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CORONAVÍRUS -

Vulnerabilidade social potencializa risco de Covid-19

Medidas simples de prevenção, como lavar as mãos, não são tarefa fácil nas ocupações irregulares

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha

“Lavem as mãos!” Apesar de simples, as medidas de prevenção contra o novo coronavírus não são fáceis de praticar por quem não tem o básico: água potável e sabão. Colocar a máscara, usar álcool gel, ficar em casa não é uma recomendação viável para aproximadamente 16 mil moradores das 69 áreas de ocupações irregulares de Londrina.  

Moradores de ocupações vivem em condições insalubres, sem acesso a infraestrutura básica
Moradores de ocupações vivem em condições insalubres, sem acesso a infraestrutura básica | Gustavo Carneiro
 


Os dados foram levantados pela Cohab (Companhia de Habitação de Londrina) em 2017, mas pesquisadoras da UEL (Universidade Estadual de Londrina) acreditam que atualmente os números são maiores e estão fazendo novo levantamento. Trabalhando diretamente com essa população, elas alertam para o risco de alta transmissão da Covid-19 nesses locais. 




“As pessoas acham que não tem favela em Londrina e o desdobramento disso, essa falta de conhecimento, faz com que essa população fique ainda mais marginalizada”, comenta Jeani Paschoal Moura, professora do Departamento de Geociências da UEL.  



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Para ela, o distanciamento da realidade está, em parte, relacionado às características dessas ocupações em Londrina. “As favelas do Rio de Janeiro ficam no morro, todo mundo vê, nossas ocupações ficam escondidas, a maior parte está em fundos de vale, o que as torna invisíveis diante da sociedade civil”, acrescenta. 


Moura faz parte do projeto de extensão Monitoramento da Elaboração e Aplicabilidade do Plano Diretor Municipal de Londrina, coordenado pela professora Ideni Antonello, e conta com outros alunos e professores, entre eles, Leia Aparecida Veiga, docente da pós-graduação em Geografia da UEL, que esteve em contato diretamente com os moradores das ocupações em Londrina. 


“Encontramos famílias que estavam sem condição de se alimentar, necessitando de ajuda. Nesse momento agora de pandemia, eles sobrevivem de ajuda”, fala Veiga. “Em 2017, na ocupação do córrego Sem Dúvida, 15% eram trabalhadores informais e 23% sem renda, agora, com essas alterações, a gente precisa de um novo levantamento, mas o índice é grande”, aponta. O levantamento começou neste ano, mas foi paralisado por conta da pandemia. 


As 69 áreas de ocupação de Londrina foram mapeadas. A de maior concentração está na zona leste, com 34,7% de ocupações, seguida pelas zonas norte (31,8%) e sul (23,1%). As áreas com o menor percentual de áreas com ocupação irregular estão na zona oeste (7,2%) e central (2,8%). 


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Nas visitações realizadas pelo projeto, foram encontradas condições insalubres, com famílias inteiras vivendo sem infraestrutura básica, como acesso a água tratada, esgoto, energia elétrica, asfalto e outros. “Como elas estão em locais proibidos, principalmente por questões ambientais, são fundos de vale, áreas de preservação permanente, geralmente não vão ser atendidas pelos serviços públicos básicos, como iluminação, coleta de resíduos, água potável, escola, hospitais, ficam excluídas”, afirma Moura. 


Se o que foi encontrado preocupava, a situação agora é ainda mais urgente, considerando a potência de transmissão em habitações superadensadas. “Quando fomos lá, em fevereiro, nós já ficamos preocupados por conta da dengue. Com a questão da Covid-19, a preocupação é maior ainda. Como manter condições mínimas de higiene e distanciamento nessas condições?”, questiona Veiga.  


“Estive lá no último sábado e ninguém estava de máscara. A gente fala ‘é só fabricar’, será que é tão simples para todas as pessoas? A questão do álcool gel, lavar as mãos... Nós estamos preocupados com higiene e eles estão preocupados com o mais importante, que é a alimentação”, defende Veiga. 


Para Moura, se a pandemia chegar nessas camadas, a situação vai ser mais desastrosa que outras regiões da cidade. E, por se tratar de áreas com número maior de crianças, jovens e adultos, e com poucos idosos, há falsa sensação de que não há gravidade. "Se fala de idosos e doentes crônicos, mas não podemos deixar de incluir a população que já vive em risco permanentemente devido a essa vulnerabilidade da estrutura. Lembrando que essa população já tem o sistema imunológico frágil e já está exposta as outras doenças”, menciona. 


REDE DE PROTEÇÃO 


Diante da questão, as professoras acreditam que é preciso que a sociedade seja mais ativa no combate à doença. “Não só a gestão pública, estamos vendo essas medidas de nível federal, algumas ações estadual e municipal, a gente vê que estamos caminhando, mas ainda não é o suficiente”, afirma Veiga. “Temos que ter um trabalho em conjunto, uma rede voltada a ouvir essa população, traçar medidas mais adequadas. Eles vivem situações que muitos londrinenses nem imaginam”, indica. 


Para elas, é preciso envolver a população e citam os trabalhos realizados pelas ONGs (organizações não governamentais), igrejas, escolas e universidade como essenciais na ocupação do lugar de fortalecimento da comunidade para desenvolver capacidade de enfrentamento.


Parte dessa rede de proteção solidária nasce do conhecimento do próprio território e, nesse ponto, a pesquisa científica sobre realidade geográfica da cidade é fundamental. “Para isso existe a universidade, para que esse conhecimento apareça mais”, afirma Moura.


Assim, com pesquisas voltadas ao conhecimento local, mais pessoas podem se conscientizar sobre a própria realidade e, quem sabe, apoiar essa população que fica ainda mais vulnerável diante de uma pandemia. “Não conhecemos Londrina, só conhecemos os espaços que nós circulamos. Conhecimento é fundamental para construir essas redes, senão, cada um fica no seu próprio casulo protetor, suas bolhas sociais e não há interação", defende.


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