Colônia Lorena tem parte da história preservada
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quarta-feira, 17 de junho de 2015
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local
Considerada ainda área rural de Londrina, mas oficialmente pertencente à Cambé, a Estrada do Caramuru, na região sul, leva a uma viagem no tempo, onde há 83 anos dezenas de famílias de origem japonesa compuseram a Colônia Lorena um dos mais representativos agrupamentos nipônicos que ajudaram a fortalecer a presença dos japoneses em Londrina. "Havia cerca de 22 famílias, cada um com seu lote de terras, dedicados ao plantio de café, e era bonito ver quando reunia todo mundo para as festividades", lembra com saudades, Eico Miyazaki Iwanaga, 75 anos, que nasceu na comunidade e até hoje mora sozinha no local, em uma propriedade de dez alqueires, sendo parte dela arrendada. "Aqui é a minha casa. Gosto do ar puro, da paisagem, dessa tranquilidade. Meus filhos ficam preocupados por morar sozinha aqui, dizem que eu me 'escondo no meio do mato', mas ainda tenho saúde para ficar", afirma, categórica, e com bom humor. Das famílias que ocupam a região atualmente, estimam-se que apenas três sejam da formação original.
Próximo à sua casa, ainda está bem preservado o "Clube Agrícola 4-H de Lorena", com o salão de festas (que funcionou também como escola), a Capela Nossa Senhora de Lourdes e a casa de madeira onde morou o casal de professores Eizo e Corina Okano, responsáveis durante muitos anos pela educação das crianças na localidade, antes das Prefeitura de Cambé construir - em área próxima - a Escola Municipal Fernão Dias, cujo prédio foi demolido.
Construída na década de 1950, por iniciativa de João Koyama, a capela precisa de alguns reparos e a comunidade local lamenta a falta de serviços religiosos permanentes. A área do clube hoje integra propriedade rural que pertence há 30 anos à família Amano, que procura preservar essa história e permite o acesso livre ao local (a área da associação foi doada originalmente pela família Kemoti). Há três anos é organizado no salão de festas um almoço anual para reunir os descendentes dos pioneiros dessa grande saga, marcada por muito trabalho, esforço, mas também prosperidade. A última reunião, realizada em fevereiro, reuniu aproximadamente 200 pessoas. O nome "Lorena" parece fazer referência ao Córrego Lorena, cuja nascente está localizada na região.
"A primeira família a vir para Lorena foi a de Koji Yoshikawa, em 1932. O meu pai, Takae Miyazaki, veio logo depois, de Cafelândia, em São Paulo, e acho que eu sou uma das primeiras crianças a nascer aqui que ainda está viva", observa dona Eico. "Tinha de ser muito forte para derrubar a mata e trabalhar na agricultura. Fico admirada até porque o meu pai trabalhava nos Correios, lá no Japão", conta.
Umas das lembranças mais marcantes é quando aconteciam as gincanas chamadas de "undokais" - que reuniam dezenas de famílias no local, com brincadeiras, competições, como beisebol e atletismo, e premiações. Esses momentos também estão bem vivos na memória da prima da dona Eico, a cabeleireira Noriko Ito, 71 anos, que chegou a Londrina aos 11 anos, junto com os pais e mais cinco irmãos, à convite do tio, para morar na Colônia Lorena, depois de uma viagem de 45 dias de navio, vindos do Japão.
"A minha primeira lembrança é a dos pés de café queimados, já que chegamos logo após a geada negra. Tudo era muito difícil, trabalhoso, mas as gincanas eram o nosso momento de lazer, de festa. Minha mãe, que vinha de uma família de posses, nunca se adaptou bem ao Brasil e morreu, aos 60 anos, querendo voltar ao Japão", recorda Noriko, que morou quatro anos na colônia, antes de se mudar para o distrito de São Luís, onde passou um ano, para depois fixar residência em Londrina.
Satisfeita com os rumos da sua história, Noriko chegou a desfilar em uma ala da Escola de Samba Unidos do Porto da Pedra, no carnaval carioca, em homenagem aos 100 anos da imigração japonesa no Brasil. "Foi um grupo grande de Londrina e, além da dança tradicional, fizemos demonstração do Matsuri Dance", fala, com orgulho. "Sou brasileira, criei minhas raízes aqui, e acho o povo brasileiro acolhedor. Não tenho do que reclamar", conclui.
DE LORENA PARA ESTUDAR EM LONDRINA< br>Muitas das famílias pioneiras da Colônia Lorena trabalharam duro na agricultura para custear a formação educacional de nível superior dos filhos. É o caso da família do engenheiro agrônomo Huguioski Sugeta, 74 anos, cujo pai Takeshi Sugeta chegou na Colônia Lorena, em 1936. "Após a conclusão do ginásio, tínhamos que vir para Londrina para continuar os estudos no Colégio Estadual Hugo Simas. Foi minha avó quem ficou responsável por cuidar de mim e dos meus sete irmão para que pudéssemos estudar, enquanto meus pais continuavam trabalhando na roça, e todos têm curso superior. Dar o estudo aos filhos foi a principal herança dos meus pais, que lutaram muito por isso", ressalta Sugeta, que fez Engenharia Agronômica, em Piracicaba (SP).
Dos anos vividos na Colônia Lorena, Sugeta lembra da solidariedade e união entre os vizinhos e das festas de Ano Novo. "Após a virada do ano, durante uns cinco dias, as famílias da colônia visitavam entre si e todo mundo tinha que se preparar para isso. Na minha casa, por exemplo, a gente matava, em média, três porcos, 21 frangos, fazia dezenas de bolos e doces japoneses para receber as visitas nesse período. Era uma festa e a única data em que a gente tomava guaraná e comia balas", pontua. "Era um tempo bom, apesar das dificuldades. Hoje parece que o que predomina é o individualismo entre as pessoas. E acho que foi fundamental para a manutenção da cultura japonesa termos esse tipo de formação, na qual todos moravam próximos. Tenho saudades", conclui.
BAR HOMENAGEIA COLÔNIA
Em Londrina, o Bar Lorena (Av. Quintino Bocaiúva, 1.186) dos famosos bolinhos de carne leva em seu nome uma singela homenagem à colônia japonesa. Há 45 anos o bar pertence à família Fuziy, mas antes disso foi de antigos imigrantes que deram o nome ao bar tendo como referência, segundo relatos, à Colônia Lorena, onde morava a maior parte da população japonesa da cidade. O nome 'lorena', de origem grega, significa força e energia.