Segundo especialista, o transtorno não tem cura, mas pode ser tratado para que a pessoa tenha controle
Segundo especialista, o transtorno não tem cura, mas pode ser tratado para que a pessoa tenha controle | Foto: Shutterstock


Nas histórias em quadrinhos, o cientista Bruce Banner tem uma personalidade pacata, mas depois de sofrer um acidente radioativo passou a se transformar no grandalhão verde chamado Hulk, de comportamento explosivo e raivoso. Isso acontece com o personagem todas as vezes que é submetido a situações de estresse. Fora do mundo dos quadrinhos existem pessoas que também se transformam subitamente e não conseguem controlar os seus impulsos raivosos. Não sofreram acidente radioativo e nem alteram o seu tamanho, mas mudam de cor. Não ficam verdes, mas vermelhas de raiva. São pessoas que sofrem de TEI (Transtorno Explosivo Intermitente), que também é conhecido como síndrome de Hulk ou simplesmente "pavio curto".

O presidente da Appsiq (Associação Paranaense de Psiquiatria), André Rota, destaca que o TEI não é tão comum e existem critérios bem definidos segundo a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, que são excludentes. "Dentro do critério do CID você pode descartar os transtornos de personalidade antissocial, borderline, psicóticos, esquizofrenia, bipolar, de conduta, de deficit de atenção e hiperatividade, além de episódios maníacos no transtorno bipolar", enumerou. "Eles não podem entrar como TEI porque podem ser um sintoma de outra doença." Ele explicou que doenças neurológicas, como o Alzheimer, podem apresentar episódios explosivos dependendo da área do cérebro afetada.

Imagem ilustrativa da imagem Quando as explosões de raiva e agressividade são exageradas



"Você também pode ter pacientes apresentando explosões de humor sob o efeito de drogas ilícitas, como a cocaína, as anfetaminas ou as alucinógenas. As drogas lícitas também podem provocar alguns efeitos que aumentam a irritabilidade e causam explosões de humor, como alguns tipos de remédios", apontou o psiquiatra. Existem pessoas que só explodem quando consomem bebidas alcoólicas e essa explosão não pode ser considerada como TEI.

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Rota ressaltou que só depois de excluir todas essas doenças e o diagnóstico for confirmado como TEI será realizado o tratamento psiquiátrico para isso. "Há a necessidade de escolha de uma medicação adequada que diminua a impulsividade desse paciente para que ele consiga ter um tempo de raciocinar antes de tomar alguma atitude. Esse é um ponto importantíssimo do tratamento medicamentoso. A partir do momento que o paciente tem essa medicação, a chance de sucesso é maior", ressaltou.

Segundo o profissional, a partir da estabilidade alcançada com o tratamento medicamentoso, a psicoterapia consegue ter um sucesso maior, porque o paciente já consegue identificar os gatilhos que podem levar a essa explosão. "A psicoterapia proporciona treinamentos e estratégias para controle do que causa isso", afirmou.

Sobre as causas do transtorno, existem estudos que apontam que pode haver um componente genético, mas não são conclusivos. As causas continuam desconhecidas.

PACIENTE RELATA EXPERIÊNCIA

Uma das pacientes que conversou com a reportagem apresentava muitas crises de raiva desde 2012, porém em 2016 elas fugiram do controle. "Eu me transformava em outra pessoa, extremamente violenta, quebrando coisas dentro de casa e com uma frequência cada vez maior. Foi então que após uma crise digitei os sintomas no Google e descobri o site do Proamiti, que fala do TEI. Me inscrevi então para procurar ajuda", destacou.

Ela revelou que o transtorno interfere até hoje em seu cotidiano, gerando falta de paciência, raiva e descontrole. "Quem tem TEI é muito correto, segue as regras, é certinho, então quando o outro é mal educado, faz algo que pode prejudicar o outro, gera gatilhos para a explosão", apontou.
Ela revelou que durante o ano de 2017 fez três meses de tratamento no IPQ (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas). "Eu fazia terapia em grupo o que me ajudou muito e depois comecei a tomar fluoxetina", apontou.

Na terapia ela era atendida por três psicólogas. "A terapia em grupo é muito importante, pois você percebe que não está sozinha e os colegas do grupo ajudam um ao outro com suas vivências", explicou.

Uma parte do tratamento é passar com o psiquiatra que vai adequar uma medicação para cada pessoa. "No meu grupo existiam pessoas que tomavam medicações diferentes da minha. Tudo é muito cuidadoso, não se prescreve uma medicação por prescrever. Se você não se adapta eles trocam, e as consultas são todos os meses", expôs .

Ela sabe que mesmo com o tratamento não vai deixar de explodir. "Mas aprendi que posso fazer escolhas, como por exemplo não ligar tanto para o comportamento do outro. Cada um é um e nós não podemos controlar todo mundo. Podemos nos controlar", resumiu.

Ela conta que as explosões são cada vez mais pequenas. "Quando sei que estou muito irritada eu procuro sair de casa ou me isolar. Já aviso minha esposa que não estou bem e que não tem nada a ver com ela. Deixei de tomar a medicação, pois sentia muito os sintomas colaterais, mas devo admitir que quando estava tomando não tive nenhuma explosão", afirmou.

Ela explicou que não era infeliz. "Pelo contrário. Eu sou uma pessoa bem feliz e animada. O TEI faz parte de mim. O que mudou é que agora eu sei que tenho esse transtorno, que preciso prestar atenção nele e que tenho escolhas. O tratamento mudou minha vida, porém é algo que preciso fazer diariamente. Tenho que relembrar as ferramentas que aprendi, lembrar de respirar e assim continuo seguindo", afirmou.

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