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Falta de dados sobre desemprego esconde real impacto da pandemia

Com a divulgação de dados do Caged suspensa, medidas econômicas de enfrentamento são baseadas em estimativas gerais; pedidos de seguro-desemprego dobraram nos últimos 30 dias

Pedro Moraes e Guilherme Marconi
Pedro Moraes e Guilherme Marconi

Já não bastassem as dúvidas provocadas pela Covid-19, as consequências econômicas causadas pela pandemia ainda não são conhecidas. O principal efeito sentido pela população, o desemprego, que atingia a uma parcela enorme dos brasileiros, tem marcas desconhecidas. O Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), elaborado pela Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, está suspenso. A razão é que as informações precisam ser enviadas digitalmente através do eSocial, mas muitas empresas não se adequaram. “Dessa forma já estava complicado de medir o tamanho do problema. Agora, diante desse cenário tão indefinido, fica ainda pior”, comentou Elzo Carreri, secretário municipal do Trabalho de Londrina. 


Falta de dados sobre desemprego esconde real impacto da pandemia
Guilherme Marconi
 



Apesar de os serviços relativos à área estarem sendo feitos de forma reduzida, o gestor da pasta explica que o número de telefonemas da população para obter informações sobre o seguro-desemprego dobrou ao longo do período da pandemia. “Antes, a média era de 70 chamadas diárias, agora tem passado de 130. O fato é que todo o processo pode ser feito de forma digital, mas a realidade é que muitas pessoas têm dificuldade ou mesmo não têm acesso à rede”, lembrou Carreri. 




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A situação de empregos em Londrina vinha de um cenário de lenta recuperação. O secretário lembra que, em 2016, o saldo foi encerrado em mais de 4.000 postos negativos e, em 2019, a tendência foi modificada, quando o índice registrou positivamente 219 vagas. “Havia uma perspectiva boa. A construção civil estava voltando lentamente, novas empresas estavam se instalando na cidade. Nossa base econômica depende muito do comércio e serviços, que obviamente deverão ser as áreas mais afetadas”, disse o gestor, que ressaltou. “Apesar da gravidade, precisamos focar no cuidado das pessoas”. 

O panorama da política econômica que estava em voga no País, com base neoliberal, é motivo de análise por parte do secretário de Trabalho. “Não parece ser um momento de se falar de estado mínimo. Todos os setores buscam por amparo e existe uma obrigação política para viabilizar a saída de crise. A União fica com a maior parte dos impostos, sobra pouco para os municípios e é hora desses recursos retornarem”, opina, ao lembrar de políticas como o auxílio emergencial. 





IMPACTO 

A reação no mercado de trabalho na região já pode ser sentida. A FOLHA noticiou nessa sexta-feira (17) que a empresa de metalurgia Pado, segundo informações do Stimmel (Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Londrina e Região), já demitiu 110 funcionários. A Léo Cosméticos dispensou 15 funcionárias que tinham contrato de trabalho temporário. A rede tem 18 lojas em Londrina, Apucarana, Arapongas, Maringá, Curitiba e em Santa Catarina e cerca de 400 colaboradores. Sem contar os inúmeros impactos em pequenos comerciantes, desde lojas até restaurantes e bares, fechados para evitar aglomerações e a disseminação do coronavírus. A Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) aponta que, ao longo de 40 dias, o setor deve cortar 3 milhões de empregos em todo o País.



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'Como vou arrumar outro emprego nesta crise?'



Na fila para sacar benefício, autônomos e desempregados contam  drama da nova crise


Os efeitos do coronavírus na economia não estão apenas nas estatísticas e previsões catastróficas, mas em histórias reais de desempregados e autônomos, que sentiram na pele a atual crise provocada pela pandemia. Não é preciso ir longe para se deparar com o esse novo cenário. Na fila da Caixa Econômica Federal, na Receita Federal e na Agência do Trabalhador muitas tentativas frustadas de sair com uma resposta rápida para conseguir o benefício. Quando chegam nestes locais os cidadãos esbarram na burocracia e recebem avisos semelhantes: "baixe o aplicativo" ou "é só pela internet". 


Foi o caso Luís de Sousa que não conseguiu atendimento presencial na Receita, que atende aos questionamentos apenas por e-mail ou por agendamento. O CPF dele aparece como regular, mas o autônomo não conseguiu completar cadastro pelo aplicativo para sacar benefício de R$600,00 disponibilizado pelo Governo Federal e foi até a sede do órgão no centro da cidade. "Sou autônomo, mas desde que anunciaram estou com dificuldade para resolver isso. Aqui as coisas só funcionam pessoalmente, já pela  Internet nem adianta que não vai" reclama. Souza trabalha como pedreiro  e conta que ainda conseguiu fazer alguns poucos trabalhos, mas a renda caiu mais de 50% no último mês.  "A gente vai levando, vai faze o quê?"


Desempregado há seis anos, Moisés de Oliveira. 38 anos, diz que já tinha dificuldade de encontrar vaga com carteira assinada e teme ainda mais a crise. "Fazia uns bicos e contava com a ajuda da família. Esse benefício só vai ajudar para o básico, o essencial. Vou voltar para casa e tentar de novo pelo aplicativo." 


A crise tem peso também para quem tinha a segurança de um emprego fixo e viu a nova realidade atingir em cheio os planos familiares. É o caso da operadora de máquina, Simone Barbosa da Silva, 43 anos, que trabalhava há 13 anos numa empresa de Cambé (Região Metropolitana de Londrina) e diz que foi pega de surpresa. "Adiantaram as férias em 15 dias e pediram para descontar banco de horas. No retorno, chamaram todos no auditório da empresa e deram a notícia de uma vez só, alegando que por causa do coronavírus não teriam condições de manter os funcionários." Única da casa que tinha emprego em carteira, Simone se preocupa com o futuro .  "É uma situação muito crítica. Ainda mais agora como vou encontrar outro emprego nesta crise? Segundo ela, a empresa nem cogitou reduzir a jornada como alternativa à demissão. "E você me pergunta o que eu sinto? Que somos descartáveis, que não pensam nas famílias."



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