Eunice Costa tem 55 anos, é londrinense e mãe de Fernando e Nathany. Foi auxiliar administrativa até 2018, quando o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) a aposentou por incapacidade permanente, um ano depois dela ser diagnosticada com câncer de mama no estágio 4, o metastático e mais crítico. Em cuidados paliativos há oito anos no HCL (Hospital do Câncer de Londrina), a mulher é prova que a abordagem não é sinônimo de “não há mais o que fazer”, deixando o seu luto antecipado de lado e focando em viver, não no tempo que a resta.
O mote da abordagem é a qualidade de vida “até o último dia, seja ele quando for”. Ana Carolina Kotinda, médica paliativista e coordenadora da Equipe Interdisciplinar de Cuidados Paliativos Oncológicos do HCL, explicou que a atuação profissional foca no controle de todas as dores que compõem a jornada do paciente, exemplificando o sofrimento físico, emocional, social e espiritual. O público-alvo deste cuidado são as pessoas que convivem com uma doença grave que limite ou ameace a vida, também contemplando seus familiares.
No caso da equipe da instituição filantrópica, os diferentes tipos de câncer são o cerne. Todos entram no escopo do tratamento, mas como os mais prevalentes atendidos no HCL, Kotinda elencou o câncer de mama, próstata, pulmão, trato gastrointestinal, estômago, pâncreas e intestino. Dentre as enfermidades também elegíveis para o cuidado paliativo, estão algumas doenças crônicas, como insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva e insuficiência renal; e neurológicas, como esclerose múltipla, Parkinson, Alzheimer, a ELA (esclerose lateral amiotrófica) e AVC (Acidente Vascular Cerebral).
Paliativo é o guarda-chuva, não a chuva
A abordagem é aplicável a qualquer pessoa, independentemente da idade, do prognóstico ou estágio da condição. Desmistificando a noção de que as ações paliativas cabem somente no “fim da vida”, Kotinda afirmou que é essencial introduzi-las já a partir do diagnóstico, para que elas coexistam com a intenção curativa. “Enquanto ele está fazendo a quimio, radioterapia, cirurgias, o paliativo está trabalhando no vômito, na dor causada pelo câncer ou pelas intervenções. Também a dor de não poder ser provedor da casa mais, o medo de morrer. O tempo vai passando, supondo que a doença realmente não tenha mais cura, não tenha mais a possibilidade de um tratamento para o câncer, a gente foca no tratamento para a pessoa”, pontuou.
A partir deste cenário, o paliativismo ganha mais importância. A médica indicou que se tiver somente 12 horas para paliar um paciente, como já lhe ocorreu, irá fazer caber o máximo de vida possível neste período. Porém, o oposto também pode ocorrer, e no caso das intervenções curativas apresentarem bons resultados, dará um passo para trás, mas ainda irá se manter à disposição.

