Carne de laboratório pode chegar às prateleiras do mercado já em 2021

Algumas startups prometem lançamento no próximo ano; 1ª carne celular custou 325 mil dólares

Lucas Catanho (Especial para a FOLHA)
Lucas Catanho (Especial para a FOLHA)

A carne celular ou carne de laboratório deve chegar ao mercado em 2021. Especialistas apontam que a hora de se mexer para produzir essa novidade é agora: quem não se mobilizar deverá ficar para trás e se tornar um comprador dentro de um mercado extremamente promissor.



A docente da UFPR (Universidade Federal do Paraná), pesquisadora Carla Molento, explica que uma primeira característica da carne celular é ser livre de sofrimento e abate animal (leia mais no quadro).




“Adicionalmente, por se caracterizar na multiplicação apenas das células de interesse que constituirão o produto final, é um processo de produção muito mais eficiente. A carne celular não é um substituto da carne tradicional, ou um análogo. É realmente carne, tecido muscular com as características regidas pela genética do animal doador das células”, explica. 


Primeiro hambúrguer feito de carne de laboratório (foto), divulgado, em 2013 custou 365 milhões de dólares
Primeiro hambúrguer feito de carne de laboratório (foto), divulgado, em 2013 custou 365 milhões de dólares | Divulgação MosaMeat
 


Como está o mercado hoje? 

No Brasil, como no mundo todo, estamos na fase de largada por assim dizer. Há uma corrida por investimentos para gerar liderança neste mercado que tem uma projeção enorme e veloz de crescimento. A hora é agora, quem não se mexer será comprador, importador. O Brasil tem algumas vantagens, como, por exemplo, sua reconhecida importância no mercado global de carne, sua organização industrial nesta cadeia global, seu conhecimento de ponta em vários aspectos da indústria da carne e sua riqueza para produção de insumos. Há uma clara percepção do potencial brasileiro de liderança na produção de carne celular, inclusive expresso de maneira concreta no interesse de startups e investidores de outros países, assim como de instituições mediadoras, como, por exemplo, o Good Food Institute. Entretanto, claro que nos cabe transformar potencial em realidade. Precisamos vencer resistências de forma efetiva e rápida se não quisermos perder o bonde deste mercado. Alguns países apresentam altos investimentos, temos mais de 30 startups trabalhando a todo vapor para a produção de respostas técnicas aos desafios ainda existentes para o escalonamento da produção de carne celular, principalmente nos Estados Unidos. 

A pesquisadora Carla Molento, da UFPR: 63% dos pesquisados têm intenção de consumir a carne celular
A pesquisadora Carla Molento, da UFPR: 63% dos pesquisados têm intenção de consumir a carne celular | Arquivo pessoal
 




A carne celular já existe no mercado?

O primeiro produto que veio a público foi o famoso hambúrguer celular do professor Mark Post, em 2013, com muita mídia. Este hambúrguer custou 325 mil dólares americanos. Foi feito em laboratório, com uma quantidade de placas de Petri. Este era o início, de lá para cá o preço de hambúrgueres celulares caiu várias ordens de magnitude, para dezenas de dólares. Mas ainda estamos no início e justamente a diminuição do preço é uma área de intensa atividade de pesquisa. As empresas provavelmente só lançarão seus produtos no mercado de forma ampla quando o preço estiver em uma faixa razoável. Algumas startups prometem isso em prazo curto, para o ano que vem. 

Bife artificial
Bife artificial | iStock
 



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Qual a tendência? 

As previsões às quais tive acesso são surpreendentes. A mais conservadora, de uma empresa de consultoria internacional chamada AT Kearny, prevê que, até 2040, 35% do mercado global de carne será atendido pela carne celular; outros 25% pelas alternativas vegetais, restando apenas 40% do mercado para a carne convencional. Assim, na minha opinião, o investimento em pesquisa e na formação de profissionais para esta nova indústria é urgente. Ainda mais quando consideramos o que vem acontecendo com as alternativas vegetais, como, por exemplo, hambúrgueres, nuggets e linguiças, que simulam carne mas são 100% vegetais. Como estes produtos já estão no mercado, podem servir como uma espécie de exemplo concreto. Outro impulso enorme é o preço decrescente, pois toda tecnologia é cara de início e depois se torna cada vez mais acessível. 


O que as pessoas devem saber para investir nesse tipo de produto? 

Conhecer a opinião dos consumidores é essencial, pois afinal de contas os produtos com melhor aceitação tendem a crescer e aqueles com menor aceitação tendem a encolher em termos de fatia de mercado que ocupam. Sem dúvida, o principal resultado de nosso estudo aqui no Brasil foi a alta aceitação da carne celular, pois 63,6% dos respondentes disseram ter intenção de consumi-la. Resultados similares em pesquisas de outros países estão derrubando a hipótese inicial, de que haveria resistência por parte do público consumidor. 


O que mais pode ser destacado sobre o tema? 

