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m de leitura Atualizado em 28/02/2022, 15:54

Crise climática eleva migração forçada, desnutrição e doenças, diz ONU

Os impactos são observados em todas as regiões do planeta, que está em média 1,1ºC mais quente que a era pré-industrial

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Ana Carolina Amaral – Folhapress
AUTOR autor do artigo

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São Paulo - A mudança do clima já causa prejuízos à saúde, alimentação, economia e infraestrutura das cidades. Os impactos são observados em todas as regiões do planeta, que está em média 1,1ºC mais quente que a era pré-industrial. Os efeitos em cascata estão reunidos no novo relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU (Organização das Nações Unidas), lançado nesta segunda-feira (28).  

Elaborado por 270 cientistas, o estudo revisou 34 mil artigos científicos e aponta que as mudanças profundas causadas pelo aumento da temperatura global já estão em curso.  A partir de modelos climáticos, o relatório também faz projeções de cenários sobre o aumento dos riscos conforme a temperatura e as ações de adaptação ao clima.  

Mauro Pimentel/AFP 

Temporal registrado neste mês em Petrópolis já deixou mais de 220 mortos Mauro Pimentel/AFP 

Temporal registrado neste mês em Petrópolis já deixou mais de 220 mortos
Mauro Pimentel/AFP Temporal registrado neste mês em Petrópolis já deixou mais de 220 mortos |  Foto: Mauro Pimentel/AFP
 

"É inequívoco que a mudança climática é uma ameaça ao bem-estar humano e à saúde planetária", diz o relatório. Desde a última avaliação do painel, em 2014, os avanços na ciência climática permitiram aumentar o grau de certeza sobre a atribuição dos eventos extremos e seus danos ao aquecimento global.  

"O volume de informação que a gente tem hoje aumentou muito, assim como o grau de certeza sobre a atribuição dos riscos e dos danos aos sistemas naturais e sociais à mudança climática", afirma Jean Ometto, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e um dos autores do relatório do IPCC.  

"Os impactos estão acontecendo antes do que se esperava. Certos impactos que eram previstos para 2050 no relatório anterior, neste consta como impactos que já são observados, já estão começando a acontecer", destaca Ometto. "Isso também deriva do aumento da informação; ainda assim, é surpreendente."  

"Este relatório reconhece a interdependência do clima, da biodiversidade e das pessoas e integra as ciências naturais, sociais e econômicas mais fortemente do que as avaliações anteriores do IPCC", disse Hoesung Lee, presidente do painel do clima.  

Entre os impactos socioeconômicos já observados atualmente, está a queda na produtividade agrícola. Embora ela tenha aumentado globalmente, esse crescimento foi desacelerado pela mudança do clima, segundo o relatório. Os impactos negativos aconteceram principalmente em regiões de latitudes médias e baixas. Porém, há impactos positivos em altas latitudes.  

"Quem vai se beneficiar das mudanças climáticas? Os países nórdicos. Rússia, Suécia, Islândia, Canadá. Podem se tornar potências agrícolas daqui a 30 anos. Porque o solo tem muito material orgânico, vai aumentar a precipitação nesses locais, vai aumentar o período de verão para a colheita. Isso já está começando a acontecer", diz o físico da USP (Universidade de São Paulo) Paulo Artaxo, membro do IPCC. 

 Um impacto negativo em uma região pode ser positivo para outra, explica Artaxo. "A diminuição das chuvas no Nordeste brasileiro é algo negativo, mas em uma região onde a agricultura não é viável, isso pode ser benéfico, por diminuir a lixiviação de nutrientes do solo", exemplifica.  

O relatório também afirma que cerca de metade da população mundial já enfrenta escassez hídrica durante uma parte do ano em decorrência de fatores climáticos e não climáticos. O cenário atual expõe milhões de pessoas à insegurança alimentar e à escassez hídrica, com impactos maiores em comunidades da África, Ásia, Américas do Sul e Central, pequenas ilhas e do Ártico.  

As perdas repentinas de produção de alimentos também provocam desnutrição, principalmente entre indígenas, pequenos agricultores e pessoas de baixa renda. Os impactos são maiores em crianças, idosos e mulheres grávidas.  

A insegurança alimentar aguda e a desnutrição relacionadas com inundações e secas têm aumentado na África e nas Américas do Sul e Central. "As mudanças climáticas estão contribuindo para crises humanitárias onde os riscos climáticos interagem com alta vulnerabilidade", afirma o estudo. 

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Segundo o painel do clima, em todas as regiões do mundo já há deslocamentos populacionais impulsionados pelo clima e pelos eventos extremos. A migração forçada é maior nas pequenas ilhas, de forma desproporcional.  

O IPCC também aponta que os extremos climáticos impactaram a duração, gravidade ou frequência de conflitos violentos, embora ressalve que a associação estatística é fraca e que os fatores climáticos não são dominantes para a ocorrência dos episódios de violência.  

Segundo o relatório, doenças animais e humanas, incluindo zoonoses, estão surgindo em novas áreas. Os riscos de doenças transmitidas por água e alimentos aumentaram regionalmente vindas de patógenos aquáticos sensíveis ao clima e de substâncias tóxicas de cianobactérias de água doce nocivas.  

"Embora as doenças diarreicas tenham diminuído globalmente, temperaturas mais altas, aumento das chuvas e inundações aumentaram a sua ocorrência, incluindo cólera e outras infecções gastrointestinais", aponta o estudo.  

"O aumento da exposição à fumaça de incêndios florestais, poeira atmosférica e aeroalérgenos tem sido associado a problemas cardiovasculares e respiratórios sensíveis ao clima", destaca o relatório, notando ainda que serviços de saúde foram interrompidos por eventos extremos, como inundações.  

Em regiões com maior ocorrência de eventos climáticos extremos –como inundações, secas extremas ou ciclones– também já é possível identificar o aumento dos desafios com a saúde mental da população, associados, por exemplo, a traumas por conta dos desastres e da perda de comunidades e suas culturas. Projeções indicam que a ansiedade o estresse devem aumentar em cenários de maior aquecimento global, particularmente entre jovens e idosos.  

Além de apontar os impactos socioeconômicos da crise climática e os grupos mais vulneráveis a ela, o relatório do IPCC apresenta projeções de cenários de risco, que variam conforme a temperatura global e também de acordo com o preparo de políticas de adaptação climática.  

Com investimentos em saúde e adaptação proativa – que se antecipa aos cenários climáticos – seria possível reduzir de alto para médio os riscos de saúde ligados ao clima em um cenário de aumento de temperatura em até 2ºC, por exemplo.  

O estudo destaca um novo risco climático evitável: o da má adaptação. "Um exemplo é a ação de construir um muro para se preparar contra inundações. Aí vem uma cheia mais alta, o muro desaba e gera ainda mais problemas", afirma Jean Ometto.  

"A adaptação ao clima precisa ser planejada de forma transversal, integrando diversos setores, para gerar um desenvolvimento resiliente", aponta.  

Até agora, o progresso na adaptação é desigual e há crescentes lacunas entre as medidas tomadas e o que é necessário para lidar com os riscos crescentes, segundo o relatório. As lacunas são maiores entre as populações de baixa renda.  

"O relatório do IPCC é um atlas do sofrimento humano e uma acusação condenatória da liderança climática fracassada", afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres. 

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