Sema notifica condomínio por lançar esgoto no Lago Norte
Chaves foram entregues aos moradores neste ano, com auxílio financeiro do Estado; crime ambiental surpreendeu residentes
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 2025
Chaves foram entregues aos moradores neste ano, com auxílio financeiro do Estado; crime ambiental surpreendeu residentes

A Sema (Secretaria Municipal do Ambiente) constatou mais um lançamento clandestino de esgoto em corpos hídricos fruto de um condomínio residencial, desta vez, no Lago Norte. O empreendimento fica na zona norte de Londrina, custou R$ 126 milhões e foi entregue neste ano, viabilizado, em parte, por recursos do Governo do Estado.
O secretário da pasta, Gilmar Domingues, salientou que o condomínio possui cinco torres com pelo menos 11 andares, totalizando 448 apartamentos. “Não sabemos exatamente se todos eles estão com a ligação clandestina, mas o que a Sema já constatou é que uma adutora que faz a coleta de esgoto daquele condomínio está com o lançamento direto (no Lago Norte). Não observamos resíduos sólidos, porque deve ter alguma caixa de retenção”, informou. O nome do empreendimento não foi divulgado pela Prefeitura.
A ligação irregular foi constatada na tarde de sexta-feira (18), por meio de um teste com corante vermelho no sistema de esgoto do empreendimento. Poucos minutos depois da aplicação, a água na galeria pluvial liberada no Lago Norte ficou tingida. O condomínio foi notificado para tomar as providências imediatas e cessar o lançamento de esgoto na rede em até 24 horas.

‘Nos pegou de surpresa’
A síndica, Giovanna Ongaratto, informou que a construtora responsável foi comunicada imediatamente após o recebimento da notificação, visto que o condomínio foi entregue recentemente, em abril de 2025. “Também acionamos os engenheiros contratados para avaliar e solucionar o problema, que nos pegou completamente de surpresa, sobretudo por se tratar de um empreendimento novo, com os serviços de saneamento devidamente pagos e com o Habite-se expedido recentemente”, completou.
Segundo Ongaratto, a construtora respondeu que uma equipe fará uma fiscalização presencial na segunda (20), com levantamento de laudos e projetos técnicos. A síndica questionou a expedição do Habite-se e a falta de vistoria antes da entrega do empreendimento.
A Sema instaurou um processo administrativo e irá encaminhar, na segunda, o caso ao Ministério Público, para a promotoria especializada na Proteção do Meio Ambiente. Conforme Domingues, a responsabilidade da construtora também será apurada, visto que edificações devem possuir um projeto hidrossanitário adequado. Nele consta como deve ser feita a coleta, o transporte e a destinação final dos efluentes, seja para uma rede pública de esgoto ou para uma fossa séptica.
Subsídio estadual
A Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná) finalizou a entrega de chaves para os últimos moradores do condomínio em junho deste ano. A obra foi viabilizada pela parceria entre o Governo do Estado, Caixa e a construtora privada.
Ao todo, foram destinados mais de R$ 6,5 milhões em recursos estaduais para custeio do valor de entrada dos apartamentos a mais de 300 famílias, por meio do programa Casa Fácil Paraná. O subsídio é concedido para facilitar a aquisição da moradia própria às pessoas com renda de até quatro salários mínimos.
A reportagem entrou em contato com a assessoria do Governo do Estado para atestar qual seria sua responsabilidade quanto ao lançamento de esgoto clandestino, considerando o envolvimento na obra. Em nota, a Cohapar pontuou que "a escolha do imóvel e da construtora é do próprio cidadão, já a aprovação dos projetos cabe às construtoras, prefeituras e Caixa Econômica Federal, sendo estes dois últimos também responsáveis pela fiscalização das obras". Complementou dizendo que "quaisquer reclamações podem e devem ser encaminhadas diretamente à construtora responsável pela obra".
Esgoto clandestino na Gleba Palhano
Nas últimas semanas, a Sema e a Sanepar têm promovido um trabalho contínuo de verificação das galerias pluviais no entorno do Lago Igapó, para atestar possíveis pontos irregulares de descarte de esgoto. O excesso de nutrientes despejado na água, aliado à falta de precipitação, levou ao surgimento de algas que deixaram a coloração do Igapó 2 verde-escura em setembro.
Um condomínio residencial na Rua Caracas, na Gleba Palhano, área nobre na zona sul, foi identificado como o responsável pelo lançamento clandestino de esgoto no lago 2. Corante azul foi aplicado em um vaso sanitário na área comum do prédio, o que coloriu um ponto de lançamento no corpo hídrico.

O condomínio, que não teve o nome divulgado, tinha até a manhã deste sábado para interromper o despejo irregular. Domingues informou que foi até o local conferir se a notificação tinha sido acatada, mas por conta da forte chuva no início do dia, não foi possível confirmar “a olho nu”. “Assim que o tempo melhorar, nosso fiscal vai retornar e faremos nova vistoria, mas temos a tranquilidade em dizer que o condomínio tomou as providências devidas para cessar o lançamento”, garantiu.
O fato do descarte irregular ter impulsionado a proliferação das algas será um agravante na dosimetria da multa pelo crime ambiental, que pode variar de R$ 50 a R$ 50 milhões. O secretário reforçou que, “quando você tem excesso de fósforo, nitrogênio e coliformes fecais, é uma característica exata de esgoto doméstico sendo lançado no corpo hídrico”.
Espuma na água
A equipe da Sema também observou “uma quantidade enorme de espumas sendo carregada para o Lago, também oriunda de uma rede coletora de águas pluviais”. A condição é causada quando produtos químicos à base de ácido são utilizados para a lavagem de calçadas e veículos, exemplificou o secretário.
“No momento de adquirir um produto para limpeza, observe o rótulo e evite se tiver ácido, porque é um produto proibido para utilização em limpeza de calçadas em Londrina”, pediu Domingues.
Alfaces d’água persistem
Um terceiro problema que vem preocupando o Município é o aparecimento e persistência de macrófitas aquáticas na superfície do Igapó, principalmente nos lagos 1 e 2. A Prefeitura iniciou a retirada das alfaces d’água em 29 de setembro, reforçando a segurança dos trabalhadores com equipamentos de proteção individual após alerta da FOLHA sobre a toxicidade das algas que esverdearam a água.
As plantas “descem” aos lagos vindas dos Igapós 3 e 4. Dois gradis metálicos foram postos na tubulação que liga os corpos hídricos para barrar a passagem das macrófitas, porém, “a força d'água foi tamanha que a estrutura metálica não suportou, o empuxo lateral acabou se rompendo, trazendo um grande acúmulo de alfaces d'água para esses dois compartimentos”, contou Domingues.

A equipe terá “trabalho redobrado” no mutirão de limpeza, sendo que a Sema vem buscando uma parceria com a Marinha para colocar em prática uma nova ideia a partir da semana que vem. “Estamos providenciando barcos a motor com sistema de rede para concentrar as alfaces d'água em alguns pontos, e a retirada acreditamos que deverá acontecer com a máquina”.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


