Paraná Esporte investiga entrega de kits por Boca Aberta Jr. às escolas


Guilherme Marconi - Grupo Folha
Guilherme Marconi - Grupo Folha

A Paraná Esporte, órgão vinculado à Seed (Secretaria da Educação e do Esporte) do Governo do Paraná, confirmou à FOLHA que apura suposta destinação indevida de kits de materiais esportivos para dois colégios estaduais de Londrina por meio de uma indicação parlamentar e com entrega feita em nome do deputado estadual Boca Aberta Junior (PROS). Segundo o protocolo da autarquia, os Colégios Ana Garcia Molina (zona leste) e Dr. Olavo Garcia Ferreira (zona oeste) deveriam receber kits completos de cinco modalidades: futsal, handebol, basquete, voleibol e futebol, com valor total de R$ 75 mil em mercadorias esportivas adquiridas pelo Estado. Entretanto, o quantitativo recebido pelas escolas não bate com material destinado pelo programa e entregue pela equipe de assessores do deputado. 


 

Entre bolas de futebol de campo da marca Penalty (adulto e infantil), os colégios deveriam ter recebido 38 unidades, mas só 15 foram entregues
Entre bolas de futebol de campo da marca Penalty (adulto e infantil), os colégios deveriam ter recebido 38 unidades, mas só 15 foram entregues | Gustavo Carneiro
 



Os kits de materiais esportivos são uma modalidade de fomento ao esporte nos municípios disponibilizada por meio do Plano Paraná Mais Cidades, do governo do Estado, e a indicação das instituições cabe aos deputados. Boca Aberta Junior afirma que partiu do gabinete a indicação dos colégios, mas nega desvio ou entrega de material faltante. Ele também relata que mesmo tendo prerrogativa para destinação, não pôde fazer a entrega pessoalmente em novembro do ano passado por conta do período eleitoral porque ele concorria como candidato a vice-prefeito de Londrina na chapa com seu pai, o deputado federal Boca Aberta (PROS). 


Ao todo, os kits descritos para destinação deveriam conter 764 itens como camisa, calção, pares de rede, bombas, apitos, bolas, separados para cada um das cinco modalidades. A FOLHA apurou que o memorial descritivo da Paraná Esporte não bate com o check list feito pela direção das escolas. Só de bolas de basquete as duas escolas deveriam ter recebido 32 ou 16 cada, mas na prática cada uma recebeu só seis bolas ou 20 unidades a menos. Das 25 bombas de encher descritas, apenas oito chegaram ao pátio do colégio Dr. Olavo e seis ao Ana Molina. 


 

"Recebi esse material, achando que seria um trabalho em prol da educação. Hoje eu analiso que a intenção era se promover"
Edineia Maturana, diretora
"Recebi esse material, achando que seria um trabalho em prol da educação. Hoje eu analiso que a intenção era se promover" Edineia Maturana, diretora | Gustavo Carneiro
 


Há outras divergências gritantes entre o que deveria ter sido entregue pelo programa, por intermédio do deputado. Entre bolas de futebol de campo da marca Penalty (adulto e infantil), os colégios deveriam ter recebido 38 unidades, mas só 15 estão nos depósitos das escolas guardadas à espera do retorno dos estudantes às aulas presenciais. De futsal adulto e infantil faltam 24 e de voleibol há divergência de três (veja gráfico). Já os kits de jogos de uniformes não constam no infográfico porque da forma que foi entregue, fracionado, nem a direção soube identificar ao certo a qual modalidade se referia, o que dificulta a conferência.  


A direção dos dois colégios chegou a assinar um documento com declaração de recebimento, mas o ofício passado pela assessoria do deputado com timbre da Paraná Esporte não detalhava o memorial descritivo de cada item pertencente a cada modalidade. As diretoras ouvidas pela reportagem relatam que o material não veio em caixas lacradas e como não tinham a descrição não conseguiram fazer uma conferência à época.


