Com 521 desaparecidos, Londrina integra Mobilização Nacional de Coleta de DNA
Polícia Científica pede que familiares de desaparecidos forneçam material genético; ampliação de banco de dados busca reconhecer vínculos de parentesco e concluir casos abertos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Polícia Científica pede que familiares de desaparecidos forneçam material genético; ampliação de banco de dados busca reconhecer vínculos de parentesco e concluir casos abertos

A unidade da PCI (Polícia Científica) de Londrina integra a Mobilização Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas, força-tarefa promovida em 334 pontos Brasil afora até sexta-feira (28). A ação busca encontrar desaparecidos por meio de testagem de DNA com o material concedido por seus parentes, a partir do cruzamento de dados nos bancos estaduais e nacional de perfis genéticos. A iniciativa expande a possibilidade de identificar e localizar quem tem o paradeiro desconhecido, contribuindo para trazer respostas às famílias com o reconhecimento de vínculos de parentesco. O Paraná soma 6.491 desaparecidos, e Londrina, 521, quantidade considerável que reflete o padrão nacional, segundo o chefe do Instituto de Criminalística de Londrina, Luciano Bucharles.
Silvéria Gomes dos Santos, 70, forneceu uma amostra de material genético na PCI de Londrina nesta terça (25). Ela não tem notícias do filho, Welington José Simielli, 44, desde o dia 13 de agosto, quando ele deixou a residência da matriarca na zona norte de Londrina e não retornou. A perita responsável pela coleta da saliva fez uma série de perguntas sobre o homem, anotando características físicas. Welington é calvo e tem cabelos brancos, mede cerca de 1,72 m de altura, seus olhos são castanhos e não possui nenhuma tatuagem. Ele sofre com abuso de substâncias químicas e passou por uma cirurgia na mão no início do mês, após ser agredido na rua.
“Ele estava em casa comigo porque estava machucado. E com tanta promessa que a vida dele ia ser diferente, que ele ia mudar, mesmo sabendo que é quase impossível, ainda cria uma expectativa. Ele tinha mania de levantar, tomar banho, fazia o café e ia bater na minha porta, falava ‘levanta e vamos orar para a gente tomar café’, e nesse dia ele não chamou”, lamentou Santos.
‘Enquanto há vida, há luta’
O homem tem costume de deixar a casa por alguns dias seguidos, mas nunca por tanto tempo e sem entrar em contato, o que preocupou a família e motivou o registro do boletim de ocorrência. A mãe foi até o Hospital Dr. Anísio Figueiredo, zona norte, onde ele ficou internado por uma semana pós-ataque, mas ele não havia retornado à unidade.
Santos buscou as autoridades policiais consternada, mas com esperança de que Welington seja encontrado bem. “Você fica naquela angústia, ‘ele vai voltar? Cadê ele? O que aconteceu com ele?’ O filho enterrar o pai e a mãe é normal, é bíblico. Eu já enterrei o meu mais velho com 20 anos, se ele estivesse aqui, estaria com 51. Mas existe um ditado, ‘enquanto há vida, há luta’, mesmo com tanto sofrimento, com tanta luta, eu sou mãe e ele é filho”, completou.
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Passo a passo da coleta
Durante a coleta, a perita passou um cotonete na parte interna da bochecha da idosa, procedimento rápido e indolor. O material será encaminhado ao laboratório de genética forense da PCI de Curitiba, junto de objetos pessoais de Welington - que contêm seu DNA - fornecidos pela mãe. Atualmente, para os casos de identificação de pessoas desaparecidas, o Estado possui 735 amostras de familiares e 501 perfis genéticos cadavéricos. O perfilamento de Santos será traçado na capital, comparado a perfis de pessoas não identificadas, vivas ou falecidas, cadastrados nos bancos locais e nacionais.
O trabalho é realizado de forma contínua com o objetivo de encontrar vínculos de parentesco. Se o familiar desaparecido for localizado vivo, a família será informada sobre o paradeiro. No caso de a correspondência levar a um corpo, a instituição responsável entrará em contato para realizar os procedimentos legais. Em ambas as situações, com a confirmação da identidade, o perfil genético será retirado dos bancos de dados. Já se não houver resultado após a inserção, os sistemas irão continuar buscando perfis automaticamente a cada nova atualização da base de dados, garantindo a permanência no cadastro.
A doação deve ser realizada, prioritariamente, por familiares de primeiro grau. Conforme a Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos, a ordem de preferência para a testagem é: pai e/ou mãe biológicos; filhos biológicos e o outro genitor; e irmãos biológicos, que devem ser filhos da mesma mãe e do mesmo pai. Outros parentes podem ser considerados, caso não seja possível seguir a hierarquia. Crianças devem estar acompanhadas do representante legal.
Como a mobilização ocorre em todo o Brasil, caso a família não resida mais onde a pessoa desapareceu, basta informar o local de origem da ocorrência, também sendo possível buscar correspondência em bancos de DNA de outros países. O procedimento é realizado o ano todo, e não somente esta semana. É importante levar:
- Documento de identidade;
- Informações e cópia do Boletim de Ocorrência do desaparecimento (número, estado e delegacia);
- Objetos pessoais da pessoa desaparecida que possam conter DNA, como escova de dente, dente de leite guardado e cordão umbilical.

Paraná reflete o Brasil
O material genético coletado será usado somente para procurar e identificar pessoas desaparecidas. Luciano Bucharles, perito criminal e chefe do Instituto de Criminalística de Londrina, contou que o receio de que o DNA possa ser utilizado para outras finalidades inibe o seu fornecimento. “Recomendo a todas as pessoas que tenham parentes desaparecidos que se disponham a doar o material. Às vezes, você acha que vai ser um processo doloroso ou que seu perfil genético vai ser inserido em um banco policial e que, eventualmente, você possa ser investigado. Mas isso não acontece, e dependemos muito da participação da população para que a gente possa reduzir os números”.
O Cadastro de Pessoas Desaparecidas no Paraná, disponível no site da PCPR (Polícia Civil do Paraná), é dividido em duas abas: menores e maiores de 12 anos. São 6.491 indíviduos no total, com 30 crianças, e em Londrina, 522 e uma, respectivamente. A quantidade é alta, julgou Bucharles, considerando que a Secretaria de Segurança Pública é sempre a receptora da deficiência formativa, educacional e cultural do Estado. “Temos muito a evoluir, porque é inadmissível que um país como o nosso tenha índices de violência tão altos. O número de desaparecidos é uma referência aos índices e um reflexo do país”, concluiu.
Serviço
Interessados em fornecer DNA devem entrar em contato com a PCI de Londrina, por meio do (43) 3343-5002, para agendar um horário para a coleta. O endereço é Avenida Dez de Dezembro, s/n, na esquina com Rua Argolo Ferrão.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.




