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Na miséria, risco à saúde fica em segundo plano

Para moradores de áreas de extrema pobreza, não ter comida no prato é problema maior que avanço da Covid-19

Vitor Struck - Grupo Folha
Vitor Struck - Grupo Folha


Na miséria, risco à saúde fica em segundo plano
Gustavo Carneiro
 


A primeira impressão sobre as condições de vida dos habitantes de uma localidade pode ser a que fica. E se a opinião for dada por uma antiga moradora, então, torna-se “lei” para quem visita a comunidade e logo comprova que onde falta o estado, sobra o "improviso" para a superação das dificuldades. “Meu filho, a maioria aqui trabalha cedo pra comer à tarde”, diz uma moradora que pediu para não ser identificada, mas fez questão de verbalizar o que os olhos já gritavam. 

 

Em busca de relatar o impacto dos últimos acontecimentos na vida da população mais pobre de Londrina, a FOLHA traz uma reportagem especial em que mostra a realidade de moradores de dois bairros cuja população se encontra em situação de vulnerabilidade social. Enquanto a Prefeitura anuncia a reabertura gradual do comércio, os relatos de quem vive no limite das piores condições sanitárias e financeiras pode reduzir um sério problema global ao patamar de uma "gripezinha", mas escancara a verdadeiro importância de se colocar em prática medidas de segurança especialmente quando se cogita uma possível contaminação em massa por Covid-19 na periferia.



 

"É triste a realidade, estamos esquecidos aqui", lamenta Márcia Nogueira
"É triste a realidade, estamos esquecidos aqui", lamenta Márcia Nogueira | Gustavo Carneiro
 



O convívio com doenças crônicas somado ao risco de morar em uma residência ainda inacabada que pode ser levada a qualquer momento pela força do vento ou de uma enxurrada, situação da dona de casa Márcia Nogueira, 38, é um exemplo da dimensão dos problemas que já existiam bem antes da pandemia de coronavírus. Outra situação complicada é a de quem veio de fora em busca de emprego, como o catador de materiais recicláveis José Aparecido da Silva, 57, e agora vê as perspectivas se fecharem ainda mais com uma nova e iminente onda de recessão econômica.      


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Em uma das ruas acidentadas em que cerca de 250 famílias ergueram suas casas ao longo dos anos, no Jardim Marieta, zona norte, a diarista Ana Cristina Silva Teixeira, 27, logo confirma a opinião da vizinha citada na abertura desta reportagem.  

 

A jovem trabalha para quatro famílias, mas nas últimas três semanas só pôde fazer uma faxina. Com a renda 80% menor, o sonho de reformar a casa em que vive com o marido e trazer mais conforto ao filho David, 3, foi o primeiro plano a desaparecer no horizonte de uma quarentena. “Eu ia rebocar a parte de dentro, agora parou tudo, não entra mais dinheiro. É difícil né, pelo jeito vai demorar. Agora como a creche está fechada não tem nem como sair. Ele ia na escola, agora só em casa”, lamenta.   

Situação parecida vive a vizinha Fernanda Bezerra, 32. Viúva e mãe de seis filhos, a jovem moradora costumava fazer, em média, quatro faxinas por semana, o suficiente para passar o mês com cerca de R$ 1.200, além da complementação do programa Bolsa Família. “A gente espera que amanheça o dia com uma boa notícia”, diz em alusão ao depósito do auxílio emergencial de R$ 600 anunciado pelo governo federal, mas que ainda não havia chegado, pelo menos até a tarde desta quinta-feira (16).   

Na miséria, risco à saúde fica em segundo plano
Gustavo Carneiro
 



 

Mesmo com todas as dificuldades, a jovem comemora o fato de estar passando mais tempo com os filhos e ter se tornado “professora” particular de uma “turma” inquieta. “Eu tô dando aula para eles de manhã, que começou pela internet, mas graças a Deus eu tenho um celular, tem mãe que não tem, aí os filhos ficam jogados. Estou ficando meio nervosa, mas por enquanto está dando”, conta.    




