Luiz Flávio Inácio da Silva tinha 40 anos de idade, era bombeiro militar, atleta e aguardava a data de seu casamento quando faleceu em um acidente na estrada a caminho de Londrina, em agosto de 2022. Seu veículo aquaplanou, saiu da pista e bateu em uma árvore, levando a uma contusão cerebral grave - lesão axonal difusa - e quatro dias de internação, sem consciência. Com a morte encefálica pronunciada, a família optou pela doação de órgãos, respeitando seu desejo e fazendo com que ele salvasse vidas "até o fim".
A campanha nacional Setembro Verde é dedicada a sensibilizar a população sobre a importância da doação de órgãos e tecidos para transplantes. A iniciativa também busca estimular as pessoas a conversarem com seus familiares sobre a aspiração de serem doadoras, já que o procedimento só é realizado mediante autorização da família.
A OPO (Organização de Procura de Órgãos) de Londrina realiza ações próprias ao longo de todo o ano, intensificando-as neste mês. Com sedes também em Curitiba, Maringá (Noroeste) e Cascavel (Oeste) o setor localiza, capta, retira e transporta os órgãos.
É notificado por hospitais da abertura de protocolos de morte encefálica, avalia a possível doação e presta suporte à família para esclarecer dúvidas e obter a autorização legal. A OPO local abrange toda a Macrorregional de Saúde Norte, que contempla 97 municípios.
A coordenadora, Emanuelle Fiorio Zocoler, promove entrevistas com famílias recém-enlutadas desde 2012, contando que “se a vontade foi declarada em vida, elas respeitam a vontade”.
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Quem pode doar e receber
Existem dois tipos de doadores de órgãos: o vivo e o falecido. Qualquer pessoa saudável pode doar, em vida, um dos seus rins e parte dos pulmões, do fígado e da medula para um familiar próximo - até 4ª grau consanguíneo - ou cônjuge, mediante avaliação médica de sua história clínica e doenças prévias. Se não houver parentesco, o procedimento é viável com autorização judicial.
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Até julho deste ano, 12 transplantes de doadores vivos foram promovidos em Londrina, sendo todos de medula e viabilizados no HU/UEL (Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina).
E qualquer pessoa com diagnóstico de morte encefálica - vítimas de traumatismo craniano, AVC (Acidente Vascular Cerebral) e anóxia - ou com óbito causado por parada cardiorrespiratória podem doar rins, coração, pulmão, pâncreas, fígado e intestino. Além de tecidos, como válvulas, córneas, ossos, músculos, tendões, pele, cartilagem, medula óssea, sangue do cordão umbilical, veias e artérias.
Amizade virou romance
No caso de Luiz da Silva, falecido em 2022 após um acidente de carro, a doação de seu fígado, córneas, coração e ambos os rins resultou no transplante a cinco pessoas. Sua noiva, Luana dos Santos, 43, é enfermeira e autorizou o procedimento junto de seu cunhado, com suporte da equipe da OPO de Londrina. O casal se conheceu há 16 anos por frequentar os mesmos espaços, compartilhando o amor pela corrida e profissão. Quando ela era enfermeira do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), atendeu ocorrências junto do Batalhão de Corpo de Bombeiros em que Luiz atuava.

A amizade se tornou romance em 2020, sendo que ele foi transferido para o quartel de Bandeirantes (Norte Pioneiro) durante a pandemia de Covid-19. Ele fazia recorrentemente o percurso no qual faleceu, visto que morava com Santos quando estava em Londrina. O bombeiro estava prestes a iniciar um curso de socorrista para poder retornar ao município, com planos de casar em 2023.
Salvou vidas até o fim
Luiz foi levado para a Santa Casa de Londrina, onde permaneceu por quatro dias em estado grave. “Foi um prognóstico bem reservado, porque ele teve uma lesão axonal difusa, e a única coisa que os médicos falavam é que não tinha data pra ele acordar quando desligasse a sedação. Ia ser no tempo dele, só seria possível ver as reais sequelas depois que ele acordasse. A gente sabia da gravidade do caso, mas sempre tivemos esperança”, recordou Santos.
Quando o médico notificou que iniciaria o protocolo de determinação de morte cerebral, com a realização de exames para verificar a existência de atividade cerebral, o mundo de Santos “caiu”. “Eu tinha na minha mente que seria um tratamento bem difícil e prolongado, mas nunca que ele ia morrer. A morte encefálica nunca tinha passado pela minha cabeça”, recordou. Foram 18 horas de “muita angústia”, com repetição de avaliação a cada seis horas, até a confirmação do quadro.