Um estudo publicado na revista "JAMA Oncology" propõe a ideia de que o cuidado paliativo funciona como um guarda-chuva, protegendo quem precisa contra a enfermidade, que seria a precipitação. Se o paciente souber, desde o início de sua jornada, que existe uma equipe pronta para auxiliar com as intempéries da doença, “ele não vai ficar na chuva”. “Para ele, é muito melhor quando o médico tratando a doença de base diz o que pode acontecer no tratamento, como náusea e angústia. Se isso acontecer, tem uma equipe estruturada para te amparar, pode ser que você não precise, mas se precisar, a equipe está aqui. Pode ser que não chova, mas se chover, o guarda-chuva está aqui”, metaforizou Kotinda.
Atuação especializada
Além dos médicos paliativistas, integram a equipe profissionais atuantes nas áreas de enfermagem, psicologia, assistência social, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e odontologia, contando ainda com um capelão. A abordagem também compete aos familiares, que podem ter a sensação de impotência e perda amparada pelos especialistas.
O setor exclusivo ao paliativismo, ofertado via SUS (Sistema Único de Saúde), possui nove leitos, mas demais pacientes oncológicos são tratados pela equipe no Pronto-Socorro, na UTI (Unidade de Pronto Atendimento), ambulatorialmente e à domicílio. Em um país envelhecido, o cuidado tem ganhado maior destaque por conta da demanda, já que as pessoas desenvolvem mais doenças na terceira idade.
Assim, cresceu também a necessidade por formação acadêmica especializada, sendo que o cuidado paliativo é regulamentado pela AMB (Associação Médica Brasileira). Neste âmbito, a equipe do HCL é vanguardista e uma das mais completas do Sul do Brasil, informou Kotinda.
Os profissionais fazem uso de tecnologias para viabilizar o melhor atendimento possível, com consultas à distância e telechamadas com familiares dos pacientes. A médica contou que o uso de óculos de realidade virtual, que imerge o usuário em outro ambiente, é um sucesso. “O paciente queria comer uma macarronada da avó. A gente fez um ambiente de cantina e colocou cheiro de lavanda, que ele falou que lembrava, e ele fez a refeição vendo isso e ouvindo música. A casa de outro paciente cheirava à erva-cidreira, que a esposa borrifava, então a gente colocou o cheiro, usou o óculos pra filmar a casa e o jardim pra ele poder passear”, recordou. No futuro, Kotinda almeja uma experiência ainda maior, com salas imersivas.
Sobrevivente há 12 anos
A médica contou ainda que muitas pessoas acometidas por doenças graves vivem anos em cuidado paliativo, uma vez que não é o tempo cronológico que importa, e sim, o biográfico. Kotinda considerou que “cabe muita vida e biografia dentro da biologia limitada”. É o caso de Eunice Costa, que descobriu o câncer de mama em 2017, que já estava metastático há três anos, sem ela saber. “Meu chão caiu e fiquei um ano em depressão, porque eu descobri a metástase óssea, que eu tenho na lombar, vértebra e no esterno. Comecei a fazer o tratamento paliativo e foi um divisor de águas na minha vida”, recordou.

Eunice foi e segue amparada por todas as especialidades que compõem a equipe do HCL, aprendendo a não enxergar a morte como inimiga, “porque ela faz parte”. “Talvez Deus esteja me segurando aqui ainda por isso, para mostrar que as pessoas podem viver com qualidade de vida, e não morrer em vida. Hoje, eu não tenho medo da morte, eu falo que nós brincamos de esconde-esconde, só que ela não quer me achar e eu não quero que ela me ache”, disse, emocionada.
Quando iniciou o tratamento paliativo, era acompanhada por 13 amigas em situações parecidas. O companheirismo resultou em amizade, jantares e até em uma ida à um parque aquático. Eunice fez uma tatuagem em homenagem às amigas, que “tiveram um final lindo” e aproveitaram ao máximo o tempo que as restava.
Viver com dignidade
A mulher passou por sessões de radioterapia, porque o tipo de câncer que a acometeu não responde bem à quimio. Hoje, faz uso de um medicamento de hormonioterapia em casa, com a doença estável e regredindo. Eunice vai até o Hospital do Câncer a cada três meses para fazer uma bateria de exames, contando que se sente em casa no setor paliativo.

Fez um pedido especial às mulheres, que são incumbidas de “cuidar do marido e filhos e esquecem delas mesmas”. Feliz, disse que recebeu alta do psicólogo e passa semanas longe de casa viajando, contando que quando foi diagnosticada, não pediu a cura, e sim, que pudesse viver com dignidade e qualidade de vida. “É isso que estou tendo”, agradeceu.
‘Um dia de cada vez’
Rosemeire Calovi tem 53 anos e é servidora municipal na Prefeitura de Uraí, cidade na Região Metropolitana de Londrina. É casada, tem irmãs e dois filhos. Desde o diagnóstico em outubro do ano passado, ela luta contra um câncer de mama raro e extremamente agressivo, sendo que está internada na Unidade de Cuidados Paliativos do HCL. A família se reveza como acompanhantes a Rosemeire, com Maria José Maciel aproveitando a sua folga para sentar ao lado do leito de sua cunhada.