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Nem mesmo acompanhar o crescimento dos filhos dos outros mais de perto está sendo possível para a  pastora Sônia Nogueira dos Santos, que decidiu suspender as atividades do Projeto Evangelização do Menor "O Senhor é a Paz". No encontros semanais com direito a um lanche, pelo menos 26 crianças e adolescentes que moram na ocupação entravam em contato com a espiritualidade dos mais velhos enquanto dedicavam-se à música e ao teatro. "Não seria prudente continuar", disse a pastora como forma de dar um bom exemplo aos mais novos e evitar aglomerações.   

Na miséria, risco à saúde fica em segundo plano
Gustavo Carneiro
 



 

Em Londrina, três em cada dez moradores vivem em situação de pobreza e quase 25% da população de até 14 anos pertence a uma família com renda menor do que meio salário mínimo, aponta a publicação "Cenário da Infância e Adolescência no Brasil", da Fundação Abrinq. Neste contexto, a preocupação em contrair um novo vírus fica explícita somente em conversas mais demoradas.

No portão de casa, em quem topou falar rapidamente com a reportagem transparecia mesmo a velha angústia trazida com a urgência de se ter o alimento à mesa todos os dias. Dúvidas sobre a gravidade da Covid-19 para a saúde também foram mencionadas, mas não com a mesma intensidade das preocupações sobre a incertezas econômicas que guardam os próximos meses.  

 

Na miséria, risco à saúde fica em segundo plano
Gustavo Carneiro
 


Foi assim com a esposa do catador de materiais recicláveis e morador do Jardim União da Vitória, José Aparecido da Silva, 57, que, mesmo sendo diabética, ainda tinha “esperanças” de que o coronavírus não fosse tão "grave quanto dizem as notícias". A família é uma das 55 que moram em uma das seis unidades do União da Vitória e que puderam contar com doações de cestas básicas nas últimas semanas.  

De acordo com a irmã Maria José Picart, 73, moradora há dez anos na região, um grupo destinou 70 cestas básicas e todas já foram encaminhadas. Para a manhã deste sábado (18), um bazar seria preparado para ajudar a gerar renda para projetos como o da Casa Coração de Mãe, no União da Vitória 5, onde recebe cerca de 50 mulheres e cobra o compromisso de “aprenderem alguma atividade”.   

“A gente espera que amanheça o dia com uma boa notícia”, diz Fernanda Bezerra
“A gente espera que amanheça o dia com uma boa notícia”, diz Fernanda Bezerra | Gustavo Carneiro
 



“Estou observando que aumentou o número de famílias que pedem cestas. E eu também sempre falo para elas que Deus ajuda, mas que nós temos que fazer a nossa parte”, faz questão de ressaltar.  

 

Mesmo com o retorno das atividades da construção civil já autorizado, o auxiliar de pedreiro Adalberto Balbino dos Santos, 38, ainda não sabe quando poderá retomar o trabalho que lhe rende cerca de R$ 80 por dia. Com a mãe internada no Hospital Evangélico aguardando doações de sangue, não há tempo e energia para pensar no risco de contrair o coronavírus. O morador também demonstrou preocupação com a queda no volume de doações de sangue desde a chegada da doença.   

Ana Cristina Teixeira trabalha para quatro famílias, mas nas últimas semanas só pôde fazer uma faxina
Ana Cristina Teixeira trabalha para quatro famílias, mas nas últimas semanas só pôde fazer uma faxina | Gustavo Carneiro
 



 

Uma situação que só não é mais drástica do que a de Márcia Nogueira, 38. Para quem já encarou doenças como tuberculose e pneumonia, uma pandemia mundial de coronavírus não apavora tanto quanto os efeitos da "quarentena" afetiva e social que já enfrenta. "É triste a realidade, estamos esquecidos aqui", lamenta.



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