isso porque é mais barato que o celular. Quando não tenho R$ 10 para colocar crédito no celular pré-pago, compro um cartão telefônico de R$ 5", relata.
Silva só lamenta que existam muitos aparelhos de telefones públicos quebrados na cidade. "Há muito vandalismo e falta de manutenção", queixa-se. O número de telefones públicos quebrados varia entre 12 e 35 aparelhos ao ano.
Segundo a Sercomtel, atualmente são vendidos uma média de três a cinco mil cartões indutivos ao mês. A companhia destaca que além dos aparelhos instalados nas ruas possui equipamentos em praças esportivas como nos estádios Vitorino Gonçalves Dias e Café, Autódromo Internacional Ayrton Senna, Moringão; em locais públicos como Prefeitura, Câmara municipal, rodoviária, terminal urbano, Fórum, escolas municipais e estaduais, escolas particulares, shoppings centers e condomínios fechados. Embora o número de orelhões tenha reduzido de 4,5 mil aparelhos para a casa dos 3 mil, não há nenhum projeto para modernização dos orelhões em andamento. Existem experiências em outro países que estão transformando os equipamentos em pontos de Wi-Fi ou de carregamento de celulares.