A enfermeira contou que Rosemeire realizou três sessões de quimioterapia e quatro de radioterapia, mas que o tratamento curativo teve que ser interrompido antes do planejado. “Ela começou com muita sonolência depois do Natal, uma fraqueza, só dormia, e como tem um casal de amigos vizinhos que são médicos, eles acharam melhor que trouxesse ela para o hospital para averiguar. Fizeram uma ressonância e descobriram a metástase. A equipe médica chamou o esposo, que é meu irmão, e explicou que não há o que fazer. Mas é como diz a doutora Ana (Kotinda), é um dia de cada vez”.
Maciel recordou de uma manhã no hospital em que a cunhada estava consciente e assistindo a televisão. “Eu até brinquei com a fisioterapeuta, falei ‘vem ver para a doutora não dizer que eu sou mentirosa’, e ela fotografou e mandou foto para a doutora”, contou aos risos. Em outros momentos, Rosemeire demonstra sentir dor com caretas.
“Todo dia tem a visita médica e perguntam como ela está se sentindo, tentam falar com ela, às vezes ela responde, às vezes não. Ela disse que estava com dor e a enfermeira veio, conversou, mudou a posição para ver se melhorava e ela continuava com dor, então ela optou por fazer a medicação. Dor ela não tem passado, eles não deixam passar dor”, disse Maciel.
Humanização
A cunhada contou que Rosemeire “está sempre serena e não perdeu a calma em nenhum momento”, considerando que a mulher não passou por muitos procedimentos invasivos. Ela definiu os cuidados paliativos como “humanização”, tanto para a paciente, quanto para a família. Ela já conversou com o capelão e seu irmão, esposo de Rosemeire, já se abriu com o psicólogo.
Quando “o momento dela chegar”, Maciel espera que Rosemeire “tenha paz e vá tranquila, como ela está agora”.
Diretrizes nacionais em Londrina
O HU/UEL (Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina) implementou, em 2022, a EICP (Equipe Interdisciplinar de Cuidados Paliativos Adulto). A criação atendeu a uma exigência do Ministério da Saúde, que indica que todos os centros especializados em Oncologia do país devem ofertar tratamento paliativo. Referência no serviço no âmbito do SUS, a instituição segue a Política Nacional de Cuidados Paliativos, que estabelece as bases para a organização das ações em todos os pontos da Rede de Atenção à Saúde, com destaque para a Atenção Primária.

A política foi instituída em 2024, quando cerca de 625 mil brasileiros necessitavam deste tipo de cuidado. Dois anos depois, “a integralização entre os serviços está caminhando”, considerou Isabella Razente, médica paliativista e integrante da Comissão de Cuidados Paliativos do HU.
Dentre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e assistentes sociais, quase 40 pessoas integram a equipe. A oferta de assistência especializada para internação e retorno ambulatorial não engloba somente pacientes oncológicos, mas também portadores das demais doenças que demandam a abordagem. Divididos com os pacientes da UTI quando necessário, os 14 leitos disponíveis são ocupados, na maioria das vezes, por idosos.

Consolidação e demanda
O número de pacientes tratados pela EICP vem crescendo exponencialmente desde a sua implementação. Em 2023, foram 334 pessoas atendidas no setor, com 537 portadores acompanhados no ano seguinte. Já em 2025, o total foi de 738, totalizando 1609 pacientes paliativos nos últimos três anos. Desde o início deste ano, cerca de 60 pessoas foram adicionadas à lista. “Essa crescente é por ter se consolidado, pelas pessoas terem visto o quanto é essencial esse cuidado. É uma cultura que tem sido mudada dia a dia”, considerou Bruna Galvão, enfermeira que integra a coordenadoria da Unidade C, responsável por receber os pacientes no setor.
Com relação às tecnologias adotadas, a equipe é munida de equipamentos e medicações de alto custo, o que Galvão considera um privilégio. “Pela alta complexidade do hospital, nós temos um bom suporte e acesso a muita coisa, muito insumo que dificilmente vai ser encontrado em qualquer serviço. Tudo isso que é proposto para o hospital como um todo, também abrange os nossos pacientes”.

Os afortunados que recebem alta, retornam para a Atenção Básica de Saúde amparados. “Nós explicamos para o posto de saúde porque ele internou e o que ele tratou aqui. Também temos bastante comunicação com o SAD, que é o Serviço de Atenção Domiciliar, a gente sempre chama e eles acompanham durante um tempo”, pontuou a enfermeira. Em todas as modalidades, o foco do tratamento é o paciente, mais importante do que a doença.

