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Londrina

GERAL

m de leitura Atualizado em 20/06/2022, 00:05

Índice de abandono escolar cai, mas ainda preocupa especialistas

Vulnerabilidade social, desemprego dos pais, frio e baixa renda são alguns dos fatores que contribuem para o quadro

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de junho de 2022

Isabella Alonso Panho – Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

Foto: iStock
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Criança e adolescente fora da escola parece um assunto do passado. Como a legislação estabelece a obrigatoriedade da matrícula, muita gente que estaria fora das estatísticas passou a ser acompanhada de perto pelo poder público. Contudo, os índices publicados em maio pelo Censo da Educação mostram que o problema é muito atual.  

Segundo dados disponibilizados pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), no Paraná os índices de abandono escolar em 2021 foram de 0,2% e 1,2% nos ensinos fundamental e médio, respectivamente. Londrina está acima desse número no ensino fundamental e abaixo no ensino médio: as taxas de abandono são de 0,3% e 0,8%.  

Conforme informado pela Seed (Secretaria Estadual de Educação) à FOLHA, há 816.859 estudantes matriculados em instituições públicas de ensino no Paraná. Apesar de alarmantes, os índices de abandono escolar são menores do que os registrados em 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19, quando os percentuais foram de 0,5% e 3,1% nos ensinos fundamental e médio. Em Londrina, em ambas as situações, as estatísticas foram bem menores naquele ano, atingindo os percentuais de 0,1% e 0,8%, respectivamente.  

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No ensino médio, o abandono escolar tende a ser maior, por causa da inserção dos jovens no mercado de trabalho. E quanto menor a idade dos estudantes, mais eles tendem a ser contemplados por políticas públicas de acompanhamento da frequência na escola.  

Na rede municipal, segundo dados informados pela SME (Secretaria Municipal de Educação), para evitar que crianças e adolescentes abandonem os estudos, a pasta realizou 2.853 buscas ativas – quando equipes profissionais vão até a casa dos jovens – e precisou incluir 2.496 alunos em atividades de complementação da carga horária. Com o trabalho da rede, apenas 28 crianças continuaram em situação de evasão escolar no fim de 2021, por não terem sido localizadas pela SME.  

Há diversos motivos para que uma criança ou um adolescente saia da escola. Segundo Eriton Garcia, técnico pedagógico do NRE-Londrina (Núcleo Regional de Educação), durante os últimos dois anos, “a maior parte dos problemas de frequência está relacionada aos problemas de saúde”, diante de casos suspeitos e confirmados de Covid-19.  

Por outro lado, há o fator econômico: “Em muitas famílias em que os responsáveis (pai, mãe ou avô) perderam o emprego, menores de idade começaram a trabalhar, a imensa maioria no mercado informal. Muitos adolescentes, com 16, 17 anos, tornaram-se a única fonte de renda da família”, afirma Garcia.  

A jovem Pamela Santos passou por esse tipo de situação há alguns anos. Aos 17, a irmã mais velha abandonou os estudos para trabalhar em um mercado, caminho que ela própria, na época com 14, precisou seguir.  

“Eu acabei entrando em depressão, o que trato até hoje. Porque foi um choque muito grande. Estava acostumada a estudar, ver meus amigos todos os dias, e de repente eu não tinha mais isso”, relembra.  

Essa mesma visão é corroborada por Martinha Clarete Dutra, coordenadora de mediação e ação intersetorial da SME. “Em geral, a evasão é parte de um contexto de desproteção e de vulnerabilidade. Então, normalmente, nós vamos precisar atuar em conjunto com a assistência social, com a saúde, com o Conselho Tutelar, muitas vezes com a Defensoria Pública, com o Ministério Público e com a Vara da Infância, que são os órgãos que compõem o sistema de garantia de direitos”.  

A necessidade de ajudar nos cuidados de familiares doentes foi o que retirou a jovem Larissa Batista Martins da escola. “Primeiro foi o meu avô que ficou doente, depois a minha avó. Tinha o meu tio, que já era acamado por ter nascido especial, e depois o meu outro tio, que teve câncer no fígado,” enumera.  

Ela e a mãe, que trabalhava em casa, eram responsáveis por esses cuidados. “Eu me senti um pouco perdida, com muitas responsabilidades muito jovem. Foi terrível. Eu me senti bem mal, como se eu tivesse abandonando uma parte de mim”, lembra a jovem, que parou de estudar no oitavo ano do ensino fundamental.  

EVASÃO X ABANDONO  

Evasão e abandono escolar, embora sejam sinônimos na linguagem cotidiana, têm significados bastante distintos nas estatísticas. Como explica Eriton Garcia, técnico pedagógico do NRE-Londrina (Núcleo Regional de Educação), “a partir de cinco faltas consecutivas ou sete alternadas, o aluno já entra na busca ativa, pois passa a ser considerado em estado de evasão”.  

As equipes pedagógicas das unidades de ensino buscam identificar os motivos da ausência do estudante e encaminhá-lo para os atendimentos necessários. O primeiro passo é fazer contato com os pais ou responsáveis e, o segundo, fazer uma visita direta à residência.  

Em virtude desses parâmetros, a evasão é um dado que está em constante modificação. Segundo Garcia, a queda das temperaturas no meio de maio deste ano entrou no radar dos profissionais do NRE. “Muitos alunos não foram à escola por não terem roupa de frio”, comenta, apontando que, na semana dos dias 15 a 21 de maio, a frequência dos alunos da rede estadual caiu 3,4%. Já o abandono escolar se consolida “quando não é feita a matrícula”, explica Martinha Clarete Dutra, coordenadora de mediação e ação intersetorial da Secretaria Municipal de Educação.  

Dutra ainda aponta que “o abandono só é computado no Brasil pelo Censo da Educação Básica quando faz análise de séries”, ou seja, quando compara, de um ano para outro, a quantidade de estudantes que foram matriculados.  

NOVOS CAMINHOS  

Tanto Pamela Santos quanto Larissa Martins conseguiram, com muito esforço, retomar os estudos. As duas concluíram o ensino fundamental e médio frequentando as aulas do Ceebja (Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos).  

 “Eu fiquei muito orgulhosa. Saber que consegui, realmente sozinha, estudar, ir bem nas provas, para concluir o que eu queria ter feito na época certa, né?”, relembra Santos. Ela chegou a começar uma graduação, mas sentiu muita dificuldade de conciliar com o trabalho: “Eu tive muitos problemas com concentração e em conseguir focar naquilo, por achar que sempre tenho que estar trabalhando”.  

 Já Martins se vê movida pelo sonho de cursar medicina. “No ano retrasado eu voltei a estudar. Apeguei-me bastante, tanto que terminei o fundamental e o médio em dois anos. Foi quase impossível. Me desdobrei, estudei de tarde, de noite... Eu saía de casa 10 horas da manhã e voltava só 11 horas, meia-noite”, relembra.  

Estudando em casa, buscando materiais por conta própria, não se deixa abalar pelas críticas: “Falaram para mim que era uma coisa impossível, que eu tinha que estudar muito, me esforçar muito, que com a condição da minha família eu tinha que dar mais do que 100% de mim. Mas eu nunca desisti desse sonho”.

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