O MPPR (Ministério Público do Paraná), por meio da 26ª Promotoria de Justiça de Londrina, instaurou um inquérito civil para investigar um suposto esquema de rachadinha no gabinete do vereador Valdir Santa Fé (PP), suspeito de ter repassado parte de seu salário e dos salários de três assessores a um empresário dono de uma loja de veículos, que também é investigado. O parlamentar, que está em seu primeiro mandato na CML (Câmara Municipal de Londrina), pode responder por ato de improbidade administrativa por enriquecimento ilícito.

O procedimento foi instaurado em novembro de 2025 pelo promotor Renato de Lima Castro, coordenador adjunto do Gepatria (Grupo Especializado na Proteção ao Patrimônio Público e no Combate à Improbidade Administrativa). Segundo a representação anônima recebida pelo MPPR, o empresário receberia, mensalmente, R$ 6 mil oriundos do gabinete do vereador, sendo R$ 3 mil supostamente repassados por Valdir e outros R$ 3 mil divididos entre três assessores.

De acordo com a investigação, a filha do empresário trabalhou no gabinete de Valdir Santa Fé em 2025, mas acabou sendo exonerada. Uma das provas citadas pela promotoria é a gravação de uma conversa entre a ex-assessora e seu pai, feita em meados de junho de 2025, na qual o homem dá detalhes de um suposto acordo com o vereador. 

Na conversa, pai e filha discutem um desentendimento da ex-assessora com um dos funcionários do gabinete de Valdir. O empresário fala abertamente sobre ser o “dono” do cargo na equipe do vereador do PP e alega ter investido na campanha de Valdir. Antes da filha, ele havia indicado a esposa, madrasta da ex-assessora, para trabalhar no gabinete.

“Eu coloquei dinheiro na campanha dele. Esse dinheiro não voltou para mim ainda. Vai passar alguns [anos], uns dois anos para voltar meu dinheiro. Eu tenho meu dinheiro de volta. Você não está entendendo. É coisa de homem, nós não temos contrato, não foi nada no cartório. É coisa de homem, na política tem acordo”, afirma o empresário, que constantemente diz que teria um “combinado” com o vereador.

De acordo com a Justiça Eleitoral, a campanha de Valdir Santa Fé recebeu pouco mais de R$ 56 mil em 2024. O empresário aparece na prestação de contas como um dos apoiadores, com valor estipulado em R$ 1,3 mil, que seria de um contrato de prestação de serviço. Segundo a investigação, contudo, ele teria repassado R$ 21 mil.

O empresário afirma na conversa que, com a filha ou outra pessoa no gabinete, iria receber os valores da mesma forma, pois o cargo seria seu. “Eu ganho R$ 3 mil que ele [Valdir] tem que me dar do salário dele, e tenho R$ 3 mil de três assessores”, continua. “Meu salário é R$ 6 mil.”

A jovem trabalhou no gabinete entre 5 de março e 17 de julho de 2025, com um salário bruto de R$ 4.458,59. Em depoimento ao promotor, ela disse que, do salário recebido como assessora, repassava cerca de R$ 800 ao pai por meio da chave Pix da esposa dele. O MPPR recebeu dois comprovantes de transferências feitas pela ex-assessora para a conta da madrasta, nos valores de R$ 781,39 e R$ 750,71.

Em outro trecho da conversa, o empresário diz que receberia os valores em espécie e que um dos assessores teria um “álibi” para fazer os pagamentos, pois teria comprado um veículo em sua loja. “Você, minha filha, por que que uma filha não pode dar dinheiro para um pai? E o pai não pode dar dinheiro para uma filha? Super normal, onde que está o crime nisso aí?”, questiona.

O empresário diz que era para ser o “chefe” no gabinete e que Valdir teria prometido essa vaga a ele. “Por isso ele me dá dinheiro por fora. Eu quero dinheiro por fora”, conta.

A FOLHA apurou que os assessores e o empresário citados no inquérito civil já prestaram depoimento ao MPPR e que o vereador também deverá ser ouvido.

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VALDIR NEGA

Em entrevista à FOLHA, o vereador Valdir Santa Fé afirmou que conhece o empresário e a esposa dele, que trabalharam na campanha de 2024, mas negou qualquer repasse de dinheiro feito por ele ou por assessores.

“Desconheço essa situação de rachadinha, isso tudo tem que ter provas concretas para falar da gente. Quem não deve, não teme. Eu não devo isso aí, e isso aí vai ter que provar”, disse o vereador, que tem conhecimento dos áudios presentes no inquérito e afirmou não ter recebido nenhuma doação do empresário.

“Ele me ajudou, sim, na campanha eleitoral, trabalhou como voluntário. Na nossa prestação de contas, está lá como voluntário, e estimado em valor dá R$ 1,3 mil, ele e a esposa dele [cada]. Está estimado, nem é em dinheiro, é em trabalho”, acrescentou.

Questionado sobre as afirmações do empresário, que disse ser “dono” do cargo no gabinete, Valdir afirmou que isso não procede. “Eu conversei com ele, e ele disse: ‘Eu fiz isso no intuito de ajudar a minha filha’”, revelou Valdir, que pontuou que a filha do empresário foi exonerada e que ele não possui nenhum indicado na equipe. “O gabinete é meu, e quem manda é o vereador.”

“Não tenho nenhuma dívida de campanha. Ele não me deu dinheiro. Se tivesse dado, estaria na prestação de contas”, reforçou o vereador. “Não tem áudio meu conversando com o empresário, com a filha dele. Então, é uma denúncia que não tem fundamento.”


Sobre as relações comerciais entre assessores e o empresário, como a compra de veículos, Valdir disse que se tratam de questões particulares. “Não sei o que cada assessor faz com a sua vida particular. Não tem como eu saber. O que eu sei é que um comprou carro, outro comprou também, e eles têm como provar com contrato.”

DEFESA DOS ASSESSORES

Em nota encaminhada à reportagem, a defesa dos assessores vinculados ao gabinete do vereador Valdir Santa Fé disse que teve acesso recente aos autos e que os envolvidos já prestaram esclarecimentos de forma “totalmente colaborativa”.

“Esclarece-se que eventuais relações financeiras mencionadas dizem respeito a vínculos de natureza estritamente privada entre particulares, sem qualquer relação com o exercício de cargo público ou com a atividade parlamentar”, afirma a defesa. “Os assessores permanecem à disposição para apresentação de documentos que eventualmente se mostrem pertinentes à elucidação dos fatos, no âmbito do procedimento em curso.”

A nota ainda sustenta que não houve qualquer prática de irregularidade, “tampouco existência de ‘rachadinha’ ou desvio de recursos públicos”.

DENÚNCIA

A investigação do suposto esquema de rachadinha no gabinete do vereador Valdir Santa Fé é a segunda conduzida pelo promotor Renato de Lima Castro envolvendo a atual legislatura da CML (Câmara Municipal de Londrina). A vereadora Anne Moraes (Avante) foi denunciada pelo MPPR por concussão, por supostamente ter exigido parte do salário de um assessor para pagar um advogado particular. O caso veio à tona após prints de conversas entre o ex-funcionário de Anne e um colega da CML chegarem à promotoria. A parlamentar nega as acusações.

Texto atualizado às 8h45 de 20/03/2026

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