É pecado fazer promessa para o Brasil ganhar a Copa?

Padres explicam a importância de não futilizar a intercessão divina, sem deixar a rivalidade se tornar ódio; sacerdotes estrangeiros torcem pelo Brasil e seus países de nascença

Publicado domingo, 21 de junho de 2026 | Autor: Heloísa Gonçalves às 09:51 h

A Seleção Brasileira de Futebol está em busca do tão sonhado hexa, o sexto título da Copa do Mundo que pode acrescentar mais uma estrela ao uniforme e manter a hegemonia do Brasil, maior vencedor do campeonato. No momento de emoção em uma partida, é comum recorrer a orações e promessas, e até pedir o fracasso dos adversários. Fãs do esporte, padres explicam como não confundir a intercessão divina com superstição, e não deixar o supérfluo atrapalhar o que realmente importa: a fraternidade proporcionada pelo futebol. Sacerdotes estrangeiros dividem a torcida entre o país de nascença e o do coração.

Claudinei Ricardo Rosa chefia a Paróquia Nossa Senhora do Carmo, no Parque Ouro Branco (zona sul de Londrina). Desde criança, por influência de seus pais, acompanha o Corinthians. O padre contou que não é um torcedor roxo do Timão, gostando de assistir aos jogos quando a vantagem está ao lado da equipe, mas disse que “com a Seleção, é diferente”.

“A cada toque na bola, é o sangue da nação correndo na veia. O fato de você estar ali concentrado em uma confraternização, comendo carne, tomando uma cervejinha, é um momento de crescimento espiritual, de bem comum, em todo sentido”, afirma padre Claudinei.

Ele pontuou que o brasileiro torce com a “alma”, salientando a necessidade de não alimentar hostilidades contra os adversários. “O mais importante é ampliar a fraternidade, a equipe estar unida. Os papas falam da importância das amizades que nascem dentro do próprio futebol, que une os diferentes”. Ainda traçou uma comparação entre o esporte e o catolicismo, citando Jesus Cristo como técnico e os terrenos como atletas, que trabalham juntos para alcançar o céu.

Padre Claudinei Rosa acredita que atletas brasileiros teriam resultados melhores com foco no coletivo, e não em estar no "holofote central”
Padre Claudinei Rosa acredita que atletas brasileiros teriam resultados melhores com foco no coletivo, e não em estar no "holofote central” | Foto: Heloísa Gonçalves

O pároco segue receoso, mas otimista, quanto ao desempenho do Brasil na Copa do Mundo. Para ele, o time comandado por Carlo Ancelotti tem “potencial individual”, que poderia se traduzir em bons resultados para a equipe como um todo com maior organização, com os jogadores pensando na coletividade ao invés de almejar o “holofote central”.

Português na certidão, brasileiro no coração

Manuel Joaquim dos Santos, reitor do Seminário Teológico São Paulo VI (zona sul), tem o coração de torcedor dividido entre duas nações: o Brasil, onde mora há 38 anos, e Portugal, onde nasceu. Ele foi ordenado padre na Europa, mas se mudou para Londrina aos 25 anos para se dedicar ao sacerdócio. Quando criança e adolescente, torceu para o Sport Lisboa e Benfica. Já radicado na América Latina, se apaixonou pelo Palmeiras por conta do “verde esperança do uniforme”.

“Já tive situações hilárias de ser interrompido por alguém que foi contar o resultado do Palmeiras e, no meio da missa, eu falo para os paroquianos com um ar alegre que o Palmeiras virou ou marcou. É um riso geral. E cria sempre aquele dilema tremendo porque metade acaba sendo corinthiano ou de outro clube”, brincou o padre.

Padre Manuel enxergou o lado positivo de ambos - Brasil e Portugal - não terem iniciado a campanha da Copa do Mundo com o pé direito, empatando com Marrocos e a República Democrática do Congo, respectivamente. Lembrando que o adversário de seu país de nascença não competia há 52 anos, desde sua estreia em 1974, considerou que Portugal “foi um pouco humilhado”.

“Cristiano Ronaldo não brilhou como Messi, por exemplo, na Argentina. Eu estou falando para os seminaristas que quem sabe isso é um bom começo, para valorizar o time adversário e ter humildade. Até porque, filosoficamente, a derrota e a humilhação trazem mais sabedoria do que propriamente o sucesso e a vitória. Então quisera eu que tanto o Brasil quanto Portugal tirassem desses dois empates iniciais alguma coisa boa para o resto da Copa”, almejou.

