'Só vivia com fome', conta sobrevivente da bomba atômica
Ataques aéreos em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, completam 80 anos; sobreviventes que buscaram refúgio no Brasil relembram as dificuldades
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sábado, 09 de agosto de 2025
Ataques aéreos em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, completam 80 anos; sobreviventes que buscaram refúgio no Brasil relembram as dificuldades

Há 80 anos, em 9 de agosto de 1945, o Japão chorava o destino dos milhares de nativos mortos em Nagasaki, no sudoeste do país, pelo impacto, radiação e queimaduras causadas pela segunda bomba atômica - "Fat Man" - lançada pelos Estados Unidos.
Iso Eguti carregava a filha, Mitsue Okada, nos ombros enquanto voltavam da Prefeitura, onde tinham ido buscar mantimentos. Elas passavam por uma serralheria quando sentiram o choque da bomba no chão e madeiras caíram sobre a menina, que tinha apenas dois anos de idade, mas não se feriu. Seguindo o trajeto na rua, Eguti viu o corpo carbonizado de vizinhos.
A mãe de criação de Mitsue, Sumi Hasegawa, estava na casa da irmã, que teve o teto arrancado com o impacto do ataque. “Para ir embora precisava atravessar a cidade inteira, aí todo mundo pedindo água, correndo para dentro de buraco, pessoas queimadas e doendo”, contou Mitsue, que hoje mora em Londrina e tem 82 anos.
Três dias antes, 6, moradores de Hiroshima, no oeste, viram uma "intensa bola de fogo" no céu, após o avião americano Enola Gay soltar a bomba "Little Boy" sobre a cidade. O império japonês se rendeu no dia 15 e, no total, 214 mil vidas foram findadas por conta dos ataques aéreos entre agosto e o final de 1945, ano em que a Segunda Guerra Mundial terminou.

MORTE E DESTRUIÇÃO
Até hoje, os bombardeios aos municípios foram o único uso de armas atômicas em tempos de guerra. Análises calculam que no epicentro da bomba de Hiroshima, que levou a 140 mil óbitos, a temperatura atingiu 7.000°C. Um forno que provocou queimaduras graves e até fatais em um raio de quase três quilômetros.
O intenso clarão das explosões também causou cegueira temporária e lesões oculares irreversíveis, segundo o CICV (Comitê Internacional da Cruz Vermelha). Muitos morreram ou ficaram gravemente feridos pelos destroços que foram lançados na explosão, outros pelo desabamento de edifícios ou quando foram arremessados pelo ar.
A radiação térmica que se seguiu às explosões em uma fração de segundo provocou incêndios que devastaram grandes extensões de Hiroshima e Nagasaki, município que perdeu 74 mil pessoas. Nociva, a "doença da radiação" afetou muitos dos que sobreviveram à destruição imediata nas cidades, com vômitos, dores de cabeça, diarreias, hemorragias, queda de cabelo e até a morte. Os sobreviventes, conhecidos como "hibakusha", ficaram expostos durante o resto de suas vidas a um risco mais elevado de desenvolver certos tipos de câncer.

'MUITO DOLORIDO'
Sumi Hasegawa, mãe de criação de Mitsue, foi exposta a radiação enquanto retornava para casa, sendo que passou mal e teve que ir ao médico. Mitsue também foi afetada e ficou em estado de choque, “magrinha” por não ter forças para comer, mas ambas foram curadas e não tiveram sequelas. Os primos da bebê, um menino e uma menina, “choraram a noite inteira porque queriam água, mas não era torneira, era poço, e entrou radiação lá. No outro dia eles morreram”, informou.
A família alugou um pedaço de terra para seu sustento, para plantar verdura, batata doce e soja. Arroz era cozido junto destes alimentos, “para aumentar e não passar fome”. Mitsue contou que seus familiares nunca esqueceram do ocorrido, mas que evitavam falar sobre o assunto porque era muito dolorido.

NOVA CHANCE
Em 1957, surgiu a oportunidade de mudança ao Brasil, por meio de uma viagem de 45 dias em navio. Aos 13 anos, Mitsue veio acompanhada de Sumi, Isamu, seu irmão mais velho, e Junichi, outro irmão. O pai, Kintaro, “ficou para trás” fazendo tratamento para pneumonia. A esperança é que ele se recuperasse e viesse de encontro com a família, mas faleceu no Japão antes que pudesse se tornar realidade.
A mãe e as crianças se instalaram temporariamente na casa do tio de Mitsue em Cornélio Procópio, Norte Pioneiro, até a mudança vinda no navio chegar de Santos, e começaram a trabalhar na lavoura de café. Mesmo com a exposição a radiação, mãe e filha permaneceram saudáveis no Brasil, com Sumi vindo a falecer 25 anos depois da mudança.
Aos 25 anos, Mitsue se casou e se mudou para Londrina, porque seu marido “não parava quieto”. Ela retornou cinco vezes ao Japão ao longo da vida, tendo reencontrado a irmã mais nova, que nasceu e nunca saiu do país, pela primeira vez em 70 anos em 2024. Com o reencontro, descobriu onde sua mãe “verdadeira”, Iso Eguti, estava enterrada, e visitou o bairro em que morava em Nagasaki.

