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Londrina

Opinião 5m de leitura Atualizado em 16/11/2021, 19:37

ESPAÇO ABERTO - O rigor nos mapas das terras do Norte

PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Humberto Yamaki
AUTOR autor do artigo

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Imagem ilustrativa da imagem ESPAÇO ABERTO - O rigor nos mapas das terras do Norte
|  Foto: Roberto Custódio/16/09/2020
 

Um mapa de poucas linhas denominado “Limites de propriedades não desbravadas no Estado do Paraná, fronteira com São Paulo. Escala 1: 250 000” , ilustra o livro Pioneiros e Fazendeiros do Estado de São Paulo (Monbeig, 1952). Apresenta cinco retângulos, limites de terras de concessão nas margens do rio Paranapanema.

Lembro pronto de uma fábula de Jorge Luis Borges em “O Rigor da Ciência (1946)”. 

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“Naquele Império, a arte da cartografia alcançou tal perfeição que o mapa de uma única província ocupava uma cidade inteira, e o mapa do império uma província inteira. Com o tempo, estes mapas desmesurados não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um mapa do império que tinha o tamanho do império e coincidia com ele ponto a ponto. Menos entusiastas ao estudo da cartografia, as gerações seguintes decidiram que esse dilatado mapa era inútil e, não sem piedade, entregaram-no às inclemências do sol e dos invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas, ruínas do mapa habitadas por animais e por mendigos; em todo o país não há outra relíquia das disciplinas geográficas.”

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Monbeig elaborou um mapa que é cópia simplificada. Tem como base a “Concessão de Terras para colonisação à margem do rio Paranapanema. Escala 1:750 000” (1925), da Diretoria de Viação de Obras e Colonização PR.

No capitulo sobre Planos de Colonização, Monbeig observa diferentes formas de delimitação de glebas em São Paulo e Paraná. Em São Paulo, os limites obedecem as fronteiras naturais. No Paraná, a “geometria radical de linhas perpendiculares ao rio, mas correndo retos para o interior, subindo pelos vales dos afluentes e pelas escarpas dos espigões”. Segundo explicação  de Artur Thomas, diretor da CTNP : “The reason for the straightline boundaries was the lack of surveys”. (A razão para as linhas retas nos limites era a falta de levantamento).

O Norte do Paraná era considerado terra de “grileiros e barões”. Uma zona de litígio. Delimitar as terras devolutas de concessão em linhas retas e ribeirões era um método prático. Seguia a tradição da Lei de Terras (1860) que definia: “A medição e divisão serão feitas... por linhas que corram de norte ao sul... e por outras que as correm em ângulos rectos.”

Ainda no livro, Monbeig cita o “Mappa de Viação do Estado do Paraná, com Indicação de suas zonas colonisadas, 1925, Escala 1: 750 000”. Cita mas não apresenta a figura. Esse mapa traria demarcado as terras de concessão, e, o mais importante, o traçado da Estrada de Ferro Central do Paraná EFCP ajustado para a Companhia de Terras Norte do Paraná CTNP.

Num Relatório de Governo de 1925 consta que a concessionária da EFCP era a Companhia Marcondes de Colonização, Indústria e Commercio de São Paulo desde 1922. O termo lavrado em 16 de Outubro de 1925 passou o contrato da ferrovia para a CTNP, com “supressão de algumas cláusulas e modificação de outras, tendo como resultado uma alteração do traçado primitivo”. A Linha Tronco partia de Carambehy e seguia até a cabeceira do rio Pirapó. Possuía quatro ramais (Yamaki, 2017).

Ao não desvendar, intencionalmente ou não, a EFCP ajustada presente no Mappa de Viação (1925), Monbeig reproduz o discurso predominante da CTNP. Relaciona o empreendimento com a ferrovia EFSPP (1928) estendida a partir de Cambará. Aponta ainda, inadvertidamente que, na Carta da Seção de Engenharia CTNP (1939) “figura o mesmo traçado” do Mappa de Viação (1925).  

Finalmente, os mapas simples nas margens do Paranapanema condensam estratégias e significados.  O ramal 2 da EFCP ajustada ligava o Paranapanema ao Ivaí. Uma longa avenida reta, com 2% de declividade de ferrovia, corta Londrina de Norte a Sul. Poucos estão dispostos a decifrar as linhas de paisagem.

Quase cem anos depois, perduram nos “desertos das Terras do Norte”, o silencio sobre a Estrada de Ferro Central do Paraná.

Humberto Yamaki, coordenador do LabPaisagem UEL

A opinião do autor não reflete, necessariamente, a opinião da Folha de Londrina 

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