Medicamento inovador contra Alzheimer chega a Londrina
Morador de 81 anos é o 1º paciente da cidade a receber infusão do Kisunla, que retarda a progressão do transtorno em fase inicial e mantém a autonomia por mais tempo
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segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026
Morador de 81 anos é o 1º paciente da cidade a receber infusão do Kisunla, que retarda a progressão do transtorno em fase inicial e mantém a autonomia por mais tempo

Aos 81 anos, Antonio Pastorello se tornou a primeira pessoa a receber a infusão do Kisunla em Londrina, na última terça-feira (27), no Hospital do Coração. O remédio é o mais moderno a nível mundial que trata o comprometimento cognitivo leve e demência leve associados ao Alzheimer na fase inicial, reduzindo a progressão da doença em torno de 35%. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o medicamento em abril do ano passado, que chegou ao Brasil em agosto e tem custo aproximado de R$ 6 mil por ampola. O pioneirismo é celebrado pela família do patriarca e visado por outros pacientes de Lindsey Nakakogue, geriatra que realizou a aplicação intravenosa.
Desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly, o princípio ativo donanemabe atua sobre uma das prováveis causas da perda cognitiva e mantém a autonomia do paciente por mais tempo. Ele é um anticorpo monoclonal que se liga à proteína beta-amiloide, acumulada no cérebro dos pacientes com Alzheimer, e faz com que ela seja eliminada.
“A beta-amiloide é como se fosse um combustível para fosforilar outra proteína, que é a proteína tau, e assim, ocorre a morte de neurônios e atrofia cerebral, principalmente em regiões de memória recente. A atuação (do princípio ativo) é no clareamento do cérebro, na redução das placas de beta-amiloide, e com isso, vimos uma lentificação da progressão da doença”, explicou Nakakogue, que também é diretora científica da Febraz (Federação Brasileira das Associações de Alzheimer).
Doença fez mãe e irmão 'sumirem'
Nascido em Lins (SP), Antonio trabalhou como bancário ao longo da vida, sendo que foi gerente de banco, somente em Brasília, por mais de 25 anos. Casado com Maria de Lourdes, teve três filhos, Marcos, Ana Carolina e André, falecido durante a pandemia de Covid-19. Também é avô de Felipe, Alice e Ana Clara.
O patriarca foi diagnosticado com Alzheimer em agosto do ano passado, tão logo iniciando o tratamento tradicional. Ele já apresentava histórico familiar para a doença, com a mãe e o irmão mais velho acometidos em uma época que demências não eram facilmente identificáveis. Mesmo assim, ele contou que os parentes não faleceram por conta do transtorno, visto que se mantiveram ativos.
“A gente não pode parar, se parar, cai. Trabalhou a vida inteira, aí você para e não tem mais relacionamento com o outro a não ser na família. Meu irmão nem sabia quem era ela (a mãe), como vai se comunicar? Mas, na realidade, eu acho que (a doença) até aumentou a possibilidade deles continuarem vivos, porque eles não esquentavam mais a cabeça, não se preocupavam, não passavam raiva”, riu Antonio. “Ajudou a aumentar a vida deles, mas sem nada. Porque eles praticamente sumiram”.
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Esquecimento é leve
Considerando a presença na árvore genealógica, a família do paciente sempre esteve atenta aos “pequenos sinais" para a patologia em Antonio, e quando os primeiros indícios foram observados, procurou assistência médica especializada imediatamente. A doença foi comprovada por meio do exame de líquor, com ressonâncias atestando que não havia contraindicações para a infusão do Kisunla.
“Ele está na fase inicial da doença, dirige, lê, você conversa com ele de todos os assuntos. O que a gente quer com o tratamento é que ele fique dessa forma, bem, pelo maior tempo possível”, pontuou Nakakogue.
Antonio garantiu que tem total autonomia, “achando os caminhos direitinhos” em Londrina e contando que “não fica batendo perna nos lugares” porque se locomove com carro. Uma dificuldade que ele atribui a doença é não conseguir identificar o nome de frutas de imediato. “Você está vendo a fruta, pensa qual é e sabe, mas não consegue lembrar o nome dela. É só pensar um pouquinho, procurar no ‘computador’ (se referindo ao cérebro), dá um tempinho e eu acho”, brincou.