A carne celular não é um produto mais artificial ou futurístico como instintivamente podemos pensar ao entrar em contato com o tema. Há séculos a humanidade produz alimentos por biotecnologia, como, por exemplo, queijos, iogurte, cerveja. A carne celular segue esta mesma linha de produção, logicamente utilizando todo o acúmulo de conhecimento que geramos durante séculos de estudos nas mais diversas áreas. As fazendas desta nova carne terão grandes tanques de crescimento celular, que em sua visualização externa se assemelharão a fermentadores de cervejaria. 



Produto é promissor, destaca especialista da Merck

Segundo instituto norte-americano, demanda por alimentos deverá crescer 50% nos próximos 30 anos


O mundo precisará de 50% mais alimentos em 2050 para nutrir uma população mundial estipulada em 10 bilhões de habitantes, 3 bilhões amais do que hoje, segundo projeção do WRI (Instituto de Recursos Mundiais), na sigla em inglês.


Almondegas de carne de laboratório
Almondegas de carne de laboratório | Divulgação MosaMeat
 



O especialista de marketing regional de Life Science na Merck, Jayme Nunes, destaca que, dentro desse cenário, a carne cultivada ou de laboratório é um produto promissor.

“Investir na carne de laboratório significa contribuir para a redução da emissão de gases tóxicos e de efeito estufa na natureza, na preservação de água doce consumida na pecuária e também em poupar a vida animal”, enumera.


Por que ter uma carne produzida em laboratório? 

Além de poupar sofrimento animal, esta carne cultivada emitiria 96% menos gases de efeito estufa do que a tradicional. De 10% a 18% das emissões de gases de efeito estufa vêm da agropecuária. Entre 70% e 80% dos antibióticos do mundo vão para a agropecuária, e não para o consumo humano. E 25% da água doce é consumida na pecuária, além de 70% de toda a terra arável.

A carne de laboratório reduz essas demandas e elimina menos gases tóxicos na natureza. É ainda um produto livre de parasitas porque é produzido no ambiente limpo do laboratório.

 

Detalhe de cultura de carne em laboratório
Detalhe de cultura de carne em laboratório | iStock
 



Como está o mercado hoje? 

É um mercado que está em desenvolvimento, não temos ainda no mundo uma indústria que, comercialmente falando, disponibiliza a carne cultivada para o mercado. O que existe são várias startups trabalhando em plano piloto. Órgãos conceituados, como a FDA, já estão articulando regulações a fim de facilitar os interesses em produzir a carne de laboratório. Em larga escala, gigantes processadoras de alimentos dos EUA, como a Tyson Foods, já demonstraram seu interesse em adaptar seu modelo de negócio a fim de se ajustar a esta alternativa sustentável.

A Merck, empresa alemã de ciência e tecnologia, e a processadora suíça de carnes Bell Food Group investiram US$ 8,8 milhões na holandesa Mosa Meat, uma startup que pretende produzir carne a partir de culturas de células animais.

Jayme Nunes, da Merck, diz que principal desafio é conseguir ampliar a produção para a escala industrial
Jayme Nunes, da Merck, diz que principal desafio é conseguir ampliar a produção para a escala industrial | Divulgação/Assessoria de imprensa
 



 

O que as pessoas devem saber para investir nesse tipo de produto? 

Dados mostram que em 2018 foram consumidos aproximadamente 60,9 milhões de toneladas de carne bovina globalmente e o Brasil é o terceiro país que mais consome carne bovina no mundo, com 7,93 milhões de toneladas. Hoje, a indústria pecuária contribui com 44% das emissões de metano e 53% do óxido nitroso – principais gases causadores do efeito estufa. Para produzir 1 kg de carne são necessários mais de 10 mil litros de água. Muitas áreas são desmatadas para servirem de plantio de soja para alimentar o gado e mais de 70% da produção de antibióticos está destinada à medicina veterinária.

 

Quais os principais desafios a serem enfrentados? 

Não temos ainda no mundo uma indústria que, comercialmente falando, disponibiliza a carne de laboratório para o mercado. O que existe são várias startups trabalhando em plano piloto. O principal desafio é conseguir ampliar a produção para uma escala industrial.

 

Quanto custa produzir?  

O preço do hambúrguer de células já caiu dramaticamente. Está em entre US$ 9 mil e US$ 10 mil. A tendência é que, em 2030, caia para US$ 50, quando a carne estaria disponível em restaurantes do guia Michelin. Em 2050, deve chegar a US$ 20.

Embora existam diversos planos piloto, a carne cultivada ainda não é feita em escala industrial. O The Good Food Institute estima que em 2025 já existam as primeiras ofertas no Guia Michelin desta carne por 50 dólares o quilo, e até 2050 espera-se que esta seja uma realidade já popular para todos nós, custando US$ 20 o quilo.

 

Carne de laboratório pode chegar às prateleiras do mercado já em 2021
Folha Arte
 


Simpósio discute carne do futuro

A carne produzida em laboratório será um dos destaques durante o 6º Simpósio de Produção Animal e Recursos Hídricos, evento que ocorre em outubro e aborda a temática das relações da água com a produção de proteína animal.



Realizado pela Embrapa Pecuária Sudeste, o simpósio ocorre nos dias 22 e 23 de outubro pelo canal do Youtube da Embrapa. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até o dia 20 de outubro pelo link https://bit.ly/sparh2020.


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