Mais do que uma questão ética, a aposta em tecnologias para a melhoria do bem-estar dos animais é fundamental para diminuir custos de produção e melhorar a qualidade da carne
Mais do que uma questão ética, a aposta em tecnologias para a melhoria do bem-estar dos animais é fundamental para diminuir custos de produção e melhorar a qualidade da carne | Foto: Marcos Zanutto


Ao longo das últimas décadas o setor de carne suína enfrentou diferentes desafios, lutou contra mitos, até atingir o patamar atual de produção e aceitação. Ela já foi considerada vilã das doenças cardiovasculares, transmissora de parasitas e verminoses e até responsável por absurdos, como gerar problemas em pessoas que precisavam passar por processo de cicatrização, após uma cirurgia, por exemplo. Hoje, o jogo virou, sendo a carne mais consumida do mundo e com um grande potencial em aumento de volume numa cadeia sólida e com players importantes, incluindo cooperativas fortes. No Brasil, o consumo dela ainda fica atrás do frango (pelo preço) e dos bovinos (preferência nacional), sendo no Paraná, a segunda carne mais produzida.

Em meio a este cenário, a academia, produtores e indústria – 80% da produção paranaense é no sistema de integração – trabalham para conciliar os protocolos de produção ao bem-estar animal, assunto que hoje é um dos pilares na comercialização de carne pelo mundo. Mais do que uma questão de ética nesse processo, a aposta em tecnologias para a melhoria do bem-estar são fundamentais para diminuir custos de produção e melhorar a qualidade da carne. Na Europa, inclusive, muitos países eliminaram a castração cirúrgica e a imunocastração (ou castração química) dos porcos. Aos poucos, esses assuntos começam a ser debatidos na suinocultura nacional. Tabus estão sendo quebrados.

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Durante esta semana, aconteceu na UEL (Universidade Estadual de Londrina), a 5ª edição do Simcarne (Simpósio de Qualidade da Carne), reunindo em torno de 80 participantes entre acadêmicos, pesquisadores, e representantes da indústria da carne suína. O tema "Carne Suína - proteína mundial" destacou as áreas de produção, inovação e tecnologia, inclusive trazendo pesquisadores da Espanha para relatar sobre a mudança de cultura da Europa com o fim da castração dos animais e como controlar o odor sexual deles após essa mudança.

A professora do departamento de zootecnia da UEL, Ana Maria Bridi, explica que no Brasil a legislação exige a castração dos animais para interromper o odor sexual, que produz um cheiro desagradável quando se frita a carne. "Discutimos metodologias como melhoramento genético, nutrição e manejo para que se consiga produzir um animal não castrado sem o odor sexual. Enquanto no Brasil, no ano passado, a legislação do Mapa reafirmou a necessidade de castração para bovinos, suínos e aves, na Europa eles estão proibindo isso."

A professora salienta que não se trata apenas de uma questão de bem-estar, mas também de mais rentabilidade para a cadeia. Um estudo feito na UEL aponta que animais não castrados consomem 11% menos ração, sem contar a melhoria de qualidade e volume da carcaça. "Se pensarmos que para um animal chegar a 120 quilos ele vai comer aproximadamente 300 quilos de ração, isso significa uma economia de 33 quilos. Se colocar a população de machos abatidos no País por ano, são R$ 500 milhões (de economia), sem contar o apelo ambiental, já que o animal que come menos, defeca menos."

Bridi admite que o assunto representa a quebra de mais um tabu, que necessitaria uma mudança de cultura e também na legislação brasileira, mas que o início de debate – inclusive discutindo novas tecnologias para que isso aconteça – pode ser importante para a cadeia futuramente. "A suinocultura no Brasil é na forma de integração. As empresas determinam a tecnologia que vai ser utilizada, a partir do momento que elas fizerem isso em seus centros de validação, testar esses animais, poderemos ter uma mudança em dez anos."

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