Desemprego cai, mas emprego perde força como capital político
Mudanças no trabalho, pejotização e custo de vida ajudam a explicar por que bons indicadores rendem menos dividendos eleitorais
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segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Mudanças no trabalho, pejotização e custo de vida ajudam a explicar por que bons indicadores rendem menos dividendos eleitorais

O Brasil chega à eleição presidencial com um cenário no mercado de trabalho que, em outros momentos da história recente, poderia ser apresentado como um dos principais trunfos de um governo. A taxa de desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho, o menor resultado para o período desde o início da série histórica da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), em 2012. São 5,8 milhões de pessoas à procura de trabalho, enquanto a população ocupada chegou a 103,3 milhões, também um recorde.
Os números do emprego formal seguem na mesma direção. De janeiro a julho deste ano, o país criou 972,2 mil postos formais, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Somente em julho, o saldo foi positivo em 58,6 mil vagas, levando o estoque a mais de 48 milhões de vínculos formais.
Apesar disso, o emprego não parece ocupar o centro das preocupações do eleitor nem representar, neste momento, um “capital político” proporcional ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição para um quarto mandato. Pesquisa PoderData/Aya divulgada na quinta-feira (27) apontou emprego e renda apenas como a sexta prioridade para o próximo presidente, citada por 11% dos entrevistados. Educação liderou, com 20%, seguida por saúde e segurança pública, com 18% cada, e inflação/custo de vida e combate à corrupção, ambos com 12%.
Um levantamento do Datafolha divulgado em maio apresentou resultado semelhante, com apenas 6% dos entrevistados apontando o combate ao desemprego como prioridade do próximo presidente, atrás de saúde, educação, segurança pública, economia, combate à fome e corrupção. Ao mesmo tempo, 10% citaram justamente o combate ao desemprego entre as áreas em que o governo Lula se saiu melhor, sinal de que o reconhecimento do resultado não necessariamente se traduz na mesma prioridade eleitoral.
Os dados expõem um aparente paradoxo: por que um resultado que já foi símbolo de prosperidade e mobilidade social parece ter hoje menor capacidade de gerar capital político?
Excesso de vagas
Para Elve Cenci, analista político e professor de Ética e Filosofia Política da UEL (Universidade Estadual de Londrina), uma das respostas pode estar justamente na abundância de vagas. Em um período de mercado aquecido, o trabalhador passa a ter menos receio de perder uma colocação porque acredita que rapidamente encontrará outra.
“Alguns setores, como o de supermercados, que funcionam aos domingos, têm enorme dificuldade em encontrar trabalhadores. Portanto, a percepção do trabalhador é a de que o emprego estará disponível independentemente do governo”, pontua Cenci.
O analista também chama a atenção para os baixos salários pagos no país. A despeito da importância da valorização do salário mínimo, avalia, a remuneração reduzida pode fazer com que as garantias do emprego formal deixem de ser vistas como uma vantagem tão significativa em relação a outras formas de ocupação.
“As novas tecnologias e a criação de aplicativos fizeram com que muitos trabalhadores passassem a atuar por conta própria, especialmente nos setores de alimentos e transporte. Muitos deles têm a percepção de que não têm chefe nem horário fixo, o que não é exatamente verdade", destaca Cenci.
"Além disso, há um discurso muito forte sobre empreendedorismo que faria com que o desemprego, seja ele alto ou baixo, não interferisse na dinâmica dessas categorias. Porém, isso é uma ilusão”, acrescenta o analista político. “O aumento do desemprego eleva a concorrência entre os trabalhadores desses setores, que deixam o mercado formal para ingressar no informal, e reduz a renda dos consumidores de aplicativos.”
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Normalização
O economista Emerson Esteves também reconhece uma mudança na relação com o trabalho nos últimos anos, de modo que a simples criação do emprego formal deixou de ser garantia de bem-estar. Para ele, quando o desemprego permanece baixo por um período prolongado, estar empregado tende a ser incorporado à normalidade, enquanto outros elementos da vida econômica ganham peso.
“A renda real do trabalhador e o custo de vida alto fazem com que ele não tenha uma percepção de que a vida dele melhorou. Como está há muito tempo com desemprego baixo, estar empregado passa a ser normal. É a normalização”, afirma o especialista. Esteves acrescenta que a precarização de parte das ocupações, o custo do crédito e o endividamento das famílias reduzem o efeito positivo do baixo desemprego sobre a sensação de bem-estar.
