Tony Garcia diz que atuou como espião para Moro por 14 anos
O senador e ex-juiz da Lava Jato nega as acusações e chama o ex-deputado de criminoso
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de fevereiro de 2026
O senador e ex-juiz da Lava Jato nega as acusações e chama o ex-deputado de criminoso

Curitiba - O ex-deputado estadual e empresário Tony Garcia disse que atuou como espião e informante de Sergio Moro durante 14 anos, entre 2004 e 2018, ano em que o juiz responsável pelos processos da operação Lava Jato deixou a Justiça Federal para ser ministro da Justiça no governo de Jair Bolsonaro (PL). Os depoimentos de Garcia ao Supremo Tribunal Federal (STF) resultaram na abertura de uma investigação, cuja última movimentação foi a operação de busca a apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba, em dezembro do ano passado.
Garcia teria feito essas revelações em 2021, ao prestar depoimento à juíza Gabriela Hardt, substituta de Moro na 13ª Vara. Ele reafirmou as declarações a partir de 2023, ao STF, que investiga as condutas adotadas na operação Lava Jato. O assunto voltou à tona no momento em que Moro lidera as pesquisas de intenção de voto para o governo do Estado. O senador do União Brasil nega as acusações. Enquanto Garcia diz que entregou uma série de provas ao STF, Moro diz que a investigação é baseada em relatos fantasiosos de um criminoso.
Tony Garcia foi preso em novembro de 2004, por ordem de Moro, acusado de gestão fraudulenta no Consórcio Nacional Garibaldi. Depois disso, teria sido ameaçado e usado pelo juiz e pelos membros da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal (MPF) para grampear pessoas e passar informações sobre suspeitos.
Leia mais:
"FESTA DA CUECA"
Um dos alvos seria o advogado de Curitiba Roberto Bertholdo, que teria boas relações no Tribunal Regional Federal da 4 Região (TRF-4) e foi preso em 2005, acusado de grampear Moro. Segundo Garcia, um sócio de Bertholdo gravou imagens de uma festa com desembargadores do TRF4 em um hotel de luxo em Curitiba, episódio que ficou conhecido como “festa da cueca”. O objetivo de Moro ao perseguir Bertholdo, diz o ex-deputado, era conseguir a gravação para pressionar os magistrados.
Em depoimento ao STF, Garcia relatou que fazia gravações de suspeitos e repassava números a agentes da PF, que grampearam vários celulares ao mesmo tempo. Ele disse ainda que podia solicitar grampos a Sergio Moro. Diálogos entre procuradores da Lava Jato trocados no aplicativo de mensagens Telegram, revelados pela Operação Spoofing, de 2019, mostram que os procuradores utilizaram “colaboradores” que faziam escutas.
Uma das gravações feitas por Tony Garcia, que circulou em 2019, mostra uma conversa dele com Beto Richa (PSDB), em que o então governador critica membros do Ministério Público do Paraná (MPPR). Richa seria um dos alvos da Lava Jato e foi preso na 58ª fase da operação, em janeiro de 2019. Em março, voltou a ser preso, mas em uma operação do Gaeco, do MP-PR.
"ATUEI COMO AGENTE"
À FOLHA nesta semana, Tony Garcia disse que Moro não tem ideia das provas apresentadas. “Ele (Moro) não sabe o que eu tenho e o que entreguei para a Polícia Federal. A busca e apreensão que a Polícia Federal fez na Vara deixou tudo esclarecido, não tem nada que eu falei que não estivesse lá”, afirmou. “Atuei (como agente de Moro) até 2018, até ele sair. Aí assumiu a Gabriela Hardt e ela quis quebrar meu acordo. Ela queria quebrar um acordo de colaboração premiada que transitou em julgado em 2006. Tudo isso ficaria encoberto para o resto da vida, com sigilo absoluto. Nada disso teria vindo à tona.”
Duas vezes candidato ao Senado, candidato a prefeito de Curitiba na década de 1990 e deputado estadual entre 1999 e 2003, Tony Garcia diz que acreditar que Moro e os ex-integrantes da operação Lava Jato serão presos. “Pelo que tem de prova de crimes continuados, eles vão ser condenados e presos. Foi a maior aberração jurídica que se fez na Justiça no país”.
"RELATOS FANTASIOSOS"
Em nota, Moro disse que a colaboração de Tony Garcia se limitou aos anos de 2004 e 2005 e chamou o ex-deputado de “criminoso condenado” – em junho de 2023, o ministro Dias Toffoli, do STF, suspendeu as ações que tramitar contra ele na 13ª Vara Federal de Curitiba. O senador negou que Garcia podia solicitar ou sugerir interceptações telefônicas.
“A investigação em curso no STF é baseada em relatos fantasiosos do criminoso condenado Tony Garcia. A colaboração deste criminoso com o Ministério Público e a Justiça Federal remonta aos anos de 2004 e 2005, tendo então se encerrado. Evidentemente, o colaborador nunca teve legitimidade para requerer perante o Juízo interceptação telefônica”, afirmou Sergio Moro. Em publicações nas redes sociais, o senador também negou que tenha investigado magistrados do TRF4 e chamou Tony Garcia de “notório mentiroso”.


José Marcos Lopes
Repórter colaborador baseado em Curitiba, com foco em política estadual.





