Não se deve fazer guerra em nenhuma hipótese
Vi um clarão, como se fosse flash de foto, muito intenso. Senti um forte calor nas costas. Olhei em direção à cidade e ela estava coberta por uma fumaça que era preta e vermelha ao mesmo tempo. Essa fumaça depois ganhou formato de cogumelo
Descreve a japonesa Tano Takahira, 79 anos, sobre o dia em que a cidade de Nagasaki foi destruída pela bomba atômica. Tano, que perdeu o pai e um irmão devido à bomba, só não morreu porque tinha ido até o sítio onde morava buscar pertences da família no meio dos destroços a casa havia sido destruída uma semana antes em um bombardeio norte-americano. Ela tinha 17 anos na época.
Sem saber dos riscos da radioatividade, Tano correu para a cidade para procurar seu tio, que morava perto do local onde a bomba caiu. Fui de manhã, mas à tarde ainda não havia encontrado. A cidade estava toda destruída, e não dava para reconhecer as ruas nem saber por onde estava andando, relata, acrescentando que, depois, seu nariz jorrou um fio de sangue da espessura de um dedinho. Só depois fui entender que foi por causa da bomba. Mas aí eu já não tinha mais saúde. Tive vários problemas e doenças durante a vida, lembra dona Tano, que está se recuperando de uma cirurgia no intestino. Era época de guerra, e faltava tudo. Então as pessoas que ficaram doentes não tinham remédio nem injeção, e acabavam morrendo, lamenta. Em seguida, reflete: Pensando bem, foi horrorizante. Por isso digo que não se deve fazer guerra em nenhuma hipótese. Os desententimentos
devem ser resolvidos através
do diálogo.
Seu marido, Youkiti Takahira, 84 anos, também carrega lembranças da bomba, mas em Hiroshima. Eu estava a 30 quilômetros de Hiroshima, mas mesmo a essa distância senti um calor. Lá os estragos foram bem maiores porque é uma planície. Já em Nagasaki, teve menos vítimas porque a cidade é rodeada por montanhas, compara.
O casal mudou-se para o Brasil em 1961, trazendo três filhos. Aqui, tiveram mais dois. Passaram 12 anos trabalhando em sítio, depois foram para Santos, para que as crianças pudessem estudar. E, em 1982, vieram para Londrina, cidade que consideram ter um ar e uma água muito melhores. No Brasil a minha saúde melhorou. Gostei daqui desde que cheguei, comenta dona Tano. Ela conta que foi passear no Japão quatro vezes, mas, para morar, prefere o Brasil. Não há nem sombra da Nagasaki de antigamente. Mas a minha terra natal eu carrego no coração, não preciso morar lá. Eu adoro o Brasil, não tem país melhor. Um dia, este vai ser o melhor país do mundo. (A.I.) n





