'Essas pessoas interpretam que o mundo está contra eles'
A psicóloga Liliana Seger é especialista em TEI (Transtorno Explosivo Intermitente). Ela atua no Pro-Amiti do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina de São Paulo). Explicou que o transtorno atinge 3,1% da população. "As explosões acontecem de duas a três vezes por semana de forma mais leve, que são verbais ou com quebra de objeto, e também geram três grandes explosões durante um ano, em que ele pode bater o carro, arrebentar uma pessoa ou se machucar fortemente", apontou, explicando que se a pessoa premeditar a ação, não é transtorno explosivo intermitente. "Se ela fala que amanhã vai arrebentar a cara de alguém, não é transtorno explosivo, é outra coisa."
Seger ressaltou que a característica principal é a reação desproporcional diante de algo que ela considera errado. "Se a pessoa levar uma fechada, vai sair do caro e arrebentar o motorista da frente. Se é a internet que não funciona, ela vai jogar o computador na parede. A pessoa pode ter razão, mas a reação que é desproporcional", exemplifica.
Essas reações ocorrem tanto em casa como no trabalho. "Muitas vezes ela consegue conter um pouquinho mais no trabalho, por medo de perder o emprego, mas não dá para dizer que nunca será demitida por causa disso", apontou. A psicóloga destaca que a pessoa que tem o transtorno percebe que a vida dela é muito ruim em todas as áreas, tanto pessoalmente como profissionalmente. Nos relacionamentos sociais e amorosos enfrenta dificuldades. "É uma pessoa que já está estigmatizada. Vão pedir para não falar determinados assuntos com ela, porque irá explodir. Pedem para mudar de assunto quando a pessoa chega."
"A pessoa que sofre de TEI só vai procurar ajuda profissional quando não consegue mais emprego, quando enxerga que está com problemas de relacionamento ou quando os filhos começam a ter medo dela. No trabalho geralmente os que sofrem da síndrome são bons naquilo que fazem, mas criam problemas e o empregador já não consegue segurar", destacou a psicóloga.
A profissional ressaltou que "é preciso mostrar que o transtorno tem tratamento, embora não tenha cura. Com o tratamento a pessoa terá controle, conseguirá contar até dez diante de uma situação que a irrite". Segundo a psicóloga, o tratamento ensina técnicas de relaxamento e de respiração. "Essas pessoas interpretam que o mundo está contra eles. Dizem 'você me provocou, você me cutucou'. Eles não entendem que a forma de enxergar o mundo não é assim", apontou. (V.O.)




