PESQUISA -

Sequelas da Covid: pacientes em Londrina relatam fadiga e desânimo

Resultados preliminares de estudo realizado pela UEL e secretaria da Saúde revelam sintomas persistentes, principalmente entre os jovens que tiveram quadros leves da doença

Micaela Orikasa - Grupo Folha
Micaela Orikasa - Grupo Folha

Londrina tem cerca de 57 mil recuperados da Covid-19. Essas pessoas apresentam sequelas? Quais? Durante quanto tempo? A busca por essas respostas tem colocado professores e estudantes de Fisioterapia junto com profissionais da secretaria municipal de Saúde de Londrina em contato com homens e mulheres que tiveram o diagnóstico de Covid há 30, 60 e 180 dias em Londrina.  

 

Sequelas da Covid: pacientes em Londrina relatam fadiga e desânimo
iStock
 



 

Já foram consultadas 1.806 pessoas desde o outubro de 2020 e a maioria (65%) é do sexo feminino. Os resultados preliminares já preocupam bastante o grupo de pesquisadores do Projeto PAPCov, coordenado pela docente do curso de Fisioterapia da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Celita Salmaso Trelha. 

 

“Quando observamos os dados de pacientes recuperados há seis meses, temos 67% dos 88 respondentes que ainda apresentam sintomas persistentes. É muita gente. Eles relatam fadiga, cansaço (25%) e muito desânimo com quadros de depressão (17,5%). São condições que impactam muito qualidade de vida, no trabalho, no dia a dia dessas pessoas”, afirma.  

 

Além dos sintomas, uma informação que a professora destaca é a média de idade dos participantes, que é de 34 anos, ou seja, jovens em idade produtiva, e a maioria deles (95%) não foi hospitalizada porque apresentaram sintomas leves”, ressalta. Outras queixas entre os pacientes que tiveram a doença há 180 dias são: dores no corpo e/ou cefaleia (10%) e irritabilidade (10%). 

 

PERDA DE OLFATO 

 Na avaliação dos recuperados após dois meses, a fadiga e o desânimo também são os principais sintomas persistentes entre os 503 participantes, mas há ainda a perda de olfato. De acordo com o estudo, 17% relataram essa condição.  

 

Uma delas é Camila Cestari Garcia, 35. Ela teve a confirmação da doença no dia 01 de março e relata que os sintomas duram até hoje. “Tive todos os sintomas, mas não cheguei a ficar internada. Fiz o tratamento em casa, mas ainda sofro com a falta de olfato, paladar e cansaço frequente”, conta. 

 

Garcia trabalha como vendedora em Londrina e muitas vezes sente falta de ar ao conversar com os clientes. Ela tem frequentado o ambulatório de Fisioterapia, na Policlínia Municipal. “É  tudo uma surpresa. Jamais imaginava que poderia tanto tempo assim de sintomas. A mensagem é para que todas as pessoas se cuidem. Infelizmente, a população ainda não tem consciência do quanto essa doença é grave e incerta”, diz.  

 

Entre as 1.215 pessoas que tiveram diagnóstico de Covid há 30 dias, os relatos coletados pela pesquisa são de fadiga (28%), perda de olfato (19,85), seguido de cefaleia, desânimo, dores musculares e perda de paladar. Também há tosse (13%) e falta de ar (10%).  

  

“É só por meio de pesquisa que a gente consegue esses resultados e a ideia é acompanhá-los até um ano após o diagnóstico. Essas pessoas precisam da continuidade desses trabalhos e precisamos pensar na recuperação desses pacientes, pois necessitam de uma intervenção multidisciplinar, desde fisioterapia, acompanhamento médico, de psicologia, entre outros”, aponta a docente.  

 

LEIA TAMBÉM:

- Com saúde sobrecarregada, atendimentos Covid têm mudanças em Londrina


Fator de risco da Covid, diabetes também pode desencadear infecções diversas


POLÍTICAS DE SAÚDE

Ainda de acordo com a coordenadora do estudo, as informações coletadas auxiliam no encaminhamento dos pacientes para os ambulatórios vinculados às universidades de Londrina e para o Ambulatório de Fisioterapia, inaugurado no dia 17 de maio, pela secretaria municipal de Saúde.  

 

“Esse diagnóstico é importante no sentido de direcionar as políticas de saúde. A gente não imaginava ter um número tão frequente de sintomas após tanto tempo da doença, como é o caso dos pacientes avaliados depois de seis meses. Isso reforça que estamos lidando com uma doença que afeta vários sistemas e tem repercussões”, completa.  


 

 

Estudo indica que a maioria das pessoas mantém ações de prevenção, mesmo depois de 60 dias da confirmação da doença
Estudo indica que a maioria das pessoas mantém ações de prevenção, mesmo depois de 60 dias da confirmação da doença | iStock
 


PREVENÇÃO

O estudo que integra o projeto PAPCov, conduzido por docentes e estudantes da UEL (Universidade Estadual de Londrina), em parceria com a secretaria municipal de Saúde, também questionou os participantes sobre a adoção de medidas preventivas após o diagnóstico da Covid.  

 

Uma das perguntas era sobre as medidas de prevenção realizadas pelo indivíduo depois de 60 dias da confirmação da doença. Foram analisados 496 pacientes, no período de 13 de novembro de 2020 a 20 de maio de 2021. A média de idade foi de 35 anos e 59,5% é do sexo feminino.  


Dos respondentes, todos afirmaram manter o uso de máscaras. A limpeza frequente das mãos foi relatada pela maioria (97,4%), o distanciamento social (94,4%) e sair de casa somente quando necessário (83,5%). Sobre evitar fazer ou receber visitas, 64,5% responderam positivamente e 54,1% disseram cumprir com a etiqueta respiratória (uso do cotovelo para tossir e espirrar). 

 

Também foram perguntados sobre a realização a limpeza de compras do mercado (38,9%) e utilização de material de proteção face shield (10,5%). “Após 60 dias do diagnóstico da infecção de SARS-CoV-2 as medidas mais mantidas pelos participantes foram o uso de máscara, limpeza frequente das mãos e o distanciamento social. As mulheres realizam mais ações de prevenção do que os homens, tais como uso da etiqueta respiratória e saindo de casa somente quando necessário”, comenta a coordenadora do estudo e docente da UEL, Celita Salmaso Trelha. 




RECONHECIMENTO 

No mês de maio, o estudo que integra o Projeto PAPCov foi um dos cinco trabalhos selecionados em um congresso internacional em Saúde, realizado no Brasil. Ao todo, foram inscritos quase mil estudos.  “É um tema que precisa de atenção e cada região tem suas características porque a pandemia acontece de forma diferente. O Paraná está em um período mais grave e temos agora as variantes, as diferenças entre as ondas. É tudo novo, desde as sequelas até a forma de tratamento”, reforça.  

 

Trelha cita ainda que os contatos com os participantes da pesquisa são feitos por mensagens via WhatsApp e a identidade das pessoas é sigilosa. “A gente recebe uma planilha somente com informações de idade, sexo e contato telefônico. O estudo tem a aprovação do Comitê de Ética, ou seja, são respeitadas todas as normas de bioética, com sigilo e anonimato dos pacientes”, explica. 




Receba nossas notícias direto no seu celular! Envie também suas fotos para a seção 'A cidade fala'. Adicione o WhatsApp da FOLHA por meio do número (43) 99869-0068 ou pelo link wa.me/message/6WMTNSJARGMLL1.


Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito
Assine e navegue sem anúncios [+]

Últimas notícias

Continue lendo