‘Infantilização da religião’

Padre Manuel avaliou como essencial não tornar a reza em uma superstição em competições esportivas, sem pedir intercessão divina para algo supérfluo. “É um desastre utilizar a religião nesses momentos, porque é como se você colocasse Deus em uma situação constrangedora. Se você tem dois times, e os dois clamarem a Deus pela vitória, Ele fica numa situação dividida”, exemplificou.

Padre Manuel Joaquim diz que o ideal não é orar para que o oponente perca, mas para "que ninguém se machuque, que seja um bom espetáculo"
Padre Manuel Joaquim diz que o ideal não é orar para que o oponente perca, mas para "que ninguém se machuque, que seja um bom espetáculo" | Foto: Heloísa Gonçalves

O ideal não é orar para que o oponente perca, e sim, “para que ninguém se machuque, que o jogo decorra conforme as regras do futebol e que seja um bom espetáculo. Toda oração se submete ao Pai Nosso, não fala ‘Pai Meu contra Pai Teu’”. O padre não classifica o ato como pecado, somente como “um mau uso da verdadeira religião”, pontuando que existem pedidos mais nobres a serem feitos a Deus.

Disse ainda que, em uma eventual partida do Brasil contra Portugal, só irá saber para quem torcer na hora, “como o coração mandar”.

Leia mais:

Cuidados com promessas

Com bom humor e como palmeirense, o padre João Marcos Polak, missionário da Associação Evangelizar é Preciso, de Curitiba, completou dizendo que fica tentado a orar: “Senhor, abençoai o Palmeiras... e, se for da Vossa vontade... nem precisa abençoar o Corinthians hoje”, brinca. Mas logo ressalvou, pontuando que o correto seria pedir “um bom jogo, sem violência, com respeito entre os torcedores e que vença o melhor’. A rivalidade saudável faz parte da beleza do futebol. O problema é quando ela se transforma em ódio.”

O sacerdote também alertou para o cuidado com promessas feitas em troca de vitórias e títulos. “A promessa é uma prática séria da fé e deve estar ligada ao crescimento espiritual. Não deve ser vista como uma negociação com Deus. A verdadeira promessa deve nos aproximar mais de Deus e do próximo, independentemente do resultado de uma competição”.

Torcer na alegria e na tristeza

Enquanto padre Manuel sentiu seu país de origem humilhado pelo empate com a República Democrática do Congo, o congolês Augustin Mukamba ficou radiante. Naturalizado brasileiro e aqui desde 2011, ele chefia a Paróquia São Vicente Pallotti, em Cambé (Região Metropolitana de Londrina), e acompanhou a estreia trajado com uma camisa e pulseiras da nação africana. “É uma grande emoção, uma alegria saber que o Congo está lá depois de 50 anos e empatou com um dos melhores times da Copa”, celebrou.

O congolês Augustin Mukamba passou por cirurgia após se lesionar jogando futebol, mas continua se aventurando no esporte, já recuperado
O congolês Augustin Mukamba passou por cirurgia após se lesionar jogando futebol, mas continua se aventurando no esporte, já recuperado | Foto: Heloísa Gonçalves

Mukamba se diz realista quanto ao nível da Seleção, desejando que o país avance o máximo de fases possíveis com a torcida presente “na alegria e na tristeza”. O futebol é uma grande paixão para ele, que passou por cirurgia após uma lesão em campo há quatro anos, mas segue firme no esporte. Torcedor ávido do Palmeiras, era fã do Tout Puissant Mazembe quando ainda vivia na África Central.

Em caso de uma missa coincidir com o horário de um jogo do Brasil, contou que fará questão de adiantar a cerimônia. “O povo vai, reza e depois se diverte assistindo o jogo, também é importante”. O padre está torcendo para que não ocorra um embate direto entre o Congo e o Brasil, esperando um empate, ao menos. "Eu nasci no Congo, mas sou brasileiro, os dois países estão no meu coração. Eu prefiro que esse jogo não aconteça, porque o Congo ia levar uma surra”, riu Mukamba.

(Com Associação Evangelizar é Preciso)

Logo da Folha de Londrina
Heloísa Gonçalves

Heloísa Gonçalves

Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.

Repórter de Educação, Saúde e Cidades, com foco em políticas públicas e cotidiano.