Na avaliação de Esteves, o emprego passou a funcionar como um mecanismo de assimetria entre punição e recompensa. “O desemprego alto é um vetor ativo de rejeição. A perda do emprego ou a ameaça de se perder o emprego gera uma ansiedade e uma perda do poder de compra”, explica. Já o desemprego baixo tende a se transformar em um cenário básico. “O emprego está garantido. Vamos discutir, então, a inflação, vamos discutir a renda e a segurança.”
Condições de trabalho
O economista e supervisor técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) no Paraná, Sandro Silva, avalia que as mudanças no mercado de trabalho, com o avanço das plataformas digitais, da pejotização e de outras formas de ocupação, também alteraram a relação das novas gerações com o emprego.
“A gente valorizava muito a carteira de trabalho, você ter um emprego e permanecer no emprego por longos períodos. Hoje, o jovem não faz muita questão disso. Às vezes, ele valoriza mais ter uma condição de trabalho melhor, a questão da localização, do tempo que vai perder em deslocamento. Tudo isso, de certa forma, influencia como você vê o mercado de trabalho”, afirma.
Apesar da recuperação do emprego e da renda nos últimos anos, o economista do Dieese destaca que o mercado de trabalho ainda apresenta problemas de qualidade, com avanço da pejotização, presença elevada do trabalho por conta própria e salários baixos. Na Pnad Contínua mais recente, 26,1 milhões de pessoas trabalhavam por conta própria, praticamente um quarto dos 103,3 milhões de ocupados no país.
Ele afirma ainda que nem sempre o trabalhador associa a própria situação profissional à conjuntura econômica. Uma pessoa pode interpretar o emprego como consequência apenas da qualificação e do esforço individual, mesmo quando a existência de mais oportunidades também decorre de um mercado aquecido.
Silva acrescenta que fatores não econômicos também passaram a disputar espaço na decisão eleitoral. “Às vezes, as pessoas valorizam mais a questão religiosa, a questão de gênero, do que aquilo que atinge diretamente a vida delas”, afirma. “Às vezes, as pessoas valorizam mais essas questões subjetivas do que questões práticas, como você ter bons serviços públicos, ter crescimento econômico, uma ampliação dos investimentos públicos que geram renda e melhoria da qualidade de vida das pessoas.”
Custo da alimentação
Outro aspecto que influencia a percepção sobre a economia é o custo da alimentação, com impacto maior sobre os orçamentos mais apertados. Estudo divulgado pela FGV (Fundação Getulio Vargas) aponta que a alimentação passou de 18,9% do orçamento das famílias com renda mensal entre um e 1,5 salário mínimo, em janeiro de 2019, para 22,2% em janeiro de 2026.
“A comida ficou mais cara no mundo. Hoje, o setor de alimentos consome uma parcela significativa da renda das pessoas em todo o mundo. Por ser um grande produtor de alimentos, o Brasil ainda consegue amortizar esse custo. E esse aumento veio para ficar. A percepção de que os supermercados consomem a renda das pessoas torna a aprovação de qualquer governo mais complicada”, ressalta o analista político Elve Cenci.
O economista Sandro Silva também relaciona a inflação dos alimentos à forma como as famílias avaliam a economia. “A alimentação subiu muito mais do que a média. E isso pesa para a maioria da população. Então, apesar de a inflação estar baixa, você tem esse acumulado que subiu muito lá atrás”, afirma.
Silva lembra ainda que os juros elevados aumentam o custo do dinheiro e pesam principalmente sobre famílias endividadas. “São vários fatores que interferem nessa visão das pessoas. Olhando tudo isso, desse ponto de vista, o mercado de trabalho, a questão do emprego, perdeu importância para as pessoas”, acrescenta.
Ele aponta ainda que conquistas incorporadas ao cotidiano tendem a perder visibilidade. O trabalhador que ingressa hoje no mercado encontra direitos como 13º salário, férias e FGTS já estabelecidos e não viveu o período em que essas garantias estavam em disputa.


Douglas Kuspiosz
Repórter com foco em Política e Cidades.





