Sementes misteriosas da China chegam a Londrina e Maringá e preocupam autoridades estaduais


Luis Fernando Wiltemburg - Grupo Folha
Luis Fernando Wiltemburg - Grupo Folha

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. | Anderson Leminska
 


A chegada de sementes de plantas despachadas a partir da China para paranaenses, aparentemente de forma aleatória, tem alimentado a preocupação das autoridades fitossanitárias do Estado.


No Paraná, há pelos menos 16 casos de pessoas que receberam as sementes sem qualquer solicitação e há pelos menos dois casos, um na região de Londrina e outro em Maringá, em que ela foram plantadas. “O perigo disso [novas espécies] no Brasil é trazer novas pragas. E são dois grandes riscos, não só à nossa agricultura, mas também ao meio ambiente”, afirma o gerente de sanidade vegetal da Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná), Renato Blood.




Ele conta que já havia relatos de recebimentos de sementes de origem aparentemente chinesa por órgãos postais em outros países, como os Estados Unidos, e que, no Brasil, um alerta de que poderia ocorrer também neste país foi emitido pelo Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) há um mês.


No Paraná, entretanto, o primeiro relato ocorreu no dia 16 de setembro. “Então, a partir dele, soltamos um alerta sobre o que fazer em caso de recebimento e isso começou a repercutir”, afirma Blood. Entretanto, se o primeiro conhecimento sobre as sementes estrangeiras são recentes, os envios têm ocorrido, pelo menos, desde o fim do ano passado. “E já existem até plantas adultas no Brasil, o que é preocupante”, diz Blood.


O recebimento, segundo apurou a Adapar, é feito como “brinde” em compras feitas da China ou, até mesmo, sem qualquer transação comercial com o país asiático.


Em seu comunicado, a instituição de defesa agropecuária do Paraná orienta que o material não seja aberto, descartado ou utilizado, mas que seja levado para uma unidade da Adapar próxima de casa ou do Ministério da Agricultura. Também pode entrar em contato com a Adapar pelo telefone (41) 3313-4000 ou pelo “Fale Conosco” no site da instituição (www.adapar.pr.gov.br).


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. | Anderson Leminska
 


A Adapar tem 130 unidades locais e 21 unidades regionais espalhadas por todo o Estado.


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. | Divulgação
 



MAS O QUE SÃO?


 

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. | Alessandro Casagrande - Adapar
 


Segundo Blood, a Adapar ainda não identificou que planta é esta enviada pelos correios. As sementes recolhidas foram encaminhadas para o Mapa, para análise em um laboratório do ministério em Goiânia (GO). A análise vai levantar, também, quais possíveis fungos, bactérias ou mesmo insetos exóticos que podem ser inseridos no Brasil no caso da disseminação da planta de forma descontrolada.


Blood afirma que há dois casos em que as sementes foram plantadas e até floresceram, o que é muito preocupante. Embora um desses casos tenha sido identificado em uma residência pela unidade regional de Londrina, ele disse que o local foi isolado e é mantido em segredo para evitar a proliferação. “As plantas já estavam florescendo. Outras pessoas podem pedir sementes ou mesmo pisar em uma delas e acabar polinizando outros lugares”, justifica, ao não fornecer a localização à reportagem.


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O gerente de sanidade vegetal explica que, se planta for daninha, adaptar-se ao clima regional e tiver grande poder de competição com a flora nativa, pode virar um problema. “Um exemplo disso é o pinus, que se adaptou muito bem. Ele continua sendo plantado por seu potencial comercial, mas de forma controlada para não espalhar”, afirma.


Caso chegue às propriedades de agronegócio e tenham características daninhas, podem trazer prejuízos às plantações, com redução de produção, demandar maior uso de agrotóxicos e trazer até mesmo embargos econômicos. “Claro que isso são apenas possibilidades, mas não podemos correr o risco. A ferrugem asiática da soja é um exemplo de praga que temos de lidar”, expõe.


PREOCUPAÇÃO EM OUTROS ESTADOS

 


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. | Alessandro Casagrande - Adapar
 


Procurado, o Mapa confirmou o recebimento de quatro casos de sementes, todas vindas da China, recebidas nos Estados do Rio Grande do Sul (RS); Santa Catarina (SC); Goiás (GO) e Mato Grosso do Sul (MS).


O ministério disse que ainda não é possível apontar os riscos envolvidos e que o material foi enviado para o LFDA (Laboratório Federal de Defesa Agropecuária) de Goiânia para as análises técnicas. “Ainda não há prazo para a apresentação dos resultados, pois são vários tipos de análises (fitossanitária para ver se tem pragas, de identidade e qualidade necessária à detecção de ervas daninhas)”, justificou.


O ministério também reforçou que “a entrada de sementes no Brasil só pode ser originária de fornecedores de países com os quais o Mapa já tenha estabelecido os requisitos fitossanitários” e deve ser certificado pelas autoridades fitossanitárias do país exportador.


Assim como a Adapar, o ministério ressalta que a importação de vegetais sem autorização pode facilitar a entrada de pragas ou doenças que não existem ou estão erradicadas no país, além de causar prejuízos econômicos. “Para evitar o risco fitossanitário, o Mapa atua no controle do e-commerce internacional com equipe dedicada a fiscalizar e impedir a entrada de material sem importação autorizada no país”, esclarece a pasta.




A orientação do Ministério da Agricultura é que,  caso a pessoa não tenha feito compra online ou não reconheça o remetente, não utilize as sementes e leve o pacote para uma das unidades do Mapa em seu estado ou entre em contato por telefone, relatando a situação.

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