Brasília - A participação do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na audiência pública realizada na última terça-feira (7) pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) transformou um debate comercial técnico em um palco de forte disputa política. O evento buscou analisar a proposta do governo americano de impor uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros.

De acordo com informações do G1, o parlamentar discursou por cerca de cinco minutos após se inscrever formalmente de forma independente — sem vínculos com a comitiva oficial do Itamaraty, que enviou apenas observadores para acompanhar a sessão. Flávio compareceu à audiência acompanhado de seu irmão, Eduardo Bolsonaro.

Em sua fala, o senador afirmou que o período pré-eleitoral no Brasil é o "pior momento possível" para a aplicação de novas tarifas, argumentando que a punição econômica ao país acabaria gerando um efeito reverso e "beneficiaria o presidente Lula" politicamente. Ele defendeu ainda o funcionamento do Pix e criticou a atual gestão federal.

"Cada tarifa adicional está beneficiando o governo que supostamente se pretende pressionar", afirmou Flávio diante de um painel de autoridades governamentais.

"Peço respeitosamente a este comitê que não imponha tarifas ao Brasil", concluiu Flávio Bolsonaro, segundo relato da Agência France Presse

As exportações de bens dos Estados Unidos para o Brasil em 2025 alcançaram 54,4 bilhões de dólares, em comparação com quase 40 bilhões de dólares em importações, segundo dados do USTR

A investigação do USTR sobre o Brasil concentra-se no comércio digital e nos serviços bancários, no combate à corrupção, na proteção da propriedade intelectual, no acesso ao mercado de etanol e nas consequências do desmatamento ilegal.

Funcionários do governo brasileiro se reuniram na manhã de terça-feira com técnicos do USTR para tentar reverter as sobretaxas, informou Brasília.

O presidente Lula criticou na semana passada Flávio Bolsonaro, que pediu para intervir junto ao USTR justamente no dia em que se encerrava o prazo para apresentação de solicitações.

"Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria", publicou Lula no X na quinta-feira.

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CONSTRANGIMENTO

Além do teor do pronunciamento, a postura logística da comitiva do senador também gerou ruídos nos bastidores.

Segundo relatou a Band News, a participação de Flávio Bolsonaro causou desconforto antes mesmo do início de sua fala. Em entrevista à emissora, o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Gustavo Pessoa, que acompanhou a sessão presencialmente, relatou que o parlamentar brasileiro chegou atrasado ao local, provocando o adiamento do início dos trabalhos da comissão. Conforme o relato, o episódio alterou o clima da audiência e gerou constrangimento entre os participantes.

REAÇÃO DE EMPRESÁRIOS

A estratégia adotada pelo senador repercutiu mal em parte do empresariado brasileiro que atua diretamente nas negociações comerciais e tenta blindar as exportações nacionais.

Conforme reportado pela CNN Brasil, integrantes do setor produtivo criticaram a postura de Flávio Bolsonaro, avaliando que ele perdeu a oportunidade de fazer uma defesa estritamente institucional e técnica. Para esses representantes, o tom excessivamente político e voltado para a própria base eleitoral acabou ofuscando os argumentos econômicos complexos — como o impacto nas cadeias globais de valor e o prejuízo direto aos consumidores americanos — que as empresas vinham construindo. Interlocutores relataram reservadamente que o senador "pregou para convertidos".

Por outro lado, as queixas do setor privado não significam um alinhamento com a atual gestão federal. Empresários também manifestaram insatisfação com o governo brasileiro, acusando o Palácio do Planalto de deixar o setor produtivo isolado na tentativa de reverter o "tarifaço", classificando a presença de meros observadores da embaixada em Washington como insuficiente.

Em contrapartida, conforme o portal Congresso em Foco, Flávio Bolsonaro declarou em transmissão ao vivo estar satisfeito com o resultado e reiterou que sua articulação política direta com aliados do governo americano é a "única chance" real de evitar a sobretaxa de 25%, alegando que o desfecho final da investigação dependerá de uma decisão política da Casa Branca.

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