Prefeitos vão à Justiça para exigir auditoria na Santa Casa
Amepar quer conhecer real dimensão dos problemas do hospital regional e teme por 'caos' caso serviços sejam interrompidos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Amepar quer conhecer real dimensão dos problemas do hospital regional e teme por 'caos' caso serviços sejam interrompidos

Preocupados com a manutenção do atendimento à saúde pública da Santa Casa de Londrina, os prefeitos dos 22 municípios que compõem a Amepar (Associação dos Municípios do Médio Paranapanema) vão insistir, diplomática e judicialmente, em uma auditoria nas contas da entidade. A decisão foi a deliberação de reunião na manhã desta segunda-feira (27), com a participação de sete prefeitos, da secretária de Saúde de Londrina, Vivian Feijó, e da promotora da Saúde Pública, Susana de Lacerda.
A reunião com os prefeitos da região já estava marcada antes mesmo da decisão do TJ (Tribunal de Justiça) do Paraná, na sexta-feira (24), que suspendeu a intervenção judicial solicitada pelo MP (Ministério Público) de Londrina, ante denúncias de má gestão. Liminar de primeiro grau havia afastado a diretoria da Santa Casa e nomeado como interventor o diretor do Hospital da Zona Norte de Londrina, Reilly Alberto Aranda Lopes, no último dia 15. Na reunião desta segunda, o colegiado de prefeitos reiterou a confiança para comandar a reestruturação do hospital.
Segundo o presidente da Amepar e prefeito de Cambé, Conrado Scheller, uma auditoria independente nas contas da instituição é fundamental para esclarecer a situação financeira da Santa Casa e garantir segurança para a continuidade da assistência hospitalar prestada à população dos municípios atendidos.
“(A Santa Casa) É uma instituição importante, que atende diversas cidades da Amepar. E nós já conhecemos esse filme, que ocorreu também em Ibiporã (no Hospital São Rafael) e na Santa Casa de Cambé, e entendemos o quanto isso é danoso”, recordou. A Amepar vai pedir a habilitação judicial para acompanhar o processo, uma vez que a entidade recebe recursos públicos para operar. “Os prefeitos e as prefeitas que subvencionam [a entidade] têm direito de saber para onde vai esse dinheiro”, defendeu.
Também garantiu que vão insistir na auditoria. “Auditoria nunca é uma condenação antecipada, é para que possamos entender o tamanho do problema”, justificou.
Procurada via assessoria de imprensa, a diretoria da Iscal (Irmandade Santa Casa de Londrina) informou que foi notificada da reversão da intervenção apenas na manhã desta segunda-feira e que só deve se pronunciar em entrevista coletiva nesta quarta (29).
‘Um caos’
Durante o encontro, o prefeito de Londrina, Tiago Amaral, enfatizou que a situação da Santa Casa extrapola os limites do município e afeta diretamente toda a região. Segundo ele, aproximadamente 60% dos atendimentos feitos pelo hospital são destinados a pacientes de outros municípios, o que torna a instituição indispensável para a rede regional de saúde. "A Santa Casa está em Londrina, mas ela não é de Londrina", afirmou. "Retira a Santa Casa, o que vira a saúde de Londrina e da nossa região? Vira um caos. Não tem outra palavra."
O prefeito ressaltou que a preocupação dos gestores municipais não está relacionada à disputa sobre quem administra o hospital, mas à necessidade de garantir a continuidade dos serviços. Segundo ele, independentemente de quem esteja à frente da instituição, o funcionamento da Santa Casa precisa ser preservado.
"Seja quem for, falando da minha parte como contratante dos serviços da Santa Casa, tem que dar certo. A gente não pode ficar sem esse hospital", afirmou.
Tiago Amaral também observou que as prefeituras não têm capacidade financeira para solucionar sozinhas a crise da instituição e defendeu a participação do Governo do Estado na construção de uma solução. Ele acrescentou que o município trabalha para ampliar a oferta de leitos hospitalares em Londrina por meio de parceria com outra instituição filantrópica, mas ponderou que essa iniciativa não resolve a necessidade imediata de manter a Santa Casa em funcionamento.
Denúncias de anos
Segundo Susana de Lacerda, o acúmulo de denúncias relacionadas à falta de insumos, demora na execução de cirurgias, ausência de especialistas e problemas na prestação dos serviços ao longo dos anos levou o MP-PR a pedir a intervenção judicial no hospital.
Ela lembrou que uma das situações mais graves envolvia a inexistência de cirurgião pediátrico plantonista no hospital infantil da Santa Casa, o que motivou uma ação civil pública. "Como é que nós vamos ter um hospital infantil, que é porta de entrada para 99 municípios e até para o interior de São Paulo, sem cirurgião pediátrico?", questionou.
A promotora afirmou que, antes da intervenção, foram tentadas diversas negociações com a direção da Santa Casa, sem sucesso. Segundo ela, a decisão de recorrer à Justiça foi tomada após uma auditoria do Estado do Paraná apontar problemas considerados graves na administração da instituição. Embora o conteúdo do relatório esteja sob sigilo judicial, Susana disse que a medida foi fundamentada nas conclusões desse trabalho e em outras informações obtidas pelo Ministério Público.
Entre os problemas apontados, a promotora afirmou que o hospital acumulava atrasos no pagamento de médicos, dificuldades para reduzir filas de cirurgias e falhas administrativas. Ela rebateu ainda alegações de que a prefeitura de Londrina atrasava os repasses financeiros à Santa Casa. "Os repasses foram feitos pontualmente. Então, não se pagou médico e funcionário por outros motivos, e não por atraso da prefeitura", afirmou.
Susana também apresentou dados que, segundo ela, demonstram ineficiência na gestão financeira da instituição. Ela citou que o custo médio de um leito na Santa Casa é de R$ 3.258,87, enquanto no Hospital Evangélico é de R$ 678,13, além de informar que havia uma fila de 2.252 crianças aguardando cirurgias pediátricas.
De acordo com a promotora, o período de nove dias de intervenção permitiu que a equipe designada pela Justiça para administrar o hospital encontrasse falta de medicamentos, alimentos e insumos, além de problemas na organização administrativa, contratos sem documentação adequada, desperdício de materiais e indícios de gastos incompatíveis com a situação financeira do hospital.
Ela ressaltou que a instituição chegou a depender do apoio de outros hospitais e de empresários da região para manter o abastecimento de medicamentos, alimentos e insumos destinados aos pacientes internados.
Apesar das críticas à gestão, a promotora disse que o objetivo do Ministério Público não é inviabilizar a Santa Casa, mas assegurar que os recursos públicos sejam empregados de forma adequada. "Em nenhum momento a intenção do Ministério Público é fechar o hospital. O que nós queremos é que o dinheiro público destinado à Santa Casa seja aplicado da melhor maneira possível para garantir atendimento à população", afirmou.


Luis Fernando Wiltemburg
Repórter de Cidades.



