Municípios da região apostam em fator político para reabrir comércio


Pedro Moraes - Grupo Folha
Pedro Moraes - Grupo Folha

Um dilema vem ocupando a mente dos governantes brasileiros durante a pandemia da Covid-19: como gerir a saúde e minimizar os impactos econômicos. Desde o presidente da República até os prefeitos de pequenos municípios, todos vêm tentando se equilibrar entre as duas questões. De forma geral, especialistas de todo o mundo apontam que quanto menos durar a crise na saúde, menores serão os danos socioeconômicos, mas a pressão aqui nas cidades da região tem levado à abertura do comércio, o que pode vir a comprometer a capacidade de atendimento de alta complexidade em Londrina.


O prefeito de Ibiporã, João Coloniezi (MDB), determinou a reabertura do comércio atendendo aos representantes do setor, mas decisão foi derrubada ontem pelo Ministério Público
O prefeito de Ibiporã, João Coloniezi (MDB), determinou a reabertura do comércio atendendo aos representantes do setor, mas decisão foi derrubada ontem pelo Ministério Público | Gustavo Carneiro/5-2-2020
 


Em Ibiporã, a canetada do prefeito João Coloniezi (MBD) foi derrubada nesta terça-feira pelo Ministério Público. Com preocupação de dar uma saída aos lojistas locais, acabou que a decisão provocou um resultado contrário. “As pessoas se aglomeraram, aliás não deixaram de sair às ruas. Isso me motivou a tomar a decisão, mas se dependesse de mim continuaria com o comércio aberto, mas não vou contrariar porque não tenho uma análise técnica para isso”, afirmou Coloniezi à FOLHA. A cidade tem sete leitos com respiradores, mas nenhum de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).




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A falta de critérios técnicos vem sendo um padrão nas cidades onde a decisão de abrandar o rigor do isolamento foi tomada. Em Jaguapitã, a reabertura das lojas foi decidida mesmo com discordância do prefeito Ciro Silva (PSDB) e do secretário de Saúde. “Fomos voto vencido no comitê que toma as decisões em relação ao coronavírus. A abertura foi decidida, mas deverão ser tomadas as devidas medidas de segurança com a saúde”, avaliou Cláudio Miguel Pereira, o secretário da pasta há 12 anos. A cidade não teve casos registrados, mas avalia mais de 100 suspeitos. Com aproximadamente 14 mil habitantes, a rede local conta com apenas 27 leitos simples, não tem UTI. Também não tem acesso a testes da doença, dependendo da análise dos laboratórios do estado.


Ao longo da crise, os prefeitos da região se reúnem como parte da Amepar (Associação dos Municípios do Médio Paranapanema), presidida por Sérgio Onofre (PSC), chefe do executivo de Arapongas. No encontro na quinta-feira (30), o grupo havia decidido manter regras rígidas de isolamento, mas o entendimento individualmente mudou. “Quem está abrindo faz isso seguindo critérios políticos, tecnicamente não dá para abrir. Devem estar com medo das associações comerciais, mas é hora de pensar em responsabilidade com a saúde”, afirma Onofre, que liberou os comerciantes a atenderem em esquema reduzido, nas portas das lojas, um cliente por vez. “Acabou que muitos não entenderam e tive que mandar fechar. Se um funcionário tiver a doença, vou ter que acabar lacrando o estabelecimento. Não era para precisarmos de decreto. Deveria valer o bom senso”, critica. A cidade conta com 87 respiradores no Hospital Regional João de Freitas e registra oito casos da doença.


ESTRUTURA

A 17ª Regional de Saúde do Estado, com sede em Londrina, responde pelo atendimento de 21 municípios da região e terá a função de atender uma possível expansão de casos. A FOLHA cobrou da Sesa (Secretaria Estadual de Saúde do Paraná) o tamanho da estrutura para a virose na região, mas até o fechamento desta edição não teve resposta. Há uma estimativa que em todo o estado haja 3.784 respiradores. Mesmo assim, é conhecida a insuficiência do setor no Brasil e da incapacidade que até mesmo países ricos têm de enfrentar o chamado pico de infecção. Londrina neste cenário seria afetada. A FOLHA procurou o prefeito Marcelo Belinati (PP) para falar sobre a ação dos municípios da região, mas ele preferiu não se pronunciar.


O deputado estadual Dr. Batista (PMN), presidente da Comissão de Saúde Pública da AL (Assembleia Legislativa do Paraná), que é médico, vê com preocupação as medidas das cidades que descumprem normas internacionais, nacionais e contrariam o decreto do governo do Estado. “Está programado que o pico de infecção ocorra em 15 de maio. É preciso um pouco de paciência, não queremos o pior para a nossa sociedade. Sei o quanto está difícil e é complicado lidar com esse novo ritmo, mas essa não é uma gripezinha. É vinte vezes pior e tendemos a achar que nunca vai pegar a família da gente”, concluiu o parlamentar. 


REAÇÃO

O MPPR (Ministério Público do Paraná) vem atuando para conter as medidas de reabertura de atividades que impõem risco ao isolamento social. Em nota do órgão, o Procurador-Geral de Justiça, Ivonei Sfoggia, afirmou que “acompanha a edição de atos administrativos, principalmente os de caráter normativo, fiscalizando para que estejam devidamente fundamentados, com base em prévia manifestação da autoridade pública sanitária competente, expressando as evidências epidemiológicas que os justifiquem”.






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