Entre o luto e a esperança, a decisão de doar pode salvar vidas

Histórias de doadores e receptores mostram o impacto dos transplantes e reforçam, no Setembro Verde, a importância de falar sobre a doação em família

Publicado segunda-feira, 07 de setembro de 2026 | Autor: Heloísa Gonçalves às 07:28 h

Luiz Flávio Inácio da Silva tinha 40 anos de idade, era bombeiro militar, atleta e aguardava a data de seu casamento quando faleceu em um acidente na estrada a caminho de Londrina, em agosto de 2022. Seu veículo aquaplanou, saiu da pista e bateu em uma árvore, levando a uma contusão cerebral grave - lesão axonal difusa - e quatro dias de internação, sem consciência. Com a morte encefálica pronunciada, a família optou pela doação de órgãos, respeitando seu desejo e fazendo com que ele salvasse vidas "até o fim".

A campanha nacional Setembro Verde é dedicada a sensibilizar a população sobre a importância da doação de órgãos e tecidos para transplantes. A iniciativa também busca estimular as pessoas a conversarem com seus familiares sobre a aspiração de serem doadoras, já que o procedimento só é realizado mediante autorização da família.

A OPO (Organização de Procura de Órgãos) de Londrina realiza ações próprias ao longo de todo o ano, intensificando-as neste mês. Com sedes também em Curitiba, Maringá (Noroeste) e Cascavel (Oeste) o setor localiza, capta, retira e transporta os órgãos.

É notificado por hospitais da abertura de protocolos de morte encefálica, avalia a possível doação e presta suporte à família para esclarecer dúvidas e obter a autorização legal. A OPO local abrange toda a Macrorregional de Saúde Norte, que contempla 97 municípios.

A coordenadora, Emanuelle Fiorio Zocoler, promove entrevistas com famílias recém-enlutadas desde 2012, contando que “se a vontade foi declarada em vida, elas respeitam a vontade”.

Leia mais:

Quem pode doar e receber

Existem dois tipos de doadores de órgãos: o vivo e o falecido. Qualquer pessoa saudável pode doar, em vida, um dos seus rins e parte dos pulmões, do fígado e da medula para um familiar próximo - até 4ª grau consanguíneo - ou cônjuge, mediante avaliação médica de sua história clínica e doenças prévias. Se não houver parentesco, o procedimento é viável com autorização judicial.

Leia também:

Transplante cardíaco em Arapongas devolve esperança a homem de 49 anos

Mulher de 38 anos é a 1ª paciente do PR a receber coração artificial pelo SUS

Até julho deste ano, 12 transplantes de doadores vivos foram promovidos em Londrina, sendo todos de medula e viabilizados no HU/UEL (Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina).

E qualquer pessoa com diagnóstico de morte encefálica - vítimas de traumatismo craniano, AVC (Acidente Vascular Cerebral) e anóxia - ou com óbito causado por parada cardiorrespiratória podem doar rins, coração, pulmão, pâncreas, fígado e intestino. Além de tecidos, como válvulas, córneas, ossos, músculos, tendões, pele, cartilagem, medula óssea, sangue do cordão umbilical, veias e artérias.

Amizade virou romance

No caso de Luiz da Silva, falecido em 2022 após um acidente de carro, a doação de seu fígado, córneas, coração e ambos os rins resultou no transplante a cinco pessoas. Sua noiva, Luana dos Santos, 43, é enfermeira e autorizou o procedimento junto de seu cunhado, com suporte da equipe da OPO de Londrina. O casal se conheceu há 16 anos por frequentar os mesmos espaços, compartilhando o amor pela corrida e profissão. Quando ela era enfermeira do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), atendeu ocorrências junto do Batalhão de Corpo de Bombeiros em que Luiz atuava.

Luiz e Luana planejavam o casamento quando o bombeiro foi vítima de um acidente, em 2022
Luiz e Luana planejavam o casamento quando o bombeiro foi vítima de um acidente, em 2022 | Foto: Arquivo Pessoal

A amizade se tornou romance em 2020, sendo que ele foi transferido para o quartel de Bandeirantes (Norte Pioneiro) durante a pandemia de Covid-19. Ele fazia recorrentemente o percurso no qual faleceu, visto que morava com Santos quando estava em Londrina. O bombeiro estava prestes a iniciar um curso de socorrista para poder retornar ao município, com planos de casar em 2023.

Salvou vidas até o fim

Luiz foi levado para a Santa Casa de Londrina, onde permaneceu por quatro dias em estado grave. “Foi um prognóstico bem reservado, porque ele teve uma lesão axonal difusa, e a única coisa que os médicos falavam é que não tinha data pra ele acordar quando desligasse a sedação. Ia ser no tempo dele, só seria possível ver as reais sequelas depois que ele acordasse. A gente sabia da gravidade do caso, mas sempre tivemos esperança”, recordou Santos.

Quando o médico notificou que iniciaria o protocolo de determinação de morte cerebral, com a realização de exames para verificar a existência de atividade cerebral, o mundo de Santos “caiu”. “Eu tinha na minha mente que seria um tratamento bem difícil e prolongado, mas nunca que ele ia morrer. A morte encefálica nunca tinha passado pela minha cabeça”, recordou. Foram 18 horas de “muita angústia”, com repetição de avaliação a cada seis horas, até a confirmação do quadro.

