Quimioterapia: como amenizar os efeitos?
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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
Micaela Orikasa e Viviani Costa <br> Reportagem Local 

Ao iniciar um tratamento contra o câncer com o uso de medicamentos quimioterápicos, não é possível afirmar se o paciente sentirá ou não os efeitos colaterais. A variedade de tipos e combinações desses fármacos gera distintos perfis de toxicidade, além do fato de que cada indivíduo tem um grau de tolerância. Sendo assim, o oncologista clínico Vitor Teixeira Liutti prefere dizer a cada paciente que ele "pode não sentir nada ou sentir tudo".
Há quem sinta fraqueza, outros têm queda de cabelo. De acordo com Liutti, os efeitos mais comuns são: cansaço, náuseas e vômitos, diarreia, perda ou aumento de peso, mucosites (feridas na boca e garganta), alteração no fluxo salivar, baixa imunidade, anemia e queda de cabelo. "Os efeitos ocorrem porque os quimioterápicos agem no ciclo celular, isto é, nas células de rápida proliferação do câncer. Porém, eles não são específicos e por isso podem acabam atingindo outras células no organismo, como do folículo capilar, da mucosa oral ou intestinal e células de proliferação da medula óssea", explica o especialista, que atua no HCL (Hospital do Câncer de Londrina).
Normalmente, os pacientes sentem os efeitos de um a sete dias após a quimioterapia. Já a queda de cabelo surge, em média, de 15 a 20 dias após o início do tratamento. "O racional é montarmos um ciclo para dar tempo do paciente se recuperar. Os esquemas de quimioterapia costumam ser de 21 dias", diz.
Pensando no bem-estar dos pacientes e cuidadores, o hospital conta com uma equipe multiprofissional formada por enfermeiros, assistentes sociais, nutricionistas e psicólogos. "O sofrimento é multidimensional e não só físico. A maioria dos pacientes tem uma fragilidade emocional desde o diagnóstico e isso também interfere no tratamento, pois abala a autoimagem e mexe com os papéis que ela representa na sociedade e na família", comenta a psicóloga Tatiana Brum.
No aspecto físico, o oncologista afirma que além da prescrição de medicamentos para controle dos sintomas, a rotina alimentar é extremamente importante para aliviar alguns incômodos e para que os pacientes tenham uma melhor resposta ao tratamento em geral.
FIBRAS E LÍQUIDOS
A nutróloga do HCL, Ericka Arrazola Lopez, explica que o câncer é uma doença que induz o paciente ao hipercatabolismo, ou seja, o paciente fica desnutrido com muita facilidade. Para isso, Lopez indica uma dieta rica em fibras e reduzida em carne vermelha. "Eu introduziria mais carne de peixes e aves, além de alimentos antioxidantes, como as frutas. Vale lembrar que a alimentação tem que ser uma coisa agradável ao paciente", diz.
Em quadros de diarreia, a orientação é consumir alimentos sem resíduos que não vão gerar matéria fecal, como o suco de caju, banana, aveia e batata. E a ingestão de líquidos como água, chás, gelatina, água de coco deve ser valorizada sempre. "A quimioterapia altera a palatabilidade, então alimentos um pouco mais azedos são melhor tolerados pelos pacientes", comenta. O gengibre também é um ótimo aliado, pois ajuda a diminuir as náuseas e pode ser adicionado como um tempero nas refeições.
Mas a dica mais importante, segundo Lopez, é o contato com os serviços de nutrição dos hospitais. "Muitos pacientes chegam para nós quando já estão desnutridos. Os pais e familiares devem nos procurar logo que o paciente apresenta perda de peso ou não está aceitando bem os alimentos", pontua.
CRIANÇAS
No caso das crianças, os sintomas podem se apresentar de forma ainda mais intensa, como explica a nutricionista clínica do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, Mirella Aparecida Neves. Na instituição, a equipe adota a chamada dieta de alimentos cozidos. "Os pacientes que estão fazendo quimioterapia também utilizam essa dieta em casa. É uma dieta em que a gente previne infecções que venham pela parte alimentar. Ao cozinhar todos os alimentos, a gente acaba matando a maior parte das bactérias e a chance de uma infecção por via alimentar é muito menor", afirma.
Conforme a nutricionista que atua na unidade de Hemato-oncologia e Transplante de medula óssea do hospital, as crianças são orientadas a evitar iogurtes e leites fermentados em razão dos probióticos; castanhas e oleaginosas pelo risco de presença de fungos e também a evitar o consumo de mel que pode causar intoxicação alimentar.
Os desejos dos pacientes por determinados alimentos também são considerados pela equipe e podem ser liberados ou não após avaliação dos exames. Sem exageros e proibições, é possível atender a um desejo por batatas fritas apenas para que a criança volte a comer e se mantenha nutrida. "É preciso estimular a alimentação da criança que está doente. A nossa prioridade inicial em relação ao paciente com quimioterapia é prevenir uma infecção que é algo muito sério no momento em que a imunidade está baixa. Então, às vezes, a gente prefere um suco de caixinha que é pasteurizado do que um suco natural que vai ter a fruta crua e que pode ter alguma bactéria", justifica Neves.
A inclusão de suplementos alimentares na dieta também ajuda a fortalecer o organismo para que a criança mantenha um desenvolvimento saudável. Em adultos, a dieta dos alimentos cozidos para evitar infecções nem sempre é utilizada, já que a imunidade pode se restabelecer de forma mais rápida e o consumo de alimentos crus pode ser liberado normalmente.
"Quando a gente tem um paciente nutrido, a quimioterapia acaba causando menos efeitos colaterais. Se a gente tiver um paciente desnutrido com menos porcentagem de gordura ou estado nutricional ruim, ele vai sofrer um pouco mais durante o tratamento. A alimentação não muda a existência dos efeitos colaterais, mas ajuda a amenizar", frisa.

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