'Não está ao alcance de todos'
O homem se disse esperançoso e com boas perspectivas quanto ao seu novo tratamento, lamentando que, “pelo custo, infelizmente não está ao alcance de todo mundo, enquanto o Estado não assumir”. Se referiu ao fato da medicação só estar disponível em centros de referência privados, sem previsão de ser ofertada via SUS (Sistema Único de Saúde) ou planos de saúde.
Seu filho Marcos almeja uma evolução mais lenta do Alzheimer de seu pai, “plantando uma semente agora para colher lá na frente”, que resultará em maior qualidade de vida por mais tempo.
Como o remédio age
A intervenção com o medicamento Kisunla dura no mínimo 12 meses e, no máximo, 18 meses. Se completada em um ano, o paciente terá arcado com aproximadamente R$ 300 mil somente em ampolas, visto que a unidade custa R$ 6 mil em média.
“É uma ampola no primeiro mês, duas no segundo, três no terceiro. A gente titula a dose até chegar em quatro ampolas, para manter até um ano, todo mês, essas quatro, realizando ressonância magnética praticamente todas as vezes. Se em um ano a gente fizer uma tomografia com marcador de beta-amiloide e já tiver clareado bem, reduzido bastante a beta-amiloide, acabou o tratamento”, elencou a geriatra Lindsey Nakakogue.
Estudos demonstram que mesmo interrompendo as infusões com um ano ou um ano e meio, demora “muito tempo” para a proteína prejudicial começar a ser depositada no cérebro novamente. Por três a cinco anos, “ele vai estar bem e não vai precisar tomar a medicação novamente”, disse a médica.
Triagem reduz o risco para efeitos colaterais
Antonio Pastorello se mostrou elegível para o tratamento após passar por uma bateria rigorosa de exames. Para serem considerados, os interessados devem portar o Alzheimer em fase inicial ou ter comprometimento cognitivo leve, que tenha sido corroborado oficialmente, e não apresentar indício ou histórico de demência vascular, aneurisma ou sangramento no cérebro ou AVC (Acidente Vascular Cerebral).
A genética dos pacientes também é avaliada, visto que a medicação não pode ser utilizada por quem possui duas cópias do gene da Apolipoproteína E4 - fator de risco genético mais forte para a doença -, por apresentarem maior incidência de efeitos adversos. Além disso, não podem fazer uso de anticoagulantes potentes ou estar com outras doenças descompensadas.
A triagem médica reduz o risco de ARIA (anormalidades de imagem relacionadas ao amiloide), que se manifesta como edema ou sangramento cerebral e pode ser grave. A própria infusão é passível de ocasionar reações, como dor de cabeça, alergias locais ou sistêmicas e náusea, mas são geralmente reversíveis e podem ser prevenidas. Nakakogue disse ainda que, “na prática, os efeitos colaterais estão sendo bem mais raros do que a gente imaginava”.

Terceira evolução da classe
O Kisunla, nome comercial do donanemabe, é a terceira medicação da classe das drogas anti-amiloides desenvolvida. A primeira foi a Aduhelm, com o princípio ativo Aducanumab, em 2021, representando um marco no tratamento contra o Alzheimer por ser o primeiro remédio do âmbito aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) em 18 anos. Foi descontinuado em 2024 porque acarretava em muitos reações adversas.
A segunda foi a Leqembi (lecanemabe), reconhecida pela FDA em 2023 e, pela Anvisa, no último dezembro. No momento, está em fase de precificação pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos). Em uma inversão na ordem, a Kisunla foi aprovada a nível internacional em 2024, e no Brasil, em abril do ano seguinte, antes mesmo da Leqembi. Novos anticorpos monoclonais estão sendo estudados, para viabilizar diferentes meios de aplicação e com menos efeitos colaterais.
A inovação se deu porque os medicamentos vão além da redução dos sintomas e problemas comportamentais. Mesmo assim, Nakakogue ressaltou que o tratamento tradicional não é abandonado quando a terapia mais moderna é iniciada, exemplificando o uso de fármacos como a memantina e os anticolinesterásicos.
Também é essencial seguir com a intervenção não medicamentosa, ou seja, se exercitar, controlar as doenças existentes, socializar e fazer atividades intelectualmente estimulantes, como as ofertadas no Instituto Não Me Esqueças.
“Tudo isso vai fazer com que o tratamento seja mais efetivo. Eu sempre falo que qualquer remédio só vai fazer 50% do trabalho, os outros 50% é o que a própria pessoa faz”, considerou Nakakogue.






