Um mundo à parte nos limites do centro
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sexta-feira, 22 de junho de 2018
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

Na zona leste de Londrina, no limite entre o centro e os bairros populares da região, funciona o Terminal Rodoviário de Londrina. Inaugurado há exatos 30 anos, em 25 de junho de 1988, concentra um universo particular inerente à circulação diária de mais de 6.000 passageiros e 306 ônibus que vêm e vão para os mais diferentes destinos. A construção circular projetada por Oscar Niemeyer levou dez anos para ser finalizada e substituiu outro marco arquitetônico da cidade, a antiga rodoviária da rua Sergipe, projetada por Vilanova Artigas.
Quem frequenta o terminal tem a impressão de estar em um verdadeiro "microcosmo" instalado no encontro entre as avenidas Dez de Dezembro e Leste-Oeste. O ambiente é observado de perto por cerca de 500 trabalhadores que prestam serviços nas lojas, bilheterias, lanchonetes e restaurantes, além de taxistas e dos próprios funcionários do terminal. "Aqui é como uma 'trilha' por onde passam pessoas que precisam chegar a outro lugar", define o supervisor Anderson Souza Leão, 47, cuja história se confunde com a do terminal.
Ele começou a trabalhar na rodoviária em 1989. " Lembro inclusive do dia da inauguração, pois vim com meu irmão que já trabalhava aqui", afirma. Os ônibus, aliás, fazem parte da cultura de toda a família. "Meu pai era motorista de ônibus. Quando era criança, eu e meu irmão ficávamos na rodovia próxima ao local onde morávamos para ver os carros que passavam", conta.
Por isso, quando conseguiu emprego na rodoviária, sentiu-se "no auge". "Entrei para trabalhar na portaria dos ônibus e cheguei até a colecionar os fôlderes dos carros novos que eram lançados. Depois me acostumei", garante.
Em 29 anos no mesmo local de trabalho, Leão afirma que o conforto para os passageiros só aumentou. "Antes havia muitos ônibus malconservados, as pessoas viajavam sem banheiro. Hoje melhorou muito", avalia. No dia a dia do terminal, a diversidade de pessoas que transitam pelo local garante uma rotina agitada para os bons observadores do movimento. Não é incomum, por exemplo, famílias se mudarem de ônibus para outros Estados, com extensos volumes de bagagem. "Outro dia teve uma pessoa mudando para Porto Velho (RO). Já vi levarem até fogão no bagageiro do ônibus", relata.
Os reencontros entre familiares são emocionantes e chamam a atenção dos funcionários. "Antigamente era mais efusivo. Hoje em dia, com o uso do celular, é difícil as pessoas ficarem muito tempo sem se falar", analisa. O setor de achados e perdidos também guarda muitas histórias. "Os passageiros esquecem de tudo. Teve um caso de uma pessoa que abandonou uma bolsa com R$ 4.000 há alguns anos. Descobrimos que era um idoso portador de Alzheimer. A família conseguiu encontrá-lo", revela.
Leão diverte-se ao lembrar que, em décadas passadas, ele e outros funcionários tinham que laçar os cachorros que entravam na rodoviária para retirá-los de circulação. "A gente tinha vergonha de ficar correndo atrás deles. Hoje em dia mudou muito, os cachorros podem até viajar com os donos no assento", compara.
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Outra história que corre entre os funcionários é a possível presença de "fantasmas" nos banheiros. "O pessoal fala disso, mas eu mesmo nunca vi. Dizem que são moradores da favela que havia aqui antes da construção", brinca.

PONTO DE ENCONTRO
Muito além dos embarques e desembarques, o supervisor conta que a Rodoviária de Londrina também é ponto para encontros amorosos às escuras ou finalização de trocas e vendas por aplicativos. "As pessoas se conhecem por aplicativos de paquera e marcam encontro aqui, porque tem bastante gente. Se ver alguém andando em círculos, bem arrumado e sem bagagem aqui no terminal, pode ter certeza que é encontro. Alguns levam 'trote' e a gente fica até com pena", diverte-se. O local, segundo ele, também é usado para finalizar negócios iniciados em sites como Mercado Livre ou OLX. "Outro dia vi dois guitarristas se encontrando para trocar de guitarras", conta.
INDIVIDUALISMO
O supervisor Doriedson Pinho está há 28 anos na rodoviária. "Eu comecei no balcão de informações. Não pretendia ficar muito tempo, mas acabei permanecendo até hoje", diz. Ele observa que o prédio passou por modificações para atender novas necessidades dos usuários. "Trocaram os bancos e instalaram as esteiras rolantes para melhorar", afirma. Para o funcionário, as mudanças físicas foram positivas, mas as mudanças da sociedade o desagradam. "Antigamente as pessoas eram mais companheiras, hoje são mais individualistas. Isso acaba gerando reclamações e brigas. Falta um pouco de paciência e cuidado com os próximos que vão chegar no terminal", aponta.
Aos 65 anos, o auxiliar administrativo Alcino Vieira acumula 35 anos de rodoviária. "Eu era funcionário da Codel (Instituto de Desenvolvimento de Londrina) e fui transferido para a rodoviária da rua Sergipe quando estavam construindo o novo terminal", lembra. A mudança para a rodoviária da Dez de Dezembro foi recebida com admiração. "Os funcionários e passageiros acharam tudo muito diferente. Ficou mais organizado e bonito", lembra.
A novidade que mais provocou mudanças na vida de Vieira, entretanto, não tem a ver com a obra. "Foi ótimo quando começamos a usar computador. Antes, todos os procedimentos eram feitos manualmente, a tecnologia ajudou muito a organizar o trabalho", conta ele, que gosta muito da rodoviária, mas já começa a pensar na aposentadoria. "Gosto do que faço, mas estou cansado."
CASAMENTO
Paulo César de Souza, 48, é filho de Vieira, trabalha há 29 anos no terminal e, no local, teve uma segunda chance na vida. Foi na rodoviária que ele conheceu a esposa Josefa Santana, 54, com quem se casou depois de se apaixonarem entre o vai e vem de ônibus e passageiros. "Nós dois já tínhamos sido casados e nos conhecemos trabalhando", contam eles, que somam sete filhos entre dois dele, três dela e outros dois filhos resultantes da união. "Foram todos criados com o nosso trabalho aqui na rodoviária, não temos do que reclamar", avisam.
O segredo para manter o trabalho separado da vida pessoal é a discrição. "No início tinha fofocas e comentários, mas nunca demos importância", relatam. Como o esquema de trabalho na rodoviária é de cinco dias trabalhados para uma folga, os dois comemoram o fato de conseguirem conciliar os dias livres e também as férias. "Nem sempre folgamos no fim de semana, mas conseguimos descansar juntos", revelam.




