Aos 69 anos de idade, José Marcelino se tornou o primeiro aluno cego a concluir a graduação em Direito na UEL (Universidade Estadual de Londrina), com a apresentação de seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) na terça-feira (7) rodeado de amigos da turma. O aluno pesquisou sobre a educação inclusiva da pessoa com deficiência visual, se aprofundando nos desafios e possibilidades deste direito fundamental no âmbito da legislação brasileira. Ele usou sua própria história como exemplo, recordando como perdeu a visão 13 anos atrás, as diversas profissões que já teve ao longo da vida e o seu objetivo para um futuro próximo: ser aprovado no Exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e defender trabalhadores.

Marcelino foi tema de reportagens da FOLHA em duas ocasiões, quando foi aprovado no vestibular da UEL por meio de cotas para pessoas com deficiência, em 2022, e quando relatou os desafios da graduação como aluno do 4º ano de Direito no ano passado, incentivando o estudo transformador “que sempre vale a pena”.

Ele nasceu em Diamantina (MG), em 1957, e percorreu diversas cidades do Paraná até se instalar em Cambé, na Região Metropolitana de Londrina, com os pais e irmãos. Como segundo filho mais velho entre oito, trabalhou por toda a infância e adolescência, estudando até o 7º ano.

Os pais e a primogênita não eram letrados, cabendo a Marcelino ler as cartas vindas dos parentes mineiros. “Foi por isso que eles me mantiveram na escola. A minha irmã mais velha não estudou e o meu pai e a minha mãe não sabiam ler. Nós trabalhamos três anos numa fazenda, trabalho tipo escravo, o 'velho' não viu a cor de um tostão. Eu tenho as minhas dificuldades, mas pra eles foi pior, e o povo fala que foi antigamente, mas 60 anos não é muito tempo”, considerou.

Marcelino acumulou diversos ofícios ao longo da vida, recordando a atuação “na roça, em plataforma de petróleo em alto-mar, de boia-fria, no comércio e como encanador industrial”. Ele perdeu a visão gradativamente depois de lhe ser receitado um medicamento incorreto para artrose. Começou o tratamento nos olhos em 2005 e foi encaminhado ao Instituto Roberto Miranda, em Londrina, onde aprendeu Braille (sistema de escrita e leitura tátil).

A cegueira total veio em 2013, aos 56 anos. “Depois que eu perdi minha visão, eu vim ao chão. Não sabia qual era o próximo passo, foi difícil me adaptar na escola para os cegos. A falta me fez trabalhar só com o cérebro”, contou o estudante.

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Apoio essencial

Marcelino vive pela noção de que a deficiência não é um martírio, salientando a importância de “não desanimar” perante as provações enfrentadas. Ao longo de toda a sua graduação, contou com o apoio dos colegas de classe, docentes e profissionais do NAC (Núcleo de Acessibilidade) da UEL, o que não foi diferente durante a produção do TCC. Contando que sente na pele os desafios da educação inclusiva para quem tem deficiência visual, tema de sua dissertação, pontuou que “a gente tem que ter humildade pra pedir ajuda na hora que precisar”.

“Eu expliquei a situação. Como é que eu vou pegar um livro na biblioteca para ler? Eu tenho a experiência, convivo na prática com esse problema, mas não consigo fazer fisicamente, não consigo escrever. Eu tive bastante suporte e isso aqui (apresentar o TCC) pra mim é uma vitória, vitória que eu conquistei através dos meus esforços e da ajuda do pessoal da universidade, que estão no meu coração”, disse o graduando.

'Seu José', como é chamado pelos colegas, foi prestigiado por companheiros da graduação
'Seu José', como é chamado pelos colegas, foi prestigiado por companheiros da graduação | Foto: Heloísa Gonçalves

Ingrid Ausec, coordenadora do NAC, informou que Marcelino recebeu apoio durante os cinco anos em que estudou na UEL, destacando “mentorias individualizadas para compreender e auxiliar em situações relacionadas às vivências acadêmicas, bem como em sessões de estudo assistido, em especial ajudando na leitura de materiais e desenvolvimento de estratégias de estudo”.

No ano letivo de 2025, o NAC acompanhou 401 alunos no âmbito da educação especial, sendo 380 na graduação e 21 na pós-graduação, atendendo estudantes com deficiência e altas habilidades/superdotação. A conquista de Marcelino é um marco para a universidade como um todo, disse a psicóloga, pontuando que “a presença de pessoas com deficiência vai ensinando toda a nossa comunidade, professores, estudantes e demais servidores, a conviver com as diferenças e pensar estratégias diferenciadas para cada contexto”.

Após a aprovação, Marcelino tirou a clássica foto em frente ao letreiro do CESA com os amigos Fábio Cruz e Luiz Filho
Após a aprovação, Marcelino tirou a clássica foto em frente ao letreiro do CESA com os amigos Fábio Cruz e Luiz Filho | Foto: Heloísa Gonçalves

'Caminhada valeu a pena'

Para o aluno, a sensação de concluir o curso de Direito é “uma batalha vencida”, recordando que caminhava mais de 10 km a pé para estudar quando era criança e trabalhou desde cedo para ajudar a sustentar os irmãos mais novos. “A gente que não tinha poder aquisitivo não tinha chance. Essa caminhada valeu a pena”, refletiu o futuro advogado.

Almejando atuar na área Trabalhista, Marcelino vai realizar a prova da OAB no início do ano que vem. Ele busca defender funcionários injustiçados pelos seus chefes, já que “a pessoa vai ficando de idade e cansa de lutar”.

Ainda na terça, o formando tirou fotos com a banca que avaliou o seu trabalho e todos que prestigiaram a sua apresentação, incluindo professoras do Instituto Roberto Miranda e profissionais do NAC que acompanharam a sua trajetória na UEL.

Banca avaliadora do TCC foi composta pelos professores Mirelle Buzalaf e Miguel Belinati, além da ex-coordenadora do NAC Marli Guimarães
Banca avaliadora do TCC foi composta pelos professores Mirelle Buzalaf e Miguel Belinati, além da ex-coordenadora do NAC Marli Guimarães | Foto: Heloísa Gonçalves

Quando a nota máxima foi anunciada, cumprimentou amigas que tinham lágrimas nos olhos e ouviu como é uma inspiração para elas. Ele celebrou o "10" tomando café com amigos da turma, já ansioso pela entrega do diploma na colação de grau em 2027, quando vai adicionar bacharel em Direito à sua longa lista de conquistas.

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