No início de 2025, o governo do Estado de São Paulo sancionou a Lei nº 18.058/2024, proibindo o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos conectados à internet durante toda a permanência dos alunos nas escolas públicas e privadas. A medida, que já está em vigor, visa conter os impactos negativos do uso excessivo de tecnologia em sala de aula, mas vai além: alcança também os recreios e momentos de intervalo. Essa nova diretriz reflete uma preocupação cada vez mais presente nas escolas, nos lares e entre especialistas em educação sobre como as redes sociais têm influenciado os hábitos de leitura e de escrita dos jovens.

Por um lado, é inegável que o uso contínuo das redes sociais alterou a forma como os adolescentes se comunicam, leem e escrevem. A escrita digital, caracterizada por abreviações, emojis e frases curtas, domina os ambientes virtuais e acaba se infiltrando no cotidiano escolar. Muitos professores relatam dificuldades dos alunos em redigir textos coesos, interpretar enunciados mais longos ou manter a concentração em leituras mais densas. A leitura, nesses contextos, tende a ser fragmentada, voltada à manchetes, legendas e trechos curtos, uma consequência direta da lógica das redes, que estimula o consumo rápido e superficial da informação.

Por outro lado, é justamente nas redes sociais que surgem movimentos de incentivo à leitura e à produção textual, com linguagens que os jovens dominam e apreciam. As plataformas digitais têm sido palco de fenômenos como os "booktoks", vídeos curtos com resenhas de livros no TikTok, ou os "bookgrams", perfis no Instagram dedicados à literatura. Essas iniciativas criam comunidades de leitores e têm motivado muitos jovens a se interessarem por títulos contemporâneos ou clássicos. Há adolescentes que compram livros por indicação de influenciadores, participam de clubes de leitura online e comentam suas leituras com entusiasmo. Isso mostra que a relação entre juventude, leitura e redes sociais é mais complexa do que aparenta.

Proibir o uso de celulares por completo pode ser um passo necessário em alguns contextos, sobretudo para garantir momentos de concentração, interação face a face e foco nos estudos. No entanto, afastar totalmente os estudantes da tecnologia pode ser um movimento contraproducente. A escola, como espaço de formação ampla, também precisa assumir o papel de orientar os alunos no uso crítico, ético e produtivo das ferramentas digitais. Isso envolve desenvolver, nos docentes, a capacidade de ler nas entrelinhas das práticas juvenis, entendendo os modos como esses jovens significam o mundo (por meio de vídeos, memes, comentários e curtidas) e de transpor essa demanda para propostas pedagógicas que aliem criatividade e criticidade.

Há escolas que, ao invés de simplesmente vedarem, propõem alternativas significativas: criam oficinas de leitura e escrita digital, projetos de produção de conteúdo ou incentivam que os próprios alunos analisem o funcionamento dos textos que consomem na internet. Essa abordagem integrada pode ajudar a desenvolver habilidades linguísticas importantes, sem perder de vista a linguagem em uso.

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A chave está no equilíbrio. O desafio contemporâneo não é escolher entre o “livro de papel” e o “feed digital”, mas ensinar nossos jovens a transitarem com autonomia e consciência entre diferentes linguagens, a lerem com profundidade tanto um poema quanto uma thread no X, e a escreverem com clareza tanto uma redação quanto uma legenda de impacto. Para isso, os professores necessitam de formação contínua, apoio institucional e liberdade pedagógica. E a escola precisa reafirmar seu compromisso de formar leitores e escritores do presente, com olhos atentos às mudanças, mas sem perder a dimensão ética e reflexiva do ato de ler e de escrever.

Camila Marson, professora do Centro de Comunicação e Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie

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