Alfaces d’água tomam conta do Igapó 2
Por enquanto, macrófitas podem ajudar a remediar abundância de algas que esverdeou lago, já em excesso, podem levar a morte de peixes; ação da Prefeitura pode ter contribuído com o aparecimento
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segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Por enquanto, macrófitas podem ajudar a remediar abundância de algas que esverdeou lago, já em excesso, podem levar a morte de peixes; ação da Prefeitura pode ter contribuído com o aparecimento

O Lago Igapó 2, na zona sul de Londrina, amanheceu coberto por macrófitas aquáticas conhecidas como alfaces d’água nesta segunda-feira (22). Elas são consideradas plantas daninhas quando colonizam rapidamente o corpo hídrico em que se encontram, com crescimento desordenado e prejuízos ao equilíbrio do meio ambiente. Até o momento, as ervas flutuantes ainda estão pequenas, porém, podem atingir até 30 centímetros de diâmetro.
O aparecimento remete ao motivo da água do Igapó 2 estar verde-escura há duas semanas. A ausência de chuvas significativas desde julho levou a um menor volume de água no lago, ocasionando em uma maior incidência de luz solar no corpo hídrico. Com isso, aumentou o número de nutrientes presentes, o que favoreceu a proliferação de algas e a coloração turva. As cianobactérias filamentosas presentes são tóxicas, sendo prejudiciais a seres humanos e peixes.
Fontes pontuais de poluição, como vazamentos de esgotos clandestinos, também podem ter contribuído com a oferta exacerbada de nutrientes, informou, na época, Gilmar Domingues, secretário da Sema (Secretaria Municipal do Ambiente).
Presença de macrófitas
Weliton da Silva, doutor em Botânica e professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina), observou macrófitas no Igapó 3 no mesmo dia em que a coloração verde-escura tomou conta do lago 2. Na última sexta (19), atestou a presença das plantas nos córregos do Aterro do Iago 2, no Igapó 3 novamente e no 4. A descida pode ter sido causada pelas fortes chuvas que Londrina enfrentou nesta madrugada, contou Silva.

“Com a chuva, a tendência é que essas plantas aquáticas descessem pro lago 2, pro lago 1 e pro lago do Parque Arthur Thomas. Agora só o tempo e mais chuvas para ir depurando, mas essas plantas vão ficar aí por bastante tempo, elas eram mais comuns nos lagos mais a montante [mais próximo à nascente], mas agora, se os nutrientes continuarem, vão se desenvolver aí também”, pontuou o professor. Silva completou que a precipitação pode levar a menor quantidade de nutrientes, porém, “se as fontes de poluição continuarem, não será suficiente”.
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‘Com cuidado e na época certa’
O docente informou que uma ação da Prefeitura de Londrina pode ter contribuído com o aparecimento das macrófitas. A Secretaria Municipal de Obras e Pavimentação iniciou, no dia 4 de setembro, uma operação de desassoreamento e limpeza nos córregos do Aterro do Igapó 2, contemplando pontos críticos do sistema de drenagem urbana da cidade para evitar alagamentos.
Conforme Silva, a boa intenção pode ter levado ao aumento na quantidade de algas presentes e novas alfaces d’água. “Semana passada, a prefeitura estava retirando macrófitas dos canais do aterro, uma prática que tende a revolver os sedimentos do fundo e aumentar mais a concentração de nutrientes na água. Avisamos ao Consemma e à Sema naquele dia”. O processo de retirada das plantas aquáticas “tem que ser feito com cuidado e na época certa - de menor quantidade de nutrientes -, para evitar o problema cíclico.

O professor considerou ainda que os responsáveis pelo manejo do Igapó devem entender que o sistema não se resume a ele, e sim, é um reflexo de como a bacia está como um todo, incluindo o Ribeirão Cambezinho, que forma os quatro lagos urbanos, e afluentes. “O que ocorre no lago também influenciará o que está a jusante, mais pra baixo. Só esses dias eles se tocaram que a água do lago do Arthur Thomas estava do mesmo jeito, muito possivelmente a água só vai mudar o padrão depois que cair no (Ribeirão) Três Bocas”.
Plantas aliadas, por hora
Em um primeiro momento, as alfaces d’água não são prejudiciais à vida aquática do Igapó, sendo benéficas até certo ponto pela capacidade de remover nutrientes de ambientes eutrofizados. A eutrofização ocorre quando uma maior quantidade de algas (que esverdearam o Igapó 2) leva a diminuição de oxigênio dissolvido e, por sua vez, à morte das espécies que vivem no lago.
Orlando Carvalho, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) Campus Londrina, integra a equipe da Universidade que busca soluções para o problema juntamente da Prefeitura. Ele foi avisado da presença de macrófitas no corpo hídrico pela reportagem, informando que, até 30% de cobertura no lago pode ajudar a remediar a eutrofização.
Monitorar a cobertura
“Já que essas plantas desceram, a prefeitura tem que acompanhar o crescimento, a cobertura que estão fazendo na superfície do Lago 2, para a partir daí tomar alguma medida. Por enquanto elas vão ser benéficas, já se estiver cobrindo demais, tem que retirar, se cobrirem o lago todo, teremos um problema bastante sério”, pontuou.
Com o alerta da FOLHA, Carvalho acionou a Sema para que o órgão se prepare para uma eventual retirada das macrófitas via barco. “Se ficar muito tempo sem chuva, como o lago está carregado de nutrientes, essas plantas vão crescer bastante e se reproduzir bem rápido, temos que ficar atentos”.
As macrófitas podem causar, indiretamente, a morte da vida aquática do lago. “Elas vão diminuir a (incidência de) luz solar, se essas cianobactérias (algas) que hoje estão produzindo oxigênio não tiverem luz, elas vão morrer. Para a decomposição delas, vai ter queda do oxigênio dissolvido na água e pode morrer peixe”, elencou.
Algas tóxicas
O professor informou que o Igapó 2 está no estágio de “hiper eutrofização”, o nível máximo. “As algas verdes que estamos vendo são cianobactérias. Se o sistema não tiver capacidade de suportar a respiração das algas, vai começar a faltar oxigênio e peixe morrer. Então, os peixes podem morrer por falta de oxigênio e também pela própria toxicidade dessas cianobactérias, elas têm toxinas dentro delas que podem afetar os peixes”, explicou.

Carvalho contou que a Sema "está de sobreaviso para que medidas tomar”. Uma possível solução seria instalar um sistema de aeração, para aumentar o nível de oxigênio da água e evitar a mortandade dos animais. No momento, o órgão e a Universidade não possuem recursos e aeradores próprios para colocar a ideia em prática.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.




