‘Dor para a vida toda’, diz tio de Fernanda Estruzani após prisão de Panissa
José recebe com alívio a notícia de que Marcos Panissa foi capturado após 31 anos foragido; família paraguaia do condenado não conhecia sua verdadeira identidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de abril de 2026
José recebe com alívio a notícia de que Marcos Panissa foi capturado após 31 anos foragido; família paraguaia do condenado não conhecia sua verdadeira identidade

Capturado no Paraguai após passar 31 anos foragido, Marcos Campinha Panissa foi entregue à PF (Polícia Federal) de Foz do Iguaçu (Oeste) na aduana da Ponte Internacional da Amizade na noite de quarta-feira (15). Ele foi condenado a quase duas décadas de prisão por ter matado sua ex-esposa, Fernanda Estruzani, com 72 facadas em 1989, no centro de Londrina. Deixando a filha que teve com a vítima no Brasil, ele fugiu para o país vizinho próximo à época do crime e constituiu uma nova família, com a esposa atual e filhos não tendo conhecimento do crime cometido pelo patriarca, além da identidade falsa usada por ele para entrar no Paraguai.
A Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) do Paraguai informou que agentes especiais do Gise (Grupo de Investigação Sensível) localizaram Panissa por volta do meio-dia de quarta em uma via pública de San Lorenzo, cidade localizada na Região Metropolitana de Assunção. Ele estava em um veículo quando foi identificado pelos policiais e assumiu sua identidade verdadeira. Jalil Rachid, ministro da Senad, explicou que Panissa usava o nome “José Carlos Vieira” e vivia confortavelmente se dedicando ao comércio.
O homem figurava na lista de Difusão Vermelha da Interpol, com a captura sendo resultado de esforço conjunto entre a Polícia Nacional do Paraguai, a PF (Polícia Federal), o Gaeco/PR (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e a Polícia Militar do Paraná.
As autoridades paraguaias optaram por expulsar o foragido em vez de extraditá-lo, o que garantiu mais celeridade ao processo. Panissa foi entregue à PF de Foz do Iguaçu por meio do Comando Tripartite, estrutura de cooperação policial internacional sediada na região da fronteira. Ele segue sob custódia, à disposição da Justiça para a transferência e imediato cumprimento da pena. Seu advogado, Antônio Carlos Vianna, acredita que não há motivo para ele cumprir a detenção em outro município a não ser Londrina.
“Em regra geral, será na cidade onde está a Justiça que o condenou. O próprio Ministério Público está esperando isso. Existem exceções, como quando o crime é perigoso, é de quadrilha, é facção, aí eles podem designar outra penitenciária. Não é o caso, mas a gente não está livre de ser surpreendido com qualquer outra coisa”, afirmou Vianna. Segundo ele, Panissa conversou por telefone com o cunhado após a captura.