Hoje, Luana Santos trabalha ao lado das enfermeiras da OPO que elucidaram suas dúvidas após a morte de Luiz
Hoje, Luana Santos trabalha ao lado das enfermeiras da OPO que elucidaram suas dúvidas após a morte de Luiz | Foto: Heloísa Gonçalves

O noivo de Santos havia expressado em vida o desejo de doar seus órgãos, e quando Santos contou sobre a vontade à mãe de Luiz, ela concordou imediatamente. “Ela falou na hora ‘ele sempre cuidou do corpo e da saúde a vida inteira. Não vou deixar para os bichos comerem, vai ajudar quem precisa’”.

A enfermeira lembrou que o bombeiro tinha “sede de viver”. “Até pela profissão que ele sempre teve, que era salvar vidas, eu costumo dizer que o ciclo dele se concluiu do jeito que tinha que ser. Ele passou a vida salvando vidas e foi embora salvando vidas”, afirmou.

Risco de morte súbita

Do outro lado da moeda, Adriele Bueno, 40, teve a sua vida mudada por um transplante de pulmão há sete anos. Ela tinha a saúde completamente debilitada por sofrer com hipertensão arterial pulmonar. Usava um cilindro de oxigênio 24 horas por dia e se locomovia com cadeira de rodas, precisava de ajuda para tomar banho e perdeu a autonomia. Sua irmã mais velha e prima receberam o mesmo diagnóstico e, sem oportunidade de receber um novo órgão, vieram a falecer.

Adriele Bueno aguardou na fila para um transplante de pulmão por dois anos, cada vez mais debilitada pela hipertensão arterial pulmonar
Adriele Bueno aguardou na fila para um transplante de pulmão por dois anos, cada vez mais debilitada pela hipertensão arterial pulmonar | Foto: Arquivo Pessoal

“A maior dificuldade que eu tinha por conta da doença era a locomoção, até dentro de casa. Eu tinha muita muita falta de ar, cansaço excessivo, e não conseguia comer direito, porque só mastigar já me cansava muito. Eu não tinha nenhum músculo mais, e esse foi o motivo pelo qual eu tive que usar cadeira de rodas”, recordou Bueno. Completou dizendo que chegou ao limite das medicações que poderia ingerir, com o coração “inchado” e correndo risco de morte súbita.

‘Falar enquanto o coração bater’

Ela entrou na fila de espera para transplantes em 2017 e foi agraciada com um novo pulmão em 2019. O procedimento foi realizado em São Paulo e, seis meses depois, Bueno pôde retornar a Londrina. Hoje, ela está finalizando a graduação em Educação Física, atua como personal trainer e almeja inaugurar um estúdio de pilates.

“Receber um órgão de alguém que eu não conheço, de uma família que disse ‘sim’ à doação, foi um renascimento. Antes, eu não tinha planos de futuro, não conseguia sonhar, e é uma sensação de liberdade conseguir fazer as coisas”, celebrou.

Curada da doença, Bueno contou que vive normalmente e com poucas restrições, mas que as segue à risca. Fez um apelo para que todos “falem sobre a possibilidade de serem doadores enquanto o coração ainda bate”, já que “falar sobre doação de órgãos é falar sobre vida”.

Adriele Bueno está terminando a graduação em Educação Física: “Receber um órgão de uma família que disse ‘sim’ à doação foi um renascimento”
Adriele Bueno está terminando a graduação em Educação Física: “Receber um órgão de uma família que disse ‘sim’ à doação foi um renascimento” | Foto: Arquivo Pessoal

Baixa taxa de recusa familiar em Londrina

A média de recusa familiar de doação de órgãos no Brasil é de 45%. O Paraná alcançou 30% e, ao lado de Santa Catarina, tem a menor porcentagem do país. Londrina segue o padrão: entre as 277 notificações de abertura de protocolos de morte encefálica no ano passado, 81 resultaram em doações, com 39 (27%) recusas.

Até julho deste ano, foram 122 notificações, 14 recusas familiares (26%) e 33 doações, com 60 barradas por contra indicação clínica.

Emanuelle Zocoler é coordenadora da OPO Londrina, que conta com taxa de recusa familiar menor do que a nacional e estadual
Emanuelle Zocoler é coordenadora da OPO Londrina, que conta com taxa de recusa familiar menor do que a nacional e estadual | Foto: Heloísa Gonçalves

Tempo de isquemia

O tempo é essencial a partir da notificação de que um órgão é viável para transplante, com acionamento do candidato ideal, programação do centro cirúrgico e transporte realizado por autoridade competente. Se o receptor estiver em outro estado, a FAB (Força Aérea Brasileira) promove a viagem.

Já o tempo de isquemia é o prazo entre a interrupção de fluxo de sangue no doador e o novo aporte, já com o implante no receptor. Cada órgão resiste à falta de circulação e oxigenação sanguínea por períodos diferentes, listados abaixo junto dos números da lista de espera no Paraná. Em todo o Estado, 5.674 pessoas aguardam:

Órgão - Candidatos - Tempo de isquemia

Rim - 2.387 (48 horas)

Córneas - 2.926 (até sete dias)

Fígado - 287 (12 horas)

Rim e pâncreas simultaneamente - 21

Pâncreas - 5 (12 horas)

Pulmão - 5 (4 a 6 horas)

Coração - 43 (4 horas)

Logo da Folha de Londrina
Heloísa Gonçalves

Heloísa Gonçalves

Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.

Repórter de Educação, Saúde e Cidades, com foco em políticas públicas e cotidiano.