 

Paraná Esporte investiga entrega de kits por Boca Aberta Jr. às escolas
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VERSÕES

A diretora do Colégio Dr. Olavo Garcia Ferreira, Edineia Maturana, disse que o contato para receber o benefício partiu do gabinete do deputado estadual. "Em princípio não quis aceitar o material porque achei que era questão de política, mas depois não achei justo com as crianças tão carentes e pensei com calma e resolvemos aceitar esse benefício. Preenchemos o documento certinho e enviamos. Achamos muita coisa porque não estamos acostumados a receber tanto material", relatou a gestora da escola que fica no Conjunto Avelino Vieira. 


Segundo ela, se for concluído que houve um desvio na entrega de kits, o que prevalece é o sentimento de indignação. "Em princípio pensamos que o político nos procurou entendendo que somos uma escola de periferia e merecedora. Eu,  na boa fé, recebi esse material, achando que seria um trabalho em prol da educação. Hoje eu analiso que a intenção dele (deputado) era se promover. Como diretora há 15 anos e há 40 anos no magistério, eu digo que só estou aqui porque acredito de fato nessas crianças, no bem delas." 


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A diretora do Colégio Ana Garcia Molina, Aracelle Palma Favaro Motta, também confirmou à FOLHA que recebeu um documento genérico por parte dos assessores de Boca Aberta Junior. Segundo ela, o ofício só continha as seguintes informações: 1 kit de futsal, 1 kit de handebol, 1 kit de basquete, 1 kit de voleibol e 1 de futebol, sem elencar os itens previstos em cada modalidade. "Recebemos no ano passado e consideramos um bom volume de material porque continha material de cada modalidade, mas sem quantitativo, ficamos muito felizes à época", pontuou a gestora do colégio público da Vila Ricardo. 

A diretora  informou que só veio suspeitar da suposta divergência quando recebeu telefonema da Paraná Esporte solicitando o check list do que foi enviado pelo parlamentar. "Esse material estava guardado porque estamos sem aula presencial.  Eu, na boa fé, considerei importante aceitar. Contamos item por item e informamos à Paraná Esporte, mas não sei o que foi concluído." 


"Está tudo documentado em ofício", afirma deputado 

Procurado pela FOLHA nesta quarta-feira (21), o deputado estadual Boca Aberta Jr. negou em entrevista por telefone qualquer entrega de material faltando e que foi retirado na Superintendência da Paraná Esporte em Curitiba. "Foi entregue sim com todas as quantidades corretas, de forma criteriosa, está tudo documentado em ofício. Temos tudo isso documentado e assinado pelas diretoras, pela nossa equipe que tirou as fotos. Foi entregue mesmo, como discriminava o que foi passado pela Secretaria de Esportes." 


 

Deputado Estadual Boca Aberta Jr. refutou ainda hipótese de desvio por parte de gabinete dele
Deputado Estadual Boca Aberta Jr. refutou ainda hipótese de desvio por parte de gabinete dele | Dálie Felberg/Alep
 


O deputado estadual confirmou ainda que foi procurado pela Paraná Esporte para explicar como ocorreu a distribuição. "Na minha visão, está tendo uma confusão de informações entre as diretorias das escolas e a pasta. Eu não vi direito esse material, eu não contei esse material." Boca Aberta Junior refutou ainda hipótese de desvio por parte de gabinete dele. "Não tem como eu desmembrar esse material e distribuir com intuito eleitoral. O material é todo timbrado pela Secretária de Esportes." 


Ele também informou que não participou da entrega por conta do período das eleições municipais. "Como estávamos concorrendo na eleição municipal a gente não poderia fazer a distribuição, pois poderia caracterizar campanha antecipada. Isso poderia caracterizar até compra de voto por ser recurso público." 


SEED diz que tem 'rigoroso sistema de controle'

Por meio de nota a Superintendência da Paraná Esporte informou que "adota um rigoroso sistema de controle para as entregas dos materiais, realizadas em sua sede, em Curitiba. No ato, os materiais são conferidos, contabilizados e entregues com certificação de recebimento. Assim se deu com os kits destinados a esses colégios e a qualquer outra instituição beneficiada pelo programa." 

O comunicado completou que a situação da destinação indevida ou não desses materiais está sendo apurada. "Assim que for concluída, as medidas cabíveis serão tomadas. Importante ressaltar que, até o presente momento, não foram apurados todos os fatos, sendo imprescindível a manutenção do sigilo das informações, em especial do denunciante, para evitar que a apuração seja comprometida." 


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