Transporte à prisão
À polícia paraguaia, o advogado solicitou e aguarda informações acerca da legalidade da prisão de seu cliente, dizendo que o juiz da Vara de Execuções Penais de Londrina ainda não foi comunicado oficialmente do ocorrido. Pontuou que o Depen/PR (Departamento Penitenciário do Estado do Paraná) sugere ao juiz de execução o local ideal para o cumprimento da pena, também sendo responsável pelo transporte dos condenados. “É uma operação cheia de protocolos, tem que destacar uma equipe, viatura, talvez demore mais uns três ou quatro dias para ele chegar em Londrina”.
A Sesp/PR (Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná) completou dizendo que Panissa “já foi julgado e condenado, então quem define para onde ele vai é a própria Justiça e a Polícia Penal só acata”.
Redução da pena
Após sucessivos julgamentos e anulações a partir de 1991, a pena do homem foi fixada em 19 anos e seis meses de reclusão, após uma apelação da defesa realizada em 2010. Antes disso, em 2008, o Tribunal do Júri de Londrina havia renovado o mandado de prisão e definido a condenação em 21 anos e seis meses de detenção. Se Panissa não fosse capturado até 2033, o crime iria prescrever. Vianna prevê que ele cumpra um sexto da pena e passe para o regime semiaberto, podendo trabalhar durante o dia e se recolher à noite.
Almeja ainda uma redução substancial da sentença a partir de um pedido de recurso que será feito ao TJPR (Tribunal de Justiça do Estado do Paraná). Se o crime for reconhecido como passional, a defesa irá pleitear uma nova pena de seis a oito anos de prisão.
Tragédias na família
O assassinato de Fernanda Estruzani ocorreu em 6 de agosto de 1989, no apartamento onde morava, na região central de Londrina. Ela foi morta pelo ex-marido com 72 golpes de uma faca de mergulho. Eles se conheceram quando ela tinha 17 anos e Panissa, 20, e tinham uma filha juntas. O homem não compareceu a seu terceiro julgamento em 1995, sendo considerado foragido desde então.
Antes disso, eles formavam um casal “tranquilo” e frequentavam a casa dos tios de Fernanda, José Antônio e Sônia Mota, assiduamente. “A gente fazia festa e eles sempre estavam juntos, ela era muito alegre e brincalhona, ele mais fechado, calmo e educado. Nunca percebemos nada de anormal, de maltratar um ao outro”, recordou o tio. Por conta da boa relação que o casal nutria com a sobrinha e Panissa, a família demorou a crer que ele realmente fosse o culpado. “Quando tiveram os primeiros julgamentos, a minha mulher e a irmã dela, mãe da Fernanda, escutaram da boca dele que ele tinha matado ela, sim. Aí caiu a realidade, foi um baque muito grande”.
Exemplificando como a família foi afetada pelo homicídio, Mota listou as tragédias que se sucederam. “O pai dela morreu seis meses depois, estava bem, de repente teve um câncer e acabou morrendo rapidinho. A avó dela morreu no segundo julgamento dele, amanheceu morta. A mãe ficou desnorteada e já morreu também”.

‘Da cabeça à sola do pé’
O tio de Fernanda lembrou que a separação do casal foi repentina, dizendo que “parecia que ainda tinha amor”. “Ele queria voltar e estavam se acertando, de repente, o pai dele entrou no meio e fez umas propostas, negócio de corrida de carro, que ia dar para ele. Ele caiu fora, foi para o carro”, relatou Mota. Panissa era um dos herdeiros mais ricos do Paraná, com José acreditando que o pai fez a proposta para que o casal não retomasse a relação.
Mesmo com a ideia descartada, o homem seguia “em cima” de Fernanda para que nenhum novo relacionamento desse certo, sendo que Panissa confessou, à época do crime, que foi motivado por ciúmes. “Ele entrou no apartamento de noite, tinha a chave por causa da filha, e ela estava deitada na sala dormindo. Pegou a faca, que não foi encontrada, e matou ela”.
Mota assumiu a responsabilidade de reconhecer o corpo da sobrinha no IML (Instituto Médico Legal), dizendo que a jovem aparentava ter sido atingida mais de 72 vezes. “Ela estava furada do couro da cabeça à sola do pé”. O tio almeja que Panissa cumpra os 19 anos e seis meses de pena definidos pela Justiça, sem que uma redução do período seja concedida.
“Quando um casal não se entende, separa cada um com a sua vida, não precisava ter matado. A gente fica contente com a prisão, mas triste pela família dele, o pai e a mãe acabam sofrendo. Ele acabou com a vida dela e de duas famílias, a nossa e a dele. A dor fica para o resto da vida”, completou o tio.
Justiça que tarda, falha
O Néias - Observatório de Feminicídios de Londrina recebeu com satisfação e indignação a notícia da captura de Panissa, considerando que “um sistema que condena e não executa a pena sinaliza à sociedade que a Justiça que tarda, falha”.
“Nos 37 anos que se passaram desde o dia em que Fernanda foi morta na casa onde morava com a filha, pensamos em tudo que ela poderia ter vivido. Fernanda poderia ter construído uma carreira, cultivado afetos, visto a filha crescer. Poderia ter errado e acertado, vivido algumas dúvidas, mudado de ideia. Mas Fernanda não experimentou nada disso e, desde o dia de sua morte, não teve sequer o direito à memória da mulher que foi, porque sua história ficou reduzida às 72 facadas que lhe tiraram a existência”, pontuou o Observatório.
Disse ainda que, embora a tipificação legal não existisse em 1989, a mulher foi vítima de feminicídio, e não um crime passional. “Repudiamos narrativas que revitimizam e culpabilizam mulheres assassinadas. Quem ama não mata”.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