'VIU O SOL ESTOURAR'
Noriko Ito, cabeleireira que mora no centro de Londrina, nasceu no Japão em 1944, um ano antes do lançamento das bombas. Filha do meio de mais cinco irmãos, vivia no sítio na cidade portuária de Sasebo, província de Nagasaki.
Há exatamente 80 anos, seu irmão mais velho, que tinha 10 anos na época, “viu o Sol estourar”. Em entrevista para a FOLHA em 2005, no 60º aniversário dos ataques aéreos, Uzuhisa Myazaki contou que observou de longe o ''cogumelo” no céu, e que sua família não sofreu sequelas pela distância de pouco mais de 10 quilômetros com o município alvo.
Seu pai, Kyoichi, vinha de uma família de sacerdotes budistas e era pastor xintoísta, mas foi obrigado a se alistar e trabalhar como enfermeiro na Marinha japonesa. A mãe, Kesa, vinha de uma família de posses e era “dondoquinha”, contou Noriko, e sofreu muito com a humilhação sofrida durante a guerra.
“Ninguém queria ir à igreja por causa do desespero de ter que comer. Não tinha folga para ninguém, meu pai teve que abandonar por falta de pessoal. Minha mãe tinha muitos kimonos, vestimentas muito chiques, e teve que ir vender nas casas de lavoura em troca de comida, mas não queriam dar nem uma batata em troca”, relembrou a filha, contando que era comum a prática do escambo por comida.
UMA REFEIÇÃO POR DIA
Ito, que tem 81 anos, relembrou que o sentimento comum no país era de ódio e sofrimento, “simplesmente desespero”. Contou que todos estavam na mesma situação, sem emprego ou dinheiro. Disse ainda que o governo distribuía alimentos em quantidades já determinadas, e que o último recurso encontrado por seus pais era comer “o que tinha”. “Arroz não tinha, a gente comia capim, trigo, nabo. Talo e folha de batata doce era o que mais tinha, porque cresce rápido”, recordou.
Durante os 10 anos que a família permaneceu no Japão antes de emigrar para o Brasil, em 1955, Noriko aproveitou para estudar. Era fornecida uma refeição por dia na escola, pão com leite de soja, o que incentivava a frequência dos alunos. “Chegava em casa e não tinha comida, então a gente nunca matava aula”, disse Ito aos risos.
Com o fim da guerra, Kyoichi começou a realizar serviços braçais para o Exército americano para sustentar a esposa e seis filhos. Kesa trabalhava como enfermeira à noite e os filhos mais velhos também contribuíam, com as profissões variando entre cozinheira, cobradora de ônibus e motorista de táxi em Tóquio.

FUGIR DA GUERRA
Antes do confronto mundial, o pai de Noriko já havia servido na Segunda Guerra Sino-Japonesa, e decidiu se mudar para o Brasil porque tinha medo de perder a família. O primeiro destino idealizado foi a Amazônia, “porque ele achou que lá não tinha guerra, queria fugir. Meu pai falou ‘se vai para o Brasil, você pelo menos enche barriga’”.
Os pais contaram que foi o auge da chamada ao Brasil. A família partiu do porto de Kobe, na região da grande Osaka, e viajaram por 45 dias de navio até desembarcarem. Quando se instalaram na Colônia Lorena, que era parte da zona rural de Londrina, a ideia era retornar ao Japão no futuro, sonho que foi destruído rapidamente.
“Quando chegamos, não tinha colchão, tinha que dormir sem nada. Uma coisa muito triste, a minha mãe chorava toda noite, falava que veio para o fim do mundo, para o inferno”, explicou Noriko, que tinha 11 anos na época. A família começou a trabalhar em uma plantação de café e arroz, e os seis irmãos, que já eram próximos, foram unidos ainda mais pela pobreza.
“Minha mãe sofreu muito, o que segurou a gente é que viemos em família. Se tínhamos três ovos em uma família de oito, batia com arroz ou na sopa, para poder todo mundo comer por igual. Se você não tem, eu não quero, se você pode, vamos comprar para todo mundo”, pontuou. Saindo da Colônia após quatro anos, a família seguiu para o distrito de São Luís, até se instalar permanentemente em Londrina um ano depois.
Na cidade, se casou com Yasutomi Ito, aos 27 anos. Fez um curso para se tornar cabeleireira e “mexe com cabelo” há 60 anos. Noriko voltou ao Japão duas vezes desde que se tornou pé-vermelho de coração, e contou que se emocionou ao sobrevoar o país e retornar a sua primeira casa. Disse ainda que não “para pra pensar” em como poderia ter sido a sua vida se tivesse permanecido no arquipélago, visto que foi sofrida, mas se estabeleceu e nunca olhou para trás.

‘SÓ VIVIA COM FOME’
Noriko corta o cabelo de Kimie Kai, empresária de 82 anos, desde que era solteira. A amiga de longa data é natural de Fukushima e tinha dois anos quando os EUA atacou Hiroshima e Nagasaki. Na época, tinha seis irmãos e passou por dificuldades parecidas com as da família de Noriko.
“Meus pais sofreram muito, quando eu voltava da escola, não tinha nada para comer e minha mãe cozinhava capim. Acho que eu lembro tanto porque estava passando fome, só vivia com fome”, relembrou com lágrimas nos olhos.
Kimie contou que não chegou a ver a situação “melhorar” no Japão, que enfrentava uma pobreza extrema em sua totalidade. Ela veio para o Brasil com 14 anos, em 1956, em uma viagem de 58 dias em navio. Segundo ela, o país começou a se reerguer em 1958.
“Americano que tomava conta. Os soldados andavam com um monte de chocolate, e todo mundo corria atrás deles para ganhar”, recordou Kimie, contando que os oficiais chegavam a distribuir os doces para as crianças.
Sua família se instalou em Bastos, em São Paulo, e a mulher se mudou para Londrina no início dos anos 2000. Noriko brincou que Kimie já foi “40 vezes” para o Japão, país que parecia grande quando era criança, e que “depois de adulto, tudo ficou pequenininho”. Assim como a amiga, a empresária não tem vontade de retornar ao Oriente para morar, contando que o Brasil é “mais livre” e sua casa.
(Com Agence France-Presse)


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