O noivo de Santos havia expressado em vida o desejo de doar seus órgãos, e quando Santos contou sobre a vontade à mãe de Luiz, ela concordou imediatamente. “Ela falou na hora ‘ele sempre cuidou do corpo e da saúde a vida inteira. Não vou deixar para os bichos comerem, vai ajudar quem precisa’”.
A enfermeira lembrou que o bombeiro tinha “sede de viver”. “Até pela profissão que ele sempre teve, que era salvar vidas, eu costumo dizer que o ciclo dele se concluiu do jeito que tinha que ser. Ele passou a vida salvando vidas e foi embora salvando vidas”, afirmou.
Risco de morte súbita
Do outro lado da moeda, Adriele Bueno, 40, teve a sua vida mudada por um transplante de pulmão há sete anos. Ela tinha a saúde completamente debilitada por sofrer com hipertensão arterial pulmonar. Usava um cilindro de oxigênio 24 horas por dia e se locomovia com cadeira de rodas, precisava de ajuda para tomar banho e perdeu a autonomia. Sua irmã mais velha e prima receberam o mesmo diagnóstico e, sem oportunidade de receber um novo órgão, vieram a falecer.

“A maior dificuldade que eu tinha por conta da doença era a locomoção, até dentro de casa. Eu tinha muita muita falta de ar, cansaço excessivo, e não conseguia comer direito, porque só mastigar já me cansava muito. Eu não tinha nenhum músculo mais, e esse foi o motivo pelo qual eu tive que usar cadeira de rodas”, recordou Bueno. Completou dizendo que chegou ao limite das medicações que poderia ingerir, com o coração “inchado” e correndo risco de morte súbita.
‘Falar enquanto o coração bater’
Ela entrou na fila de espera para transplantes em 2017 e foi agraciada com um novo pulmão em 2019. O procedimento foi realizado em São Paulo e, seis meses depois, Bueno pôde retornar a Londrina. Hoje, ela está finalizando a graduação em Educação Física, atua como personal trainer e almeja inaugurar um estúdio de pilates.
“Receber um órgão de alguém que eu não conheço, de uma família que disse ‘sim’ à doação, foi um renascimento. Antes, eu não tinha planos de futuro, não conseguia sonhar, e é uma sensação de liberdade conseguir fazer as coisas”, celebrou.
Curada da doença, Bueno contou que vive normalmente e com poucas restrições, mas que as segue à risca. Fez um apelo para que todos “falem sobre a possibilidade de serem doadores enquanto o coração ainda bate”, já que “falar sobre doação de órgãos é falar sobre vida”.

Baixa taxa de recusa familiar em Londrina
A média de recusa familiar de doação de órgãos no Brasil é de 45%. O Paraná alcançou 30% e, ao lado de Santa Catarina, tem a menor porcentagem do país. Londrina segue o padrão: entre as 277 notificações de abertura de protocolos de morte encefálica no ano passado, 81 resultaram em doações, com 39 (27%) recusas.
Até julho deste ano, foram 122 notificações, 14 recusas familiares (26%) e 33 doações, com 60 barradas por contra indicação clínica.

Tempo de isquemia
O tempo é essencial a partir da notificação de que um órgão é viável para transplante, com acionamento do candidato ideal, programação do centro cirúrgico e transporte realizado por autoridade competente. Se o receptor estiver em outro estado, a FAB (Força Aérea Brasileira) promove a viagem.
Já o tempo de isquemia é o prazo entre a interrupção de fluxo de sangue no doador e o novo aporte, já com o implante no receptor. Cada órgão resiste à falta de circulação e oxigenação sanguínea por períodos diferentes, listados abaixo junto dos números da lista de espera no Paraná. Em todo o Estado, 5.674 pessoas aguardam:
Órgão - Candidatos - Tempo de isquemia
Rim - 2.387 (48 horas)
Córneas - 2.926 (até sete dias)
Fígado - 287 (12 horas)
Rim e pâncreas simultaneamente - 21
Pâncreas - 5 (12 horas)
Pulmão - 5 (4 a 6 horas)
Coração - 43 (4 horas)



