HIV: epidemia banalizada

Ministério da Saúde estima que 135 mil pessoas infectadas pelo vírus HIV ainda não tiveram acesso ao diagnóstico

Viviani Costa - Grupo Folha
Viviani Costa - Grupo Folha

Aos 28 anos, Roni Lima havia concluído a graduação em Administração quando soube que era portador do vírus HIV. “Eu estava vivendo um período em que você já tem boa parte da sua formação profissional e sabe bem o que quer. Simplesmente ali veio aquele balde de água fria. ‘Hoje você não é mais só o Roni, com todo esse potencial. A partir de agora você é o aidético, o gay que teve o pecado capital, a sentença e a punição de ter uma doença que não tem cura’. É mais ou menos assim. Se não fosse a minha família e a própria Alia [Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids] me acolher e me orientar em relação a tudo isso, eu não estaria mais aqui como muitos amigos meus não estão. Só nesse ano perdi oito”, lamenta hoje, aos 52 anos.


Em 2018, o Ministério da Saúde contabilizou 37 mil novos casos de aids e quase 44 mil de infecção por HIV
Em 2018, o Ministério da Saúde contabilizou 37 mil novos casos de aids e quase 44 mil de infecção por HIV | Rodrigo Nunes/MS
 


Envolvido nas ações de prevenção e orientação sobre a aids, Lima atua como coordenador da associação em Londrina. O momento atual, segundo ele, preocupa, já que faltam investimentos partindo de todas as esferas (Federal, Estadual e Municipal) para implantar propostas efetivas e integradas de combate à doença, além de campanhas de esclarecimento que eliminem estigmas, preconceitos e a morte social pela qual passam os diagnosticados com o vírus HIV.



HIV: epidemia banalizada
 


“A Saúde nunca vai dar conta dessa epidemia sozinha. Outras políticas setoriais como a Educação e a Assistência Social precisam ter isso como ponto primordial em suas ações. Outro elemento importante é a garantia do estado laico de direito. Esse tem sido um dos impedimentos para enfrentarmos não só a epidemia de aids, mas também questões de equidade de gênero, de diminuição da violência e de negligência com populações historicamente abandonadas”, alerta.


Dados divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que o número de mortes por aids caiu em todo o País. No ano passado, 10,9 mil pessoas morreram com a doença. Em 2014 foram registrados 12,5 mil óbitos. Porém, ainda em 2018, o Ministério da Saúde contabilizou 37 mil novos casos de aids e quase 44 mil novos casos de infecção por HIV.

 

O governo federal estima que 135 mil pessoas sejam portadoras de HIV no Brasil, mas desconheçam o diagnóstico. Nem todos os portadores do vírus desenvolvem a aids e podem passar anos sem apresentar sintomas da doença. Nesta sexta (29), o Ministério da Saúde lançou uma campanha para reforçar a importância da realização de testes rápidos que identifiquem a presença do vírus no organismo.


O Dia Mundial de Luta contra a Aids, celebrado em 1º de dezembro, traz à tona desafios e conquistas ao longo da trajetória de combate à epidemia. Conscientizar os jovens está entre as principais metas, já que, no último ano, pouco mais da metade das infecções por HIV registradas no País (52,7%) ocorreu na faixa etária de 20 a 34 anos.


“O jovem não presenciou a descoberta dos primeiros casos quando os ídolos morriam e ficou essa lacuna”, avalia a chefe da Divisão de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Sesa (Secretaria de Estado da Saúde), Mara Franzoloso. O Paraná notificou 18.763 casos de HIV entre 2007 e 2017. Destes, 66,2% estavam na faixa etária entre 20 e 39 anos.


“A notificação de HIV passou a ser obrigatória [no Brasil] a partir de 2014 e a quantidade de casos quase dobrou. O Paraná foi pioneiro na descentralização dos testes rápidos de diagnóstico do vírus. Isso reflete uma sensibilidade maior na busca dos casos e oportuniza a detecção”, ressalta.


Mais de 35 mil pessoas no Estado fazem uso dos medicamentos antirretrovirais ofertados pelo SUS, o que contribui para a redução no número de diagnósticos por aids e de óbitos pela doença. “A pessoa passa a ter uma boa qualidade de vida com carga viral indetectável e, por isso, intransmissível”, destaca a representante da Sesa.


Dentro das inúmeras limitações em termos de orçamento e de recursos humanos, os profissionais da saúde que atuam diretamente no combate às chamadas ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) se desdobram para levar palestras e orientações de conscientização a eventos e locais públicos ou privados.


Em Londrina, 75 novos casos de HIV foram identificados entre janeiro e outubro deste ano. “Nós fazemos o que podemos. Executamos o Plano Municipal de Controle da Aids, fornecemos insumos, preservativos, folders, trabalhamos em campanhas, vamos até as empresas, levamos os testes rápidos e fazemos palestras. Quem teve uma relação de risco, deve procurar o CTA [Centro de Testagem e Aconselhamento] para fazer o teste rápido que identifica sífilis, HIV e hepatites B e C. A sífilis agora também é mais um desafio nacional. É mais uma epidemia que enfrentamos”, frisa a coordenadora, em Londrina, do Programa Municipal de IST/HIV/AIDS/Tuberculose/Hepatites Virais, Elizabeth Shibayana.


SERVIÇO

Centro de Testagem e Aconselhamento

Alameda Manoel Ribas, 1. Centro de Londrina.

O horário para realização de testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C é de segunda a quinta-feiras, das 8h às 